II Domingo do Tempo do Advento

Por: Mafalda Moncada Cordeiro e Duarte Azevedo Mendes

II Domingo do Advento (Ano A)
Preparai o caminho do Senhor


Primeira Leitura:
Isaías 11:1–10
Salmo: 71(72):1–2.7–8.12–13.17
Segunda Leitura: Romanos 15:4–9
Evangelho: Mateus 3:1–12

Neste segundo Domingo do Advento é particularmente importante voltar atrás no tempo e mergulhar na vida e no olhar de um judeu do século I. Só assim poderemos compreender a expectativa da vinda do Messias e situar o seu significado, preparando melhor o nosso coração para O acolher.
No Evangelho deste Domingo, recuamos até João Baptista, o último dos profetas e o principal proclamador da vinda de Cristo. Em Mateus 3:1-12 está escrito:

“Naqueles dias, apareceu João Batista a pregar no deserto da Judeia, dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem a pá na sua mão: há de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».”

“Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus.” Eis a principal mensagem de João Baptista, profundamente enraizada nas profecias do Antigo Testamento que seriam bem conhecidas por qualquer judeu do século I. No meio do deserto, ao apelar a “preparar o caminho do Senhor”, João Baptista evoca o Êxodo do Egipto, a viagem até à Terra Prometida. Escolhe as águas do Jordão, o rio cuja travessia marcou o fim do primeiro Êxodo, para anunciar o início de um novo, da vinda de uma nova Terra Prometida, de uma nova era de salvação para o povo de Deus. Ao anunciar esta boa nova, João Baptista despertava a esperança do início do cumprimento das profecias de Deus, atraindo multidões que vinham até ele para receber o baptismo, um baptismo de arrependimento e de preparação para a chegada do Reino do Céu. Após quatro séculos de silêncio profético, João Baptista surge como um verdadeiro profeta, à semelhança de Elias: um asceta austero, vestido com uma “veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins” (2 Reis 1:8). Isto era particularmente significativo, pois o profeta Malaquias anunciara que Elias deveria regressar à frente do Senhor em julgamento (Ml 3:22-24). João Baptista não é, no entanto, o centro: veio para apontar para alguém que virá depois dele. Reconhece-se até indigno de lhe desatar as sandálias, gesto reservado aos escravos. Esse alguém não baptizará apenas com água para o arrependimento, mas com o Espírito Santo e fogo. Com este anúncio e as suas implicações, vem naturalmente a atenção dos fariseus e saduceus para a qual João Baptista dá nota com a imagem do machado colocado à raiz das árvores. Não serão salvos só por fazerem parte da família de Abraão, é preciso dar frutos dignos de arrependimento. Só assim a raiz da árvore não será cortada pelo Senhor. Por outras palavras, são necessárias para além da fé, obras. 

Para melhor compreendermos o significado da existência de João Baptista e o seu impacto, é importante voltar às profecias do Antigo Testamento. É aqui que entra a primeira leitura deste Domingo, Isaías 11:1-10, uma profecia muito famosa e importante, que traz uma mensagem de esperança. Dizem os primeiros versículos:

“Naquele dia, sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus. Animado assim do temor de Deus, não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. Julgará os infelizes com justiça e com sentenças rectas os humildes do povo. Com o chicote da sua palavra atingirá o violento e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio. A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos.”

Jessé foi o pai do rei David, o mais importante rei de Israel. Importa recordar que o reino de David acabou por ser destruído pelos Babilónios e Assírios. Aquilo que fora uma árvore robusta, ficou reduzido a um simples tronco, cortado devido a pecados como a idolatria e a corrupção. O profeta Isaías anuncia, no entanto, a esperança: desse tronco surgirá um rebento, do qual brotará uma nova árvore. Esse rebento será ungido com o Espírito Santo e terá os seus dons. Terá sabedoria e entendimento, conselho e fortaleza, conhecimento, piedade e temor do Senhor. Será o Messias, revestido de justiça, chamado a restaurar o povo e a instaurar o Reino de Deus. 

Apesar da concepção de que os judeus esperavam apenas um Rei que os libertasse do domínio romano, o Messias anunciado pelos profetas seria muito mais do que um líder político. Isaías fala sobre uma nova criação, uma nova Jerusalém, da conversão do mundo inteiro e até de um novo templo, em suma, fala sobre o restauro da árvore de Jessé:

“O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.”

A paz e harmonia entre animais divididos por natureza evocam a imagem do Éden. Há aqui um anúncio do restauro de um paraíso onde não há sofrimento nem dor, um novo Éden, uma nova Jerusalém, uma nova cidade de Deus. A terra será então cheia do conhecimento do Senhor, o que confere esperança para a conversão dos gentios. É ainda dito que o futuro rei terá uma morada gloriosa, uma profecia sobre um novo templo. Portanto, o que os judeus esperam é um rei renovador e salvador, um Messias capaz de fazer novas todas as coisas, incluindo uma nova Jerusalém. Quando João Baptista proclama que o Reino dos Céus está próximo, torna-se claro que anuncia precisamente o cumprimento destas profecias, aguardado há tantos séculos pelo povo judeu. 

A imagem do Messias esperado pelos judeus é também evidente no salmo deste Domingo, o salmo 72, que funciona como uma ponte entre o Antigo e Novo Testamento:

“Ó Deus, dai ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.
Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.”


Aqui é descrito um futuro rei, que será universal, reinando sobre o mundo inteiro: “Ele dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra.” É um rei que trará a paz e justiça. 

Na segunda leitura, do Novo Testamento, São Paulo relembra o anúncio dos profetas e recorda a chegada do rei universal profetizado. Em Romanos 15:4-9 lemos o seguinte:
“Irmãos: Tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. O Deus da paciência e da consolação vos conceda que alimenteis os mesmos sentimentos uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que, numa só alma e com uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus. Pois Eu vos digo que Cristo Se fez servidor dos judeus, para mostrar a fidelidade de Deus e confirmar as promessas feitas aos nossos antepassados. Por sua vez, os gentios dão glória a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: «Por isso eu Vos bendirei entre as nações e cantarei a glória do vosso nome».”

São Paulo recorda a importância das Escrituras, que nos dão a esperança de que a salvação virá para todas as nações do mundo e não só para os judeus, tal como João Baptista anunciou.

Durante este tempo de Advento devemos, então, colocarmo-nos na posição de João Baptista, expectantes pela vinda do Messias. Jesus de Nazaré não é apenas mais um líder de uma religião. O cristianismo não é uma religião criada pelo homem, é uma religião divinamente revelada por Deus e que foi preparada por Deus ao longo dos séculos. Com o anúncio proclamado por João Baptista e o nascimento de Jesus, miríades de profecias cumpriram-se. E este rebento do tronco da árvore de Jessé é apenas uma delas. Tal como diz o Catecismo, durante o Advento a Igreja une-se ao desejo de São João Batista pela vinda do Reino de Deus e a vinda do Rei da Glória, Jesus Cristo, o Rei dos Reis. Assim também, durante o Advento, preparamo-nos para encontrar Cristo na grande Solenidade da sua entrada no tempo e na História, o Natal.

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A – 1st Sunday of Advent” por Brant Pitre

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