
Por: Padre Duarte Andrade e Sousa
Festa do Baptismo do Senhor
Primeira Leitura: Is 42, 1-4.6-7
Salmo: 28 (29), 1a.2.3ac-4.3b.9b-10
Segunda Leitura: Act 10, 34-38
Evangelho: Mt 3, 13-17
A festa do Baptismo do Senhor, apesar de assinalar um episódio de grande importância na vida de Jesus, corre o risco de cair no esquecimento no ritmo da vida litúrgica da Igreja. De facto, estamos a chegar ao fim de uma série de Tempos e Domingos muito importantes: o Tempo do Advento com toda a sua mensagem de vigilância e preparação para a vinda de Jesus, seguido da Solenidade do Natal, a Festa da Sagrada Família, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a Solenidade da Epifania, tudo isto já no Tempo do Natal. Não admira que a celebração do Baptismo do Senhor possa passar despercebida. Mas não deve.
Em primeiro lugar é importante notar que esta Festa marca o final do Tempo do Natal e o início do Tempo Comum. Como uma ponte entre estes dois tempos, o Domingo do Baptismo do Senhor dá início à Primeira Semana do Tempo Comum e, seguidamente, o II Domingo, não havendo propriamente um I Domingo do Tempo Comum. E, apesar de associarmos o baptismo normalmente à nossa infância, no caso de Jesus sabemos que não aconteceu quando era bebé (portanto perto dos mistérios do Natal), mas já na sua vida adulta.
Contudo, podemos dizer que o baptismo inaugura uma nova e importante etapa na vida de Jesus: a sua vida pública e o seu ministério.
Diz-nos o Evangelho:
«Naquele tempo, Jesus chegou da Galileia e veio ter com João Batista ao Jordão, para ser baptizado por ele. Mas João opunha-se, dizendo: “Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?” Jesus respondeu-lhe: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça.” João deixou então que Ele Se aproximasse. Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água. Então, abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”.» (Mt 3, 13-17).
Da leitura desta passagem podemos destacar algumas imagens com claras ressonâncias do Antigo Testamento. Em primeiro lugar, Marcos diz-nos que Jesus veio da Galileia para o Jordão, ou seja, do Norte para Sul, mais concretamente Sudeste. O lugar onde ocorre o baptismo é muito significativo para qualquer judeu. Depois do longo êxodo de 40 anos no deserto, o povo de Israel finalmente entra na Terra Prometida exactamente naquele lugar, na fronteira que o rio Jordão faz na margem Este da Terra Santa. Não é portanto um lugar qualquer, mas um marco cheio de significado histórico e teológico. Atravessar o Rio Jordão marca a chegada, o cumprimento da promessa, o inaugurar de uma Terra que lhes era destinava. É um acontecimento verdadeiramente libertador, pascal até, no seu sentido etimológico de passagem.
Se relermos os capítulos 3-4 do livro de Josué, damo-nos conta que esta travessia foi também ela muito particular:
«E quando o povo saiu das suas tendas para atravessar o rio, os sacerdotes que levavam a arca da aliança iam à sua frente. Chegaram ao rio Jordão. Era no tempo das ceifas, quando o rio vai a transbordar pelas margens. Mas logo que os pés dos que levavam a arca tocaram na água, as águas que desciam pararam e amontoaram-se como se formassem uma barragem, numa grande extensão, até perto de Adam, localidade situada nas proximidades de Sartan. E as águas que desciam para o mar de Sal ficaram completamente separadas, de modo que o povo pôde atravessar. Isto deu-se perto de Jericó.» (Js 3, 14-16)
Este trecho leva-nos ainda imediatamente a outra passagem miraculosa a pé enxuto, precisamente o momento em que começa o êxodo: essa grande viagem libertadora ocorre entre a passagem do Mar Vermelho e a passagem do Rio Jordão.
Assim, o lugar do baptismo do Senhor no Jordão tem ecos de uma passagem libertadora através das águas. Podemos afirmar que, depois do primeiro êxodo, agora o Baptista estava inaugurar um novo e definitivo êxodo, cuja passagem se daria através de Jesus, qual novo Josué (nome com a mesma origem de Jesus), pelo baptismo no Jordão.
Em segundo lugar, não é difícil perceber que a imagem do Espírito Santo a descer sobre Jesus após o baptismo tem ecos de unção. Assim como o óleo era derramado sobre a cabeça de reis como sinal da escolha divina, também o Messias é ungido, já não com óleo, mas com o próprio Espírito Santo. De facto, Messias significa Ungido. David é ungido Rei de Israel com óleo pelo profeta Samuel e agora Jesus é ungido (Messias) com o Espírito Santo por João Baptista: é o novo Rei David. É o que nos profetizava Isaías na Primeira Leitura da Missa do Baptismo do Senhor: «Sobre ele fiz repousar o meu espírito» (Is 42, 1); e o que nos é confirmado na Segunda Leitura por São Pedro nos Actos dos Apóstolos: «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele.» (Act 10, 38).
Outro eco do Antigo Testamento presente neste episódio é a referência aos céus abertos. Para qualquer judeu que escutasse este relato era fácil lembrar-se de Elias quando este é elevado aos céus… precisamente sobre as águas do rio Jordão que ele aparta (2Reis 2, 1ss). A subtil diferença entre Jesus e Elias é que não são as águas do Jordão que se abrem para que Ele entre na Terra Prometida, como aconteceu no êxodo do Egipto. São os céus que se abrem, no mesmo sentido em que Elias subiu ao Céu no fim da sua vida. Assim, no baptismo de Jesus é revelada a natureza do novo êxodo. O primeiro êxodo foi uma viagem terrena para uma Terra Prometida terrena. Mas quando Jesus desce às águas do Jordão, são os céus que se rasgam para que o Espírito desça sobre Ele.
Portanto, o destino final do novo êxodo de Jesus é a Terra Prometida celeste, aquela para onde Elias foi levado no fim da sua vida, junto do rio Jordão.
Outra clara referência do Antigo Testamento é a forma de pomba sob a qual o Espírito Santo desce. Também para nós, e certamente um judeu, a pomba transporta-nos para a famosa passagem do Dilúvio. No capítulo 8 do livro da Génesis é-nos relatado que, após o tempo da cheia e a Arca parar sobre o monte Ararat, Noé lança uma pomba para ver se as águas desceram ao ponto de já haver terra firme. E ela volta com um ramo de oliveira no bico: é sinal de uma nova criação, sinal de esperança e de renovação. O dilúvio foi remédio salvífico que Deus enviou para limpar o mundo dos homens que tinham sucumbido ao pecado. O Senhor não destruiu o seu povo para sempre, mas deu-lhe uma nova oportunidade: salvou Noé e a sua família.
Assim como a nova criação emergiu das águas da morte após o dilúvio no Antigo Testamento, agora Jesus emerge das águas do baptismo no rio Jordão, e o Espírito Santo desce sobre Ele na forma de uma pomba para ungi-Lo com o Espírito.
Jesus também é o início de uma nova criação, que trará uma nova purificação do mundo do pecado. E será através das águas do Seu e no nosso baptismo que se dará essa purificação.
Por fim, um último eco do Antigo Testamento refere-se à expressão que se ouve a partir dos céus: «Este é o meu Filho muito amado.»
Em primeiro lugar, recordamo-nos imediatamente do início da Primeira Leitura da Missa de hoje, estas belas palavras do profeta Isaías: «Diz o Senhor: “Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma.”» (Is 42, 1). Há algo muito forte e verdadeiro neste amor tão intenso que Deus tem pelo seu servo.
Em segundo lugar, a expressão «Este é o meu Filho muito amado» traria à mente de qualquer judeu a figura de Isaac, o filho tão esperado de Abraão. E com Isaac e Abraão temos um dos episódios mais bonitos e misteriosos de toda a Sagrada Escritura, o famoso (quase) sacrifício de Isaac.
Em Genesis 22, Deus diz a Abraão para tomar o seu filho muito amado e sacrificá-lo no alto do monte Moriá. Perplexos, acompanhamos pai e filho na subida obediente a este desígnio de Deus. Como é que Deus pede a Abraão que sacrifique o seu próprio filho? E não um filho qualquer, mas precisamente o filho da promessa que Deus lhe tinha feito? Contudo, no momento derradeiro em que Abraão se preparava para imolar o seu filho, um anjo detém-no e diz antes para sacrificar um cordeiro que está preso pelos chifres num silvado. Afinal o que queria Deus provar com isto? A fé de Abraão? Certamente. Mas muito mais. O que aqui acontece é uma prefiguração do que o Pai do Céu faria com Seu próprio «filho muito amado». Abraão e Isaac são Deus Pai e Jesus, na sua paixão e morte no Calvário, na cruz.
Jesus, no seu baptismo, é o novo Isaac, que de facto dará a Sua vida para que todas as nações do mundo possam ser abençoadas pelo perdão dos pecados, pelo resgate que a Sua morte trará no Calvário e na cruz.
Assim percebemos ainda melhor a importância do Domingo do Baptismo do Senhor. Não é apenas o fim do ministério de João e o início do ministério público de Jesus. O baptismo de Jesus é um sinal, uma revelação que aponta, por um lado, para o Antigo Testamento e para a maneira como Jesus está a cumprir a esperança de um novo êxodo, de uma nova criação e de um novo sacrifício que traria o perdão dos pecados; por outro, para o futuro, porque a maneira como Ele fará isso não é somente através das águas do seu baptismo no rio Jordão, mas sobretudo através do seu baptismo de sangue na cruz do Calvário.
Como confirmação deste mesmo significado podemos ver outras passagens dos Evangelhos, quando, por exemplo, Tiago e João se aproximam de Jesus e pedem um lugar à sua esquerda e à sua direita e Jesus responde, referindo-se à Cruz: «Podeis beber o cálice que eu bebo e ser baptizados com o baptismo com que eu sou baptizado?» (Mc 10, 38).
João afirma que o seu é um baptismo de arrependimento para o perdão dos pecados. Daí que seja natural a sua perplexidade quando Jesus lhe pede para ser baptizado. Como é que o Messias, Aquele que não tem pecado, pede para ser baptizado, se não precisa de arrependimento ou perdão? É importante notar que só a versão de Mateus que hoje escutamos inclui esta pergunta de João Baptista. E a resposta de Jesus não é menos enigmática: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça.» O que significa este «cumprir»? Por um lado, estamos habituados a ouvir Jesus dizer que tal acontece «para se cumprir a Escritura». Mas este cumprir a justiça é mais do que isso.
Parece que aqui Jesus se está a referir à antiga compreensão judaica de como acções justas podem encher um tesouro no Céu e, do mesmo modo, os pecados podem contrair dívidas para com Deus. Aliás, quando rezamos o Pai-nosso, ao dizermos «perdoai-nos as nossas ofensas», a palavra latina é «debita», precisamente «dívidas». E continuamos: «assim como nós perdoamos aos nossos devedores» (Mt 6,12).
O que está aqui implícito é que o pecado é como uma dívida. E assim, quando pecamos contra Deus, o que acontece é que acumulamos uma dívida com Ele. É como um fardo que carregamos até conseguirmos liquidar essa dívida, como um empréstimo ou uma hipoteca.
Por oposição, outra imagem aqui é a de que uma acção justa, como orações, boas acções, jejum ou esmola, é algo que merece uma recompensa, uma espécie de salário.
Jesus diz-nos então que por meio dos pecados ficamos endividados e por meio de acções justas acumulamos um tesouro no Céu.
Quando diz a João Baptista «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça», está a revelar que como Filho muito amado de Deus, o novo Isaac, quando Ele descer às águas do baptismo da sua crucificação, a sua justiça será tão infinitamente grande que Ele poderá preencher a medida das boas obras e pagar todas as dívidas de todos os pecados de toda a humanidade. Não precisa de ser baptizado pelo seu próprio pecado, uma vez que não tinha. Assim como não precisava de ser crucificado, mas vai para a cruz por nossa causa.
É por isso que ouvíamos na Primeira Leitura da Missa de hoje, pela boca de Isaías: Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas. (Is 42, 4.6-7)
Vem estabelecer a justiça pagando as nossas dívidas com as suas obras justas e assim libertar os prisioneiros do pecado. Assim entendemos melhor esta outra passagem em que diz: «[...] o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.» (Mt 20, 28). De facto, a sua missão é a de redentor, alguém que veio ao mundo para pagar as dívidas da multidão como um resgate que aprisionava toda a humanidade e assim pode finalmente ser libertada do seu sequestrador.
Por estas e por tantas outras razões vale a pena estar atento e celebrar bem a Festa do Baptismo do Senhor. Ela marca o tom para todo o caminho que agora vamos percorrer, no início deste Tempo Comum, acompanhando o ministério de Jesus pela Galileia, nas curas, discursos, milagres e encontros, até tudo culminar em Jerusalém, onde entregará de forma definitiva a sua vida.




