
Por: Salvador R. Cavaco
XXVIII Domingo do Tempo Comum (Ano A)
As Vestes das Núpcias
Primeira Leitura: Is 25, 6-10a
Responsório: Salmo 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6
Segunda Leitura: Filip 4, 12-14.19-20
Evangelho: Mt 22, 1-14
As leituras deste Domingo são atravessadas pela imagem das núpcias. Isaías contempla uma mesa preparada por Deus sobre o monte. Começa por referir: «Sobre este monte, o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos». O profeta não nos fala de um banquete universal num qualquer lugar, especifica ao afirmar «sobre este monte». É Sião, o lugar do Templo e do sacrifício, a morada que Deus escolheu para fazer habitar o Seu nome no meio de Israel. Os convidados são todos os povos. A mesa, porém, encontra-se sobre o monte do Senhor.
Esta tensão entre o particular e concreto e o universal pertence à própria história da salvação. Deus chama Abraão, escolhe Israel, estabelece com ele uma Aliança, dá-lhe uma Lei e um culto. Mas já na vocação de Abraão está inscrita a promessa: «em ti serão abençoadas todas as famílias da terra». Quando a promessa se alarga, a eleição não desaparece, aclara-se a finalidade para que fora dada. Os povos ascendem ao monte. A promessa feita a Israel alcança a sua extensão universal sem perder o novo centro que lhe dá a sua forma. Na plenitude dos tempos, esse centro já não é apenas um lugar. É uma Pessoa. O ponto de reunião é Cristo, Filho de David e Filho de Deus.
O banquete de Isaías possui também uma tonalidade cultual e litúrgica. Os «manjares suculentos», a abundância da gordura e do vinho, sobre o Monte Santo, evocam os sacrifícios e os banquetes sagrados de Israel. Não se trata apenas de uma abundância material. Trata-se de uma refeição diante de Deus. O profeta, contudo, anuncia algo que nenhum sacrifício antigo podia realizar: «Há de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre». A mesa deixa então de responder apenas à fome que sentimos. Toca na raiz da nossa condição humana.
A felicidade plena ou beatitude perfeita do homem não se atinge através de nenhum bem criado. A inteligência procura a verdade e a vontade procura o bem, mas nenhum bem finito aquieta definitivamente a vontade. A finalidade última da vida humana é o próprio Deus. E, no entanto, o homem não pode elevar-se pelas suas próprias forças à visão imediata da essência divina. Precisa de ser elevado por Deus.
É aqui que entra a graça santificante. Não é apenas um auxílio exterior, mas participação criada na vida divina. O Frade Garrigou-Lagrange resume esta doutrina numa fórmula simples: «a graça é a semente da glória».[1] Aquilo que esperamos possuir na visão beatífica, no paraíso, começa já, a transfigurar-se, pela graça. A vida sobrenatural que agora conhecemos pela fé chegará à sua plenitude quando virmos o Senhor face a face.
O Salmo que lemos neste Domingo aproxima-nos ainda mais desta imagem: «Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda». O salmo começara com o Pastor: «O Senhor é meu pastor: nada me falta». É Ele quem nos conduz, nos sacia a fome material e espiritual e a sede que nenhuma das cisternas rotas do nosso mundo pode saciar e que nos acompanha pelos vales tenebrosos e noites escuras. Depois encontramos uma mesa, óleo, um cálice e, por fim, uma casa: «habitarei na casa do Senhor para todo o sempre».
O Pastor não conduz o rebanho apenas a lugares seguros. Condu-lo à Sua própria casa. Para Israel, a «casa do Senhor» é o Templo. A mesa do salmo assume assim uma densidade litúrgica e sacrificial. No leccionário deste Domingo, o salmo transforma-se em passagem entre a mesa anunciada por Isaías e a mesa das núpcias anunciada por Cristo.
Quando São Paulo diz «Tudo posso n’Aquele que me conforta», não afirma que Cristo lhe permite alcançar tudo aquilo que deseja. Acabou de dizer precisamente o contrário: conhece a pobreza, a fome, a necessidade. O que recebeu de Cristo é uma liberdade interior que em nada depende das circunstâncias.
Chegamos, então, ao Evangelho: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho». A palavra nova é «nupcial». A mesa de Isaías torna-se agora mesa de núpcias.
Também isto vem de longe. Os profetas tinham aprendido a falar da Aliança em linguagem esponsal. O Senhor é o esposo de Israel. A idolatria é descrita como adultério e a restauração do povo toma a forma de uma reconciliação nupcial. Agora existe um Filho para quem o Rei prepara as bodas.
Cristo não vem apenas anunciar que o banquete existe. O banquete é preparado por Ele, para Ele e com Ele. É neste contexto que a recusa dos convidados se torna mais clara. «Sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio.» O campo não é mau, o negócio não é mau. E é precisamente por isso que a parábola é tão penetrante. Nem toda a desordem nasce da escolha directa de um mal. Pode nascer da escolha desordenada de um bem. O problema daqueles convidados não está em terem escolhido alguma coisa perversa. Está em terem preferido o que tinham entre mãos àquilo para o qual eram chamados.
A parábola deve ainda ser lida no seu lugar em São Mateus. Jesus fala aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, em Jerusalém, depois dos vinhateiros homicidas. Os servos maltratados e mortos inscrevem-se na história dos enviados de Deus e da recusa da palavra profética. O banquete estava preparado, a promessa fora dada e os mensageiros tinham sido enviados. Agora o próprio Filho está diante deles. Perante a recusa, o rei ordena: «Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes». Os servos saem e reúnem «maus e bons». A sala enche-se. A parábola poderia terminar aqui. Mas não termina: «O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.» Aquele homem não está fora. Recebeu o convite, atravessou a porta e entrou na sala. A segunda parte da parábola dirige-se também aos que já se encontram no interior. A veste procurada pelo Rei não está sobre o corpo, mas no coração. É a caridade que nasce «de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera».[2], como nos diz Santo Agostinho, que distingue o banquete sacramental desta vida daquele banquete definitivo no qual ninguém sem veste poderá permanecer. A veste não é um simples emblema exterior de pertença. Significa uma criatura que começou a adquirir, pela graça, a forma conveniente às núpcias para as quais foi chamada.
A tradição baptismal torna esta imagem quase visível. O neófito sai da água e recebe uma veste branca. A Igreja não afirma que ele se tornou puro pelas próprias forças. Pelo contrário: foi lavado, regenerado, revestido de Cristo. «Todos vós que fostes baptizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo.» (Gal 3, 27) Mas a veste recebida deve ser levada até ao encontro com o Esposo. É dom e, justamente por isso, torna-se tarefa. A graça não destrói a natureza nem substitui a liberdade. Cura-a, eleva-a e torna possível uma resposta que a natureza, deixada a si mesma, não poderia produzir. O homem não fabrica a veste para comprar um lugar à mesa. Recebe-a. Pode, contudo, deixá-la corroer pela traça do pecado.
A largueza do convite não diminui a seriedade da conversão. E a seriedade da conversão também não diminui a gratuidade do convite. O Rei vai buscar homens aos caminhos, mas chama-os para tomar parte nas núpcias. A misericórdia não consiste em deixar cada convidado exactamente como estava. Consiste em torná-lo capaz da comunhão para a qual foi chamado.
Tudo isto encontra na Santa Missa uma realização singular. A Eucaristia é verdadeiramente banquete, mas é banquete sacrificial. A Missa não é, em primeiro lugar, uma refeição religiosa à qual depois se acrescenta a memória da Cruz. Sobre o altar está o mesmo Cristo que Se ofereceu no Calvário. O único Sacrifício da Cruz não é repetido, mas tornado sacramentalmente presente. Por isso podemos comer: recebemos a Vítima oferecida, o Cordeiro pascal que morreu e ressuscitou.
Na Última Ceia, Cristo antecipou sacramentalmente a entrega da Cruz. Na celebração eucarística, a Igreja torna presente o Sacrifício redentor do seu Esposo. A antiga ceia sacrificial chega, em Cristo, à verdade: figura transit in veritatem, a figura dá lugar à Verdade.[3] É importante conservar esta ordem quando falamos de «banquete». A mesa cristã não está separada do altar. A comunhão não está separada da oblação. A presença real não nasce de uma fraternidade reunida à mesa. Procede das palavras de Cristo sobre o pão e o cálice, inseparáveis da entrega do Seu Corpo e do derramamento do Seu Sangue. A Missa é o Sacrifício de Cristo tornado presente sacramentalmente e oferecido ao Pai. E a Igreja é associada à oblação do seu Senhor.
Bento XVI dizia que no altar se encontra o próprio Cristo, «verdadeiro cordeiro pascal», que Se ofereceu em sacrifício por nós. O altar é ponto de encontro entre o Céu e a terra. Esta linguagem não reduz a Eucaristia a uma devoção individual nem a uma simples ceia comunitária. Coloca-a no eixo da Cruz, da Ressurreição e da liturgia celeste. É por isso que o banquete de Isaías pode ser reconhecido na Missa sem ser reduzido a ela. Já estamos à mesa e ainda caminhamos para a mesa. Já recebemos o Cordeiro e ainda esperamos as núpcias do Cordeiro. A presença é real, mas a visão permanece futura. Recebemos sob o véu das espécies sacramentais Aquele que esperamos contemplar sem véu.
Leão XIV retomou esta intuição com uma expressão muito simples: na Eucaristia, Cristo «transforma o pão em Si mesmo, para nos transformar n’Ele».[4] A frase diz algo essencial para a parábola. O convidado não é apenas introduzido numa sala. É chamado a tornar-se conforme Àquele que o recebe. Aproximar-se da mesa do Senhor não é apenas receber uma coisa santa. É receber o Santo dos Santos. Aquilo que recebemos no altar deve tornar-se princípio de uma existência oferecida, de uma inteligência iluminada pela fé e de uma vontade ordenada pela caridade.
Deus não reúne os homens numa humanidade sem rosto. Reúne-os na nova humanidade inaugurada por Cristo. Não os chama porque já estão revestidos. Chama-os para os revestir com a graça. Não lhes pede que tragam consigo a vida eterna. Dá-lhes, pela graça, a sua semente, semente de glória.
A Igreja permanece, assim, entre o monte de Isaías e a Jerusalém celeste, celebrando sobre os seus altares o Sacrifício daquele que abriu a porta. Ainda caminhamos por «vales tenebrosos». Ainda conhecemos pobreza e abundância. Ainda a veste pode ser manchada e precisa de ser restaurada pela penitência. Mas a mesa já foi posta. E sobre ela está o Cordeiro.
Notas
[1] Réginald Garrigou-Lagrange, O.P., The Three Ways of the Spiritual Life.
[2] Santo Agostinho, Sermon 40 on the New Testament, sobre Mt 22, 1-14.
[3] Bento XVI, Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, nn. 9-12 e 31.
[4] Leão XIV, Homilia na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, 22 de Junho de 2025.




