
Por: Teresa Alves
Nem sempre reconhecemos a importância da leitura e meditação da Bíblia para podermos desenvolver uma relação pessoal e íntima com Deus. Mas a Sagrada Escritura tem um papel essencial na espiritualidade de cada um de nós e na vida da Igreja, como nos ensina a exortação apostólica "Verbum Domini".
1. Deus dá-se a conhecer
A Bíblia é muito mais do que um texto sagrado. É a Palavra santa de Deus, viva e verdadeira, um meio através do qual Deus se dá a conhecer amorosamente à humanidade. É por este motivo que podemos dizer que a Bíblia deve ser o coração da vida cristã, servindo como guia moral e espiritual.
Tudo se baseia numa verdade belíssima, verdade que o Catecismo expõe do seguinte modo: “Aprouve a Deus, na sua sabedoria e bondade, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tomam participantes da natureza divina.”1
Deus revela-se, isto é, levanta o véu que lhe cobre o rosto, para que o possamos conhecer, servir e amar 2. Deus comunica-se, gradualmente, ao homem ao longo do Antigo Testamento, preparando-o “para receber a Revelação sobrenatural que faz de Si próprio e que vai culminar na Pessoa e missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo.”3
Por isso, quando lemos a Bíblia, conhecemos não apenas a história da salvação, mas o coração e a vontade do Pai, pois “Nos livros sagrados, com efeito, o Pai que está nos Céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos, a conversar com eles.”4
2. A Revelação – Sagrada Escritura e Tradição
Deus revela-se aos homens através da Sagrada Escritura e da Tradição. Sob inspiração do Espírito Santo, ao longo dos séculos, os patriarcas, profetas e pessoas justas escolhidas por Deus escreveram os textos contidos no Antigo Testamento. Estas Escrituras preparam, prefiguram e anunciam a revelação última de Deus que é a encarnação, vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por sua vez, os apóstolos, testemunhas da vida de Cristo na Terra, deram origem ao Novo Testamento ao escreverem sobre a Sua vida, palavras e milagres, testemunhando, em particular, o mistério da Sua paixão, morte e ressurreição.
O Antigo e o Novo Testamento constituem a Sagrada Escritura, que corresponde a uma parte da Revelação. Esta completa-se com a Tradição Apostólica, que é entendida como os ensinamentos que os apóstolos receberam directamente de Jesus e que, por sua vez, transmitiram às gerações seguintes, tanto oralmente como nas celebrações litúrgicas.
No final do seu Evangelho, S. João escreve que nem tudo o que Jesus transmitiu por palavras e obras podia ficar escrito: “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas fossem escritas, uma por uma, penso que o mundo não teria espaço para os livros que se deveriam escrever.”
Na Constituição Dogmática Dei Verbum, o Concílio Vaticano II define a Sagrada Tradição como aquilo que “os apóstolos que, pela pregação oral, pelo exemplo e pelas observâncias transmitiram o que tinham recebido dos lábios de Cristo, da convivência com Ele e do que Ele fazia, ou o que aprenderam por inspiração do Espírito Santo.”5
Na verdade, ainda antes do Novo Testamento ter sido escrito, já os primeiros cristãos “eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações.”6 Desde o Pentecostes, a plenitude do cristianismo brotou na Igreja como a encarnação viva de Cristo, e não num livro. O apóstolo S. Paulo elogiava aqueles que seguiam a Tradição: “Louvo-vos porque em tudo vos lembrais de mim e conservais as tradições tal como vo-las entreguei” 7.
Assim, a Revelação Divina é composta pela Sagrada Tradição e pela Sagrada Escritura as quais, em conjunto, constituem o depósito sagrado da Palavra de Deus confiada à Igreja. 8
A Igreja, por meio do seu magistério 9, guarda, garante a autenticidade e interpreta a Palavra de Deus, nunca se sobrepondo a ela. A Igreja é apenas uma servidora, pregando a verdade que não é sua, mas que lhe foi confiada por Jesus Cristo: “A tarefa de interpretar autenticamente a palavra de Deus, escrita ou falada, foi confiada exclusivamente ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas serve-a, ensinando apenas o que foi transmitido, escutando-o com devoção, guardando-o escrupulosamente e explicando-o fielmente. De acordo com o mandato divino e com a ajuda do Espírito Santo, tira deste único depósito da fé tudo o que apresenta à fé como divinamente revelado.” 10
Ninguém cria por si o conteúdo da fé católica; acolhemos o depósito da fé com alegria e gratidão, como um dom precioso, uma herança recebida dos apóstolos, por intermédio da Igreja.
3. O Autor da Sagrada Escritura
As Escrituras são a Palavra de Deus. Elas foram escritas, como disse São Pedro, por homens movidos pelo Espírito Santo e que falaram por Deus 11. A Igreja sempre acreditou que a Bíblia é, ao mesmo tempo, divina e humana, assim como Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem: “Assim como o Verbo de Deus se fez carne pelo poder do Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, assim também a Sagrada Escritura nasce do ventre da Igreja pelo poder do mesmo Espírito.” 12 Assim, tal como não podemos falar de Jesus como sendo um homem comum, não podemos ler a Bíblia como lemos um livro comum.
“Deus é o autor da Sagrada Escritura. «A verdade divinamente revelada, que os livros da Sagrada Escritura contêm e apresentam, foi registada neles sob a inspiração do Espírito Santo». «Com efeito, a santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como sagrados e canónicos os livros completos do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja»” 13
A acção de Deus como autor não se opõe nem é contrária ao trabalho do autor humano. Ela não diminui a liberdade, a personalidade ou a responsabilidade do autor humano pelo que está escrito. Pelo contrário, autor divino e o autor humano agem de forma cooperativa e complementar, de tal modo que a Igreja pode afiançar que tudo o que é afirmado pelo autor humano é afirmado pelo Espírito Santo. 14
Deus guiou os autores humanos de um modo natural, servindo-se das suas capacidades e características pessoais para compor tudo o que desejava revelar aos homens. Por isso, o estilo dos autores bíblicos é característico de cada autor. Por exemplo, a formação sacerdotal do profeta Ezequiel reflecte-se claramente no registo escrupuloso de datas e no seu vasto conhecimento da lei litúrgica. O seu estilo é muito distinto do estilo simples de Amós, o pastor de Técua. No entanto, também as palavras de Amós são inspiradas por Deus e são, de facto, as palavras de Deus.
4. A organização dos livros da Bíblia
A Bíblia Católica é o cânone de 73 livros reconhecido pela Igreja Católica, dividido em duas secções principais: o Antigo Testamento e o Novo Testamento.
O Antigo Testamento relata a história do povo de Israel desde a Criação até à encarnação de Jesus, estando os seus livros organizados de forma temática e não cronológica. Em primeiro lugar está o Pentateuco, que inclui os cinco primeiros livros, referidos pelos judeus como “a Lei” ou “Torá”. Começam com o relato da criação do universo e terminam com a morte de Moisés às portas da terra prometida. Depois vêm os Livros Históricos, os Livros Sapienciais – em que se incluem, e.g., os Salmos – e, por último, os Livros Proféticos.
O Novo Testamento inicia-se com o anúncio do nascimento de Jesus. Os livros que o compõem podem ser divididos em quatro partes: os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos, as cartas apostólicas e o Apocalipse.
5. Os critérios para ler a Sagrada Escritura e quais os seus sentidos
O Catecismo da Igreja Católica, baseando-se no Concílio Vaticano II, apresenta três critérios essenciais para uma interpretação correcta e fiel da Sagrada Escritura:
Em primeiro lugar, é necessário ler cada texto ou livro da Bíblia considerando a unidade de toda a Sagrada Escritura, reconhecendo que os textos individuais fazem parte de um todo maior que revela o plano de Deus: “Escritura é una, em razão da unidade do desígnio de Deus, de que Jesus Cristo é o centro e o coração.” 15
Em segundo lugar, a interpretação deve estar em harmonia com a Tradição viva da Igreja e “segundo o sentido espiritual que o Espírito Santo dá à Igreja.” 16
Por fim, é preciso considerar a “analogia da fé”, ou seja, a coerência entre as verdades da fé, dado que o conteúdo da Revelação forma um único e harmonioso conjunto. 17
A Sagrada Escritura possui dois sentidos principais:
O sentido literal, que é o significado transmitido directamente pelas palavras do texto e compreendido a partir de uma análise cuidada;
E o sentido espiritual. Este desdobra-se em três aspectos: o alegórico, que ilumina a fé em Cristo; o moral, que orienta o agir cristão; e o anagógico, que aponta para as realidades eternas. 18
Uma frase medieval resume o significado destes quatro sentidos: “A letra ensina-te os factos (passados), a alegoria o que deves crer, a moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender.” 19
“Portanto, irmãos, estai firmes e conservai as tradições nas quais fostes instruídos por nós, por palavra ou por carta.” 20
“Que as palavras do livro desta Lei jamais se afastem da tua boca; medita-o constantemente, e observa tudo quanto nele se contém. Assim terás prosperidade em teus caminhos e serás bem sucedido.” 21
1. Catecismo da Igreja Católica (CIC) 51
2. CIC 52
3. CIC 53
4. Constituição dogmática Dei Verbum (Dei Verbum), 21
5. Dei Verbum, 7
6. Act 2,42
7. 1 Cor 11:2
8. Dei Verbum 10
9. O magistério da Igreja é a autoridade de ensino da Igreja, constituída pelo Papa e pelos bispos em união com ele.
10. Dei Verbum, 11
11. 2 Pe 1:21
12. Verbum Domini, 19
13. CIC 105
14. Dei Verbum, 1
15. CIC 112
16. CIC 113
17. CIC 114
18. CIC 115-117
19. CIC118
20. 2 Te 2:15
21. Josué 1:8




