
Por: Catarina Cid
Primeira Leitura: Êxodo 22, 20-26
Salmo: 18, 2-3, 3-4, 47, 51
Segunda Leitura: Tessalonicenses 1, 5c-10
Evangelho: Mateus 22, 34-40
Neste XXX Domingo do Tempo Comum, na recta final do ano Litúrgico, a Igreja conduz o povo de Deus à contemplação da essência da Lei e dos Profetas, ao propósito subjacente a toda a milenar História da Salvação, ao coração da revelação divina contida nas Escrituras. Como povo de Deus, somos convidados a reflectir sobre a Sua «urgência» em nos resgatar da escuridão do egoísmo, condensando toda a História, toda a Lei num único Mandamento: o Mandamento do Amor.
Conta-nos São Mateus:
Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «“Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito”. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».
A Força da Lei
Mais uma vez, Jesus é confrontado com as armadilhas dos saduceus, mas, na Sua infinita sabedoria, responde-lhes de uma maneira desconcertante, contrariando as expectativas dos que o interpelavam. É legítimo pensar sobre a real intenção desta interpelação. Vejamos, é um Doutor da Lei que se dirige a Jesus. Um sábio. Uma autoridade. A Lei, que este conhecia, ensinava e impunha, a Torah para os Judeus, era o vasto conjunto de leis, regras e preceitos sociais e de organização e expressão do culto que regiam o povo de Israel deste Moisés e estavam contidos em cinco livros.
Estes cinco longos e detalhados livros eram a base da lei e das Escrituras, a base de toda a sociedade religiosa judaica. A Torah, ou Pentateuco como a conhecemos hoje, é composto pelos livros do Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Estes livros eram o coração da Lei Judaica e neles a tradição judaica identificava seiscentos e treze leis e preceitos cuja observância regulava a vida religiosa e social de Israel. A transgressão de determinados preceitos podia implicar diferentes formas de expiação ou, em alguns casos, penas severas como a pena de morte.
A pergunta sobre qual (dos 613) seria o maior dos mandamentos poderia ter dois sentidos: qual o mandamento mais importante ou qual o primeiro de todos aqueles. Seria expectável que Jesus remetesse para o primeiro dos Dez Mandamentos entregues a Moisés no Monte Sinai: «Eu Sou o Senhor teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.» (Ex 20,3).
Os Dez Mandamentos (o Decálogo) eram (e são) um conjunto de 10 preceitos, muitos deles formulados como «proibições», que vieram impor a ordem no modo de vida do povo que acabava de ser libertado da escravidão do Egipto. Proibiam objectivamente práticas comuns daquele povo que tanto precisava de leis, pois muito ofendia a Deus e ao próximo.
Escuta Israel!
No entanto, Jesus «dá a volta» e, numa abordagem positiva aos preceitos e proibições de Moisés, em vez de remeter a Sua resposta para o primeiro Mandamento do Decálogo, remete para o mandamento fixado no livro do Deuteronómio 6, 4-6. Este, por todos conhecido e recitado, estabelece a base da fé e da vida do Povo de Deus escolhido. É o credo do Povo de Deus, ao longo dos séculos e até aos dias de hoje; o resumo do que deve ser a vida de um crente temente a Deus; o que os Judeus chamaram Shemá (Ouve! Escuta!):
Escuta, Israel, o SENHOR é nosso Deus; o SENHOR é um só. Amarás, portanto, o SENHOR, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam no teu coração. Deves repeti-las aos teus filhos e recitá-las quando estiveres em tua casa, quando andares no caminho, ao deitares-te e ao levantares-te. E deves prendê-las como um sinal na tua mão; e serão como uma marca entre os teus olhos. Escrevê-las-ás nas ombreiras da tua casa e nas tuas portas.
O Shemá era tradicionalmente rezado três vezes ao dia («ao caminhar, ao deitar e ao levantar») pelo comum dos judeus, em cumprimento do preceito estabelecido na Lei. O próprio Jesus com Seus Pais Maria e José o terá certamente recitado incontáveis vezes ao longo da Sua vida. Era, para os judeus, uma oração central e profissão da sua fé, de modo semelhante à importância do Pai Nosso para os cristãos. Num dos primeiros escritos cristãos (Didaqué), recomenda-se que a oração do Pai Nosso seja rezada também três vezes ao dia, adoptando o costume judaico da oração diária do Shemá.
Deus «promete» ao Seu povo que os Seus mandamentos serão impressos de forma indelével no seu coração e infusos na sua alma de modo a poderem ser naturalmente transmitidos de geração em geração.
Amar sem limites
Conta a tradição judaica que um rabino do século III ao ser terrivelmente torturado e martirizado pelos romanos, não deixou, durante o seu suplício, de recitar o Shemá: «O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.». Os seus discípulos não compreendiam como é que, num momento de tão grande sofrimento, aquela oração continuava a brotar da sua boca e perguntaram-lhe: «Nosso mestre, até este ponto?», como que dizendo: «Nesta situação ainda vais recitar o Shemá?» Ele respondeu-lhes: «Durante toda a minha vida, tenho querido saber o que significa, na verdade, o versículo: “com toda a tua alma”. Quando terei a oportunidade de o cumprir? Agora que tenho a oportunidade, não devo cumpri-lo?» A tradição diz que o Rabino prolongou a palavra único até ao momento em que expirou.
Não temos nós na Igreja Católica tantos e tantos exemplos e histórias de mártires que viveram este versículo ao seu máximo expoente? Levantando os olhos ao Céu e, no meio de terríveis sofrimentos, rezavam oferecendo a sua vida por amor a Deus, à Sua Palavra e à Sua Lei?
Conseguimos agora perceber por que razão Jesus pode ter dito que amar o «Senhor, o teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu espírito» era o mais importante de todos os Mandamentos. Falava já da Sua entrega total a Deus, até à morte na Cruz.
Jesus dá-nos ainda um segundo mandamento, como que o pondo em pé de igualdade com o primeiro: «Há um segundo mandamento semelhante a este: amarás o teu próximo como a ti mesmo.»
As Duas Tábuas da Lei
Os Dez Mandamentos inscritos pelo próprio dedo de Deus nas duas tábuas da Lei, podem ser divididos em preceitos que dizem respeito ao amor a Deus e preceitos que dizem respeito ao amor ao próximo. Tradicionalmente, cada uma das duas tábuas está associada a cada um destes tipos de leis.
Santo Agostinho, referindo-se a estes dois Mandamentos maiores que Jesus nos deixa, deixa bem claro que estes estão, na realidade, relacionados com o Decálogo. Embora Jesus cite o Shemá do Livro do Deuteronómio, está, na verdade, a resumir a essência dos Dez Mandamentos:
Como a caridade abrange dois preceitos, nos quais o Senhor resume toda a Lei e os Profetas, [...] assim também os Dez Mandamentos estão divididos em duas tábuas. Três foram escritos numa tábua e sete na outra. (1)
Ao recorrer ao livro do Deuteronómio na Sua resposta, Jesus não rejeita os Dez Mandamentos; pelo contrário leva-os à sua plenitude. Em vez de se limitar às proibições nestes contidas, opta pela abordagem positiva, a do Amor: o que se deve evitar dá lugar ao que se deve real e concretamente fazer.
Jesus engloba, assim, na Sua resposta, toda a Escritura, confirmando o sentido e o significado do que era a tradição e conferindo um sentido concreto e renovado ao mandamento do Amor, que atravessa toda a História de Deus connosco.
Deus prefere os mais fracos
Na primeira leitura deste Domingo, embora pudéssemos esperar ouvir os Dez Mandamentos ou o próprio Shemá, a Igreja escolheu um texto do livro do Êxodo um pouco menos conhecido, mas de grande relevância, e que se centra no amor ao próximo:
Eis o que diz o Senhor: «Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito. Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada. As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos os vossos filhos. Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros. Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr do sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso».
Deus revela assim especial cuidado para com os mais frágeis e desprotegidos da sociedade. Por isso, o Catecismo da Igreja Católica (n.º 1867) se refere ao pecado cometido contra as pessoas nestas condições como um pecado muito grave, incluindo-o na classe dos pecados que bradam aos Céus.
É precisamente neste contexto que se compreende a escolha do Salmo 18, cujo refrão é: «Eu Vos amo, Senhor: Vós sois a minha força». Depois de ouvirmos o clamor daqueles que sofrem e a promessa de Deus de escutá-los, o salmo proclama o Senhor como rocha, fortaleza, libertador e refúgio daqueles que O invocam na aflição. Recorda-nos, assim, que o Senhor ouve o clamor dos necessitados e intervém para os proteger e libertar. Ao mesmo tempo, reconhece que Deus é o justo juiz, que faz justiça e vence a violência, enquanto oferece proteção e alívio àquele que n’Ele confia e invoca o Seu nome no tempo da aflição.
Toda a Lei se resume ao Amor
Do que nos falam, então, as Escrituras deste Domingo? Não nos falam do Amor? Do amor que devemos a Deus por tudo o que fez e continua a fazer por nós? Do amor a Deus que se reflecte na vida ao serviço do próximo, como resposta aos nossos anseios às nossas infelicidades, como chave para uma vida plena, agora, já hoje, já aqui?
Ao Amor se resume toda a Lei e os Profetas, o Antigo e o Novo Testamento, ao Amor se resume todo o propósito da Encarnação.
Jesus veio mostrar-nos como se ama verdadeiramente e como não é possível amar a Deus sem O amar no nosso próximo e, em especial, nos nossos irmãos mais frágeis e indefesos.
Toda a Lei, toda a História, todos os séculos desde a Criação à revelação de Deus a Abraão e às Alianças com Noé, Moisés e David, culminando na Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo e na fundação da Igreja Santa e Imaculada, Esposa de Cristo, tudo, absolutamente tudo, se resume a estes dois Mandamentos:
Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito [e] Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
(1) Santo Agostinho, Sermão 33, 2, citado no Catecismo da Igreja Católica, § 2067
Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 26th Sunday Ordinary Time» de Brant Pitre




