
Por: Pe. Duarte da Cunha
Primeira leitura: Jb 19, 1.23-27a OU 2Mac 12, 43-46 OU Is 25, 6a-7-9
Salmo: 26, 1.4.7 e 8b e 9a.13-14 OU 102, 8 e 10.13-14.15-16.17-18 OU 22, 1-3a.3b-4.5.6
Segunda leitura: 2Cor 4, 14 – 5, 1 OU 2Cor 5, 1. 6-10 OU 1Ts 4, 13-18
Evangelho: Mt 11, 25-30 OU Jo 11, 21-27 OU Jo 6, 51-58
Hoje é um dia importantíssimo no ano litúrgico. Ontem a Igreja honrou os seus santos, ou seja, os seus membros que já estão a gozar a plena visão de Deus no Céu. Mesmo que ainda estejam à espera da ressurreição final, que acontecerá quando os corpos ressuscitarem gloriosos e se unirem às respectivas almas, as almas dos santos já têm a visão beatífica. Contudo, ainda não alcançaram o estado de perfeição que a humanidade de Jesus e de Nossa Senhora já alcançaram por estarem já no Céu em corpo e alma. Até essa ressurreição final, a Igreja espera que aqueles que estão na terra, ou, depois da morte, ainda estejam no purgatório, se convertam e sejam plenamente purificados para alcançarem o Céu.
Assim, neste dia 2 de Novembro, a Igreja comemora todos os seus membros que morreram, e alarga a sua oração a toda a humanidade, pedindo por todos os defuntos. Os cristãos, ao olharem para a morte como um facto real e inevitável, percebem o dever de viver bem e cada vez melhor, mas também tomam consciência de dever recordar os que já morreram. Este dia é um dia em que a caridade da Igreja vai mais além, e alcança os que já não estão entre nós. Rezamos, concretamente, pelos que já morreram e ainda não estão no Céu. Como a Igreja não sabe com certeza quem possa ter recusado definitivamente Deus e que não quer ser salvo, e porque só se pronuncia com certeza sobre alguns, dizendo que estão no Céu, os santos canonizados, ela assume que por todos os mortos não canonizados podemos e devemos rezar. Talvez alguns daqueles por quem rezamos já estejam no Céu! Mesmo assim, essa oração não se perde, porque irá aumentar a acção de graças a Deus que acolhe no Céu essa pessoa.
As leituras na missa de hoje podem ser diversas. Há no missal a possibilidade de escolher entre três séries de leituras diferentes. Podendo os sacerdotes celebrar três missas neste dia, idealmente: uma por intenções específicas, outra por todos os fiéis defuntos e outra pelas intenções do Papa. As várias leituras propostas contribuem todas elas para explicar a nossa fé no que se refere aos mortos e à esperança da vida eterna. Mostram que a vida dos que morrem continua e que, por isso, faz sentido rezar por eles. Como nos diz o segundo livro dos Macabeus, é um «santo e piedoso pensamento» rezar pelos que morreram, para suplicar a expiação dos seus pecados, porque se acredita que esta oração ajuda efectivamente aos que que morreram a ser libertados do pecado, ou seja, que os seus pecados sejam expiados e a pessoa fique purificada para poder chegar à visão de Deus completamente pura. Rezar pelos defuntos, não podemos esquecer, é rezar por pessoas que, como nós, foram pecadores. Move-nos a confiança de que Deus, que tem o poder de vencer a morte, tem vontade de perdoar. Como diz o salmo 103, que se lê na segunda missa, Deus é um Senhor clemente e compassivo, que sabe que somos frágeis, mas nos quer perdoar. Rezar pelos defuntos é confiar na misericórdia de Deus, no amor que perdoa quem teme a Deus. Ora, a nossa oração pelos defuntos pressupõe que entre nós e os que já morreram há uma solidariedade que nos permite pedir por eles o perdão de modo a que possam ser purificados e chegar ao Céu mais depressa.
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Primeira leitura
Mas as leituras do Antigo Testamento possíveis para este dia recordam-nos ainda outras verdades fundamentais da nossa fé. Por exemplo, no livro de Job, o próprio Job, depois de todo o drama por que passou e no qual sempre mostrou ter total confiança em Deus, diz: «Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. Revestido da minha pele, estarei de pé; na minha carne verei a Deus. Eu próprio O verei, meus olhos O hão de contemplar». Esta afirmação é poderosa e mostra bem a esperança não só de que depois da morte há uma vida da alma, mas também acredita na ressurreição dos corpos. Quando Jesus ressuscita e o Seu corpo ascende aos Céus, vemos confirmada esta certeza de Job. Esta afirmação ultrapassa em muito a simples crença de uma vida espiritual após a morte. É impressionante a força desta afirmação que já se pode ler no Antigo Testamento, mas também é importante relembrar que é uma fé que ficou como que suspensa até ser comprovada pela ressurreição de Jesus.
A terceira possibilidade de primeira leitura é do profeta Isaías. Trata-se de um anúncio fundamental, onde o profeta como que vê para além do seu tempo e do futuro próximo e antevê o fim dos tempos. Olhando para a salvação que Deus prepara, usando a sugestiva imagem de um «banquete de manjares suculentos», Isaías revela algo sobre a vida ressuscitada onde é anunciada a vitória sobre a morte. O profeta aponta para uma vitória que acontecerá com Jesus Cristo. Diz o profeta: «Ele destruirá a morte para sempre». Rezamos pelos mortos, por isso, não apenas interessados no que eles fizeram na terra e que nós podemos recordar, mas confiando nesta vitória e no banquete, prenúncio do banquete nupcial entre o Cordeiro e a Igreja, de que falará o livro do Apocalipse.
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Segunda leitura
Temos, nas primeiras leituras que são retiradas do Antigo Testamento, três certezas: que a morte será vencida graças à misericórdia de Deus, que veremos a Deus com o nosso corpo ressuscitado e que vale a pena rezar pelos mortos. Quando olhamos para as segundas leituras propostas, tiradas ou da segunda carta de São Paulo aos Coríntios ou da primeira aos Tessalonicenses, temos as mesmas certezas, mas vistas, agora, como algo que assenta no que já aconteceu: a Páscoa de Jesus. Algo já mudou radicalmente, ainda que neste mundo continuemos a experimentar a morte.
Percebemos que a vitória anunciada já aconteceu; mesmo que ainda experimentemos o envelhecimento e a morte, esta já foi vencida. Há, por isso, mais do que aquilo que vemos. «Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas.» Por isso, sabemos que mesmo que a nossa «morada terrestre» seja desfeita, espera-nos uma «habitação eterna, que é obra de Deus». A experiência cristã é mais do que a esperança do Antigo Testamento, porque sabe que a promessa que foi feita está cumprida em Jesus Cristo. Há, por isso, uma maior confiança «estamos sempre cheios de confiança», diz S. Paulo. Esta confiança é tal que já temos vontade, como diz São Paulo, de nos exilarmos do corpo para irmos habitar junto do Senhor. Contudo, este desejo é como que controlado pela consciência de uma missão, a missão de levarmos a consolação do Senhor até mais pessoas. As segundas leituras de cada uma destas três séries de leituras possíveis para este dia reforça esta confiança e mostra o desejo de partirmos. Isto dá um sentido ainda mais profundo à oração pelos mortos. Porque a certeza de uma vida depois da morte e de que essa vida é eterna, isto é, completa, plena, sem que fique algo por realizar, é uma certeza confirmada pela verdade dos acontecimentos da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
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Evangelho
Os Evangelhos escolhidos para este dia também podem ser três, um para cada uma das missas propostas. No primeiro, temos o capítulo 11 de São Mateus, quando Jesus comovido se dirige ao Pai e mostra o Seu entusiasmo por certas verdades serem reveladas aos simples, isto porque não são o fruto de uma erudição humana, mas o acolhimento de uma revelação divina. A fé na ressurreição, de facto, é mais fortemente sentida pelas pessoas simples, pois estas não colocam obstáculos à evidência de que a vitória de Cristo é real. Também por essa razão, as pessoas simples rezam pelos mortos com uma esperança e uma confiança que os mais complicados, ao interporem dúvidas, não conseguem alcançar. Outra verdade que aqui é dita é que o descanso das almas, que é outro modo de falar da vida eterna, pode começar a ser experimentado já neste mundo pela relação com Jesus Cristo. Ele diz mesmo: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.»
O Evangelho da segunda missa é tomado do capítulo 11 de São João, quando Jesus, antes de ressuscitar o Seu amigo Lázaro, conversa com a irmã deste e lhe pergunta se ela acredita que Jesus tem o poder de ressuscitar. Jesus diz mesmo, aquilo que, de algum modo já dissemos, ou seja, Ele não só é capaz de voltar a dar a vida a um morto, mas Ele é a ressurreição e a vida. Já não precisamos de esperar a morte para começar a experimentar a vida eterna. Pela fé, que nos leva a já estar unidos a Jesus e a receber d’Ele a vida nova, podemos experimentar já a vida que ainda não temos de forma plena. E é também porque fazemos esta experiência que rezamos pelos defuntos que amamos. Porque acreditamos que não foram aniquilados, não deixaram de existir, e porque queremos para eles o bem que é a vida eterna. A fé na vitória sobre a morte, que já começámos a viver, assegura-nos de que há um perdão de Deus e uma purificação, ou seja, um purgatório, que, quando atravessado, nos conduz à plenitude da vida, ao tal banquete anunciado pelo profeta. Por isso, mesmo que já tenham morrido e mesmo que estivessem em pecado, se não recusam os dons de Deus, podem ser purificados e chegar ao Céu.
Esta experiência do «já» da vida eterna, ainda que associada ao «ainda não» de forma plena, é também o conteúdo do Evangelho da terceira missa. Tirado do capítulo 6 de São João, ou seja, do discurso sobre o pão da vida, quando Jesus diz: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.» Jesus diz que podemos ter já a vida eterna comendo o Seu corpo, ou seja, estando em comunhão de vida com Jesus. Jesus une a eucaristia à promessa da ressurreição no último dia. Quer dizer que pedimos na missa pelos nossos amigos que faleceram partindo da experiência de vida eterna que já temos e da confiança que se ganha quando, comungando o Corpo de Cristo, somos confirmados na nossa fé.
Três missas possíveis, uma mesma fé, que nos assegura e nos dá confiança de que a vitória de Jesus sobre a morte se comunica aos que se unem a Ele, e também nos impele a rezar pelos falecidos, porque, esta fé unida à caridade, faz-nos pedir a vida eterna não só para nós mas também para os que já partiram deste mundo.




