
Por: Salvador R. Cavaco
Primeira Leitura: Is 56, 1, 6-7
Responsório: 67 (66), 2-3, 5, 6, 8
Segunda Leitura: Rm 11, 13-15, 29-32
Evangelho: Mt 15, 21-28
As leituras deste Domingo revelam a amplitude do desígnio salvífico de Deus. A Salvação, que nasce no interior da eleição de Israel, não se encerra, contudo, nela. Desde o princípio, a promessa feita a um povo contém uma fecundidade possível de tocar todos os povos. Não se trata, pois, de ultrapassar Israel ou de o substituir, mas de reconhecer que a sua eleição possui, por vontade divina, uma finalidade universal, católica.
Na primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaías, começamos por ler:
Eis o que diz o Senhor: «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se.
Este texto pertence ao período posterior ao exílio da Babilónia. Israel regressara à sua terra e o Templo fora reconstruído. Esta era a restauração prometida, permanecendo, porém, incompleta. Israel voltara a oferecer o culto no lugar santo, mas não recuperara a sua soberania e continuava submetido ao poder persa. Sobretudo, a reconstrução exterior não trouxera consigo a plena renovação do povo. De tal modo que conhecia o peso da demora e o cansaço de uma esperança que parecia tardar em cumprir-se. É precisamente nesse contexto que o Senhor anuncia a proximidade da Sua salvação.
A promessa não oferece ao Homem um refúgio fora da História. Inscreve, antes, o universal no particular e exige uma forma concreta de existência: «respeitar o direito» e «praticar a justiça». A justiça humana não produz a salvação divina, devendo, contudo, corresponder-lhe. Porque Deus Se aproxima, a vida do povo deve começar a tomar a forma d’Aquele que se espera. A esperança bíblica possui esta sobriedade: não permite que o futuro prometido sirva de desculpa para a infidelidade presente.
Em seguida, o texto do profeta Isaías dirige-se aos estrangeiros:
… Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, hei de conduzi-los ao meu santo monte, hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada ”casa de oração para todos os povos”».
A novidade é considerável. Os estrangeiros não são apenas tolerados nas margens de Israel: são conduzidos ao monte santo, admitidos na casa do Senhor e associados ao Seu culto. O verbo «servir» possui, neste contexto, uma ressonância de culto: aqueles que outrora estavam longe são recebidos no espaço central da vida de Israel, o da aliança e da adoração.
Esta abertura não dissolve a identidade de Israel. Os estrangeiros entram porque se convertem ao Senhor, amam o Seu nome e permanecem fiéis à Sua aliança. A universalidade bíblica não nasce, portanto, da indiferença perante a verdade, nasce da conversão ao Deus vivo, Ele próprio centro de comunhão. O Deus que reúne as nações é o Deus de Israel, que as reúne justamente porque permanece fiel à promessa feita a Israel.
O Salmo 67 (66) retoma a bênção derramada sobre Israel e alarga-lhe o horizonte:
Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos caminhos
e entre os povos a vossa salvação.
A luz do rosto de Deus resplandece sobre o Seu povo e, por meio desse resplendor, visível ao olhar das nações, os Seus caminhos tornam-se agora conhecidos por toda a terra. A eleição do povo de Israel não constitui uma posse fechada, mas uma mediação para toda a orbe, isto é, para todos os povos. A bênção recebida tende, pela sua própria natureza, a comunicar-se. Israel é abençoado para que, através dele, a promessa feita por Deus a Abraão alcance todas as famílias da terra.
O salmo evoca ainda:
Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos Vos louvem.
Os povos não são chamados a uma coexistência sem conteúdo, nem a um indiferentismo religioso. São convocados para um único louvor, dirigido ao único Deus. A unidade anunciada pelo salmista não resulta da redução de todas as crenças a um denominador comum, nasce do reconhecimento da mesma soberania divina. A leitura cristã contempla nesta assembleia dos povos uma prefiguração da Igreja: muitas nações, línguas e histórias reunidas, não em torno de si mesmas, mas diante do mesmo Senhor.
A fé da mulher cananeia
Passando à leitura do Evangelho deste Domingo, São Mateus começa por relatar-nos:
Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia. Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.
Jesus retira-Se para a região de Tiro e de Sidónia, território gentio. São Mateus chama à mulher «cananeia», retomando uma designação antiga e carregada de memória bíblica. Ela representa, assim, não apenas uma estrangeira, mas um povo historicamente situado fora da Aliança e associado, nas Escrituras, à idolatria e à oposição a Israel.
É, todavia, esta mulher quem reconhece Jesus como «Senhor» e «Filho de David». O título é propriamente messiânico. Aquela que, segundo a História da Salvação, permanece ainda fora de Israel confessa o Messias de Israel com uma clareza que falta a muitos dos que O rodeiam. O seu clamor, «Senhor, tem compaixão de mim », corresponde, no original grego, à invocação grega Kyrie eleison. Estas palavras permanecerão no coração da liturgia cristã e conhecerão particular aprofundamento na tradição espiritual bizantina, sobretudo na oração de Jesus, também chamada oração do coração ou oração do pobre. Aqui, porém, conservam ainda toda a sua nudez originária: são o grito de quem nada pode reivindicar e, não obstante, reconhece em Cristo Aquele de Quem tudo pode esperar.
O silêncio de Jesus constitui a primeira resistência, ou dureza, do texto e não deve, por isso, ser atenuado. A mulher clama, mas o Senhor não lhe responde. Também nós, diante do sofrimento, do cansaço e da provação, nos encontramos, não raras vezes, perante esse mesmo silêncio de Deus. Não se trata, porém, de um silêncio vazio. A narrativa deixa que nele se manifestem as disposições interiores de cada um: de um lado, a perseverança da mulher; do outro, a impaciência dos discípulos.
O pedido dos discípulos nasce, ao menos no plano narrativo, do incómodo causado pelos gritos da mulher, angustiada pela filha. Aqueles que acompanham Jesus ainda não compreendem o alcance da Sua presença, que aquela que vem de fora reconhece que, diante d’Ele, se decide algo absoluto.
Jesus, então, declara: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.» A frase estabelece a prioridade de Israel no desígnio da Salvação. Jesus não aparece como um mestre religioso desligado da História da Aliança: é o Messias prometido a Israel, enviado para reunir as ovelhas dispersas da casa de Jacob.
Esta prioridade não significa a exclusão definitiva dos gentios. Significa, antes, que a salvação lhes chega através do cumprimento da promessa feita a Israel. Só depois da Ressurreição os Apóstolos serão enviados a todas as nações (Mateus 28, 19). Essa missão universal nascerá, todavia, d’Aquele que cumpriu até ao fim a missão recebida no seio do povo eleito.
A mulher não se afasta e prostrando-se diante de Jesus suplica-Lhe: «Socorre-me, Senhor.»
O verbo grego proskyneō pode significar prostração, veneração ou adoração. São Mateus emprega-o noutros lugares para descrever a atitude dos discípulos diante de Cristo. Neste gesto de singular beleza, a mulher não se limita, pois, a reiterar o seu pedido: reconhece em Jesus uma soberania e entrega-se inteiramente ao seu poder. A sua prostração torna-se oração: não apenas a voz suplica, mas o próprio corpo a confessa.
Jesus, ao invés de atender ao pedido da mulher, responde: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos»
A imagem é deliberadamente dura. Os filhos representam Israel, os cachorrinhos representam os gentios. O termo grego encontra-se no diminutivo e evoca pequenos cães domésticos. A distância não desaparece, embora os animais sejam situados no interior da casa: não se encontram à mesa, mas vivem daquilo que dela cai.
A mulher não rejeita a ordem enunciada por Jesus, mas replica: «também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos.»
A resposta contém o centro teológico do episódio. A mulher não reclama o pão contra os filhos, nem nega a precedência de Israel. Reconhecendo-a, percebe, ao mesmo tempo, que a abundância da mesa não se esgota naqueles que primeiro nela se sentam.
Não pede que os filhos sejam privados do alimento, pede uma migalha. Compreende, contudo, que uma migalha proveniente daquela mesa contém poder bastante para libertar a sua filha. A sua humildade não é servilismo: sabe quem é, reconhece diante de Quem está e confia que a misericórdia divina não diminui quando se comunica.
Com esta resposta, Jesus proclama a fé daquela mulher e atende ao seu pedido. A partir desse instante, a filha ficou curada. A grandeza da fé desta mulher não reside apenas na persistência. Consiste em acolher a ordem da História da Salvação sem concluir, por isso, que a misericórdia lhe está vedada. Ela não contesta a precedência de Israel, nem pretende corrigir o desígnio de Deus, reconhece no Messias de Israel a fonte da Salvação e entra, pela fé, na abundância da promessa. Manifesta-se deste modo aquilo que o Concílio Vaticano II ensina acerca da unidade do desígnio divino: Deus escolheu Israel e estabeleceu com ele uma aliança, preparando no seio deste povo a nova e definitiva Aliança em Cristo, na qual todos os homens são chamados a constituir um só Povo de Deus. (1) A universalidade da salvação não se alcança, portanto, à margem da eleição, mas através do seu cumprimento em Cristo.
No silêncio e nas respostas de Jesus não encontramos uma mudança de intenção, mas a revelação gradual daquilo que desde o princípio pertence ao Seu desígnio. Cristo não aprende com a mulher aquilo que ignorava; conduz o encontro de modo que a sua fé se torne manifesta e que os discípulos reconheçam naquela estrangeira uma disposição que eles próprios ainda precisam de adquirir. Não é a condição de estrangeira que a salva, mas a fé pela qual ela adere ao Senhor e recebe d’Ele a graça pedida. O episódio antecipa, deste modo, a reunião dos povos na unidade messiânica: não uma unidade fundada na indiferença religiosa, mas na incorporação em Cristo, «luz dos povos», por Quem a Igreja é constituída sacramento da união dos homens com Deus e da unidade de todo o género humano. (2)
Deste modo, as leituras deste Domingo convergem. Isaías anunciara os estrangeiros conduzidos ao monte santo e o salmo convocara todos os povos ao louvor. No Evangelho, essa promessa deixa de ser apenas anunciada e começa a adquirir um rosto.
A mulher cananeia encontra o seu lugar não fora da mesa de Israel, mas na abundância que dela procede. A sua fé compreende que a eleição, quando é verdadeiramente dom de Deus, não produz escassez, mas fecundidade. O pão permanece dos filhos, mas a sua plenitude, porém, é tal que até aquilo que cai da mesa basta para restaurar uma vida.
(1) Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium, n.os 9 e 13.
(2) Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium, n.º 1.
Texto baseado em “«Mass Readings Explained – 20th Sunday in Ordinary Time» por Brant Pitre.




