
Por: Alexandra Ferreira
I Domingo da Quaresma (Ano A).
A Quaresma como tempo de maior união com Jesus.
Primeira Leitura: 1 Génesis 2:7-9 – 3, 1-7
Salmo: 50 (51):3-4. 5-6a. 12-13. 14 e 17
Segunda Leitura: 2 Romanos 5:12-19 ou Romanos 5:12.17-19
Evangelho: Mateus 4:1-11
Com este Domingo, começamos o nosso estudo das leituras para o tempo santo da Quaresma. Todos os anos, o I Domingo da Quaresma é sobre as tentações de Cristo no deserto. Mateus 4:1-11 diz o seguinte:
Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» Então, o diabo conduziu-o à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!» Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.
O mistério de Jesus no deserto
Primeiro, porque é que Jesus vai para o deserto para ser tentado pelo diabo? Em segundo lugar, porque é que Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites. A terceira questão fundamental é: porquê essas três tentações e não outras?
Comecemos pela imagem de Jesus sendo conduzido ao deserto para ser tentado pelo diabo. Para um judeu do primeiro século, a simples cena de alguém que se dirige ao deserto evocaria imediatamente o Êxodo do Egito. Quando os israelitas foram libertados da escravidão do Faraó, no tempo de Moisés, eles não entraram de imediato na Terra Prometida. Primeiro atravessaram as águas do Mar Vermelho e, só então, foram conduzidos ao deserto do Sinai, onde permaneceram durante quarenta anos. Nesse período, foram provados, tentados a pecar e inclinados à rebelião contra Deus. Era um tempo de purificação e preparação antes da chegada à terra prometida.
Assim, o primeiro ponto é: Jesus, de certo modo, inaugura um novo Êxodo. Ele representa Israel em pessoa. Tendo já passado pelas águas do seu baptismo, agora entra no deserto e, tal como Israel permaneceu ali durante quarenta anos, Jesus ficará aí quarenta dias e quarenta noites. Será, para Ele, um tempo de provação, de tentação e de combate espiritual contra o diabo.
O segundo ponto diz respeito ao simbolismo dos quarenta dias e quarenta noites. Sempre que o número quarenta aparece na Bíblia, ele aponta para um tempo de prova, tentação ou purificação. O dilúvio nos dias de Noé, por exemplo, dura quarenta dias e quarenta noites de chuva (Génesis 7-8). Moisés, noutra ocasião, permanece quarenta dias e quarenta noites no Monte Sinai para ser purificado antes de entrar na presença de Deus e receber os Dez Mandamentos (Êxodo 24). E o profeta Elias atravessa o deserto durante quarenta dias e quarenta noites, preparando-se para encontrar Deus no Monte Sinai (1 Reis 19).
O que Jesus faz, portanto, é uma espécie de reencenação e cumprimento de todos esses “quarentas” do Antigo Testamento. Ele reúne em Si mesmo todos esses tempos de provação e purificação e leva-os à sua plenitude.
Na primeira tentação, Jesus foi tentado a transformar pedras em pão. Sendo Jesus inteiramente Homem, experimentava necessidades corporais e, uma vez que jejuou durante 40 dias e 40 noites, estaria com fome. Assim, o diabo tenta Jesus precisamente na Sua Humanidade e diz-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Jesus resiste à tentação e, citando as Sagradas Escrituras, responde: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.»
Na segunda tentação o diabo conduz Jesus ao pináculo do Templo e diz-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra.», citando o Salmo 91.
O que o diabo procura é levar Jesus ao pecado do orgulho, como que dizendo: “Se és mesmo o Filho de Deus, prova-o. Sobe ao topo do Templo, onde todos te podem ver, e manifesta publicamente o teu poder. Salta e deixa que os anjos te amparem, para que toda a Jerusalém – a cidade santa, o coração do povo judeu – testemunhe que és, de facto, o Messias.”
Assim, Jesus escolhe o caminho da humildade e da obediência ao plano do Pai, rejeitando a tentação do diabo de se afirmar publicamente por meio de um acto espetacular. O Filho de Deus não veio ao mundo para exibir o seu poder através de um espetáculo grandioso que forçasse todos a reconhecerem a sua divindade. O Seu caminho será outro: Ele revelará a Sua identidade através de sinais discretos, parábolas, enigmas e, por fim, pelo maior de todos os mistérios – o mistério da cruz. É ali, na entrega, no sofrimento, na morte e depois na Ressurreição, que se tornará claro como este Messias reina: pelo amor.
E, por fim, na terceira tentação: «o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.”» Aquilo que o diabo apresenta a Jesus são, na verdade, as almas de toda a humanidade. “Todos os reinos do mundo” significa todas as pessoas que neles vivem. Ou seja, o diabo é, num certo sentido, o “príncipe deste mundo”.
Jesus, porém, veio justamente para resgatar todas essas almas do poder do maligno. E é precisamente aí que reside a sedução desta tentação: o diabo apela ao legítimo desejo de Jesus de recuperar os reinos do mundo, mas propõe-lhe fazê-lo sem cruz e sem sofrimento. Em suma, oferece-lhe um atalho como que dizendo: “Podes ter tudo – basta ajoelhares-te diante de mim e adorar-me. Não precisarás da cruz.”
Mas Jesus rejeita a proposta, recorrendo, mais uma vez, às Escrituras: «Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Com isso, reafirma que a sua missão será cumprida através da obediência amorosa ao Pai e do caminho da cruz, onde conquistará, de facto, todos os reinos, não pela dominação, mas pela redenção.
Para um judeu do primeiro século, as três tentações de Jesus no deserto evocariam também um episódio fundamental da História da Salvação: a queda de Adão e Eva no livro do Génesis – precisamente a primeira leitura deste Domingo. Estabeleçamos, então, a ligação entre ambos os relatos.
O ponto essencial nesta passagem do Génesis está nas três razões apresentadas para a queda de Adão e Eva: o fruto era «bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência». Os antigos judeus viam nestes três motivos as raízes de todos os pecados do mundo, uma espécie de matriz universal da desordem moral, a que chamamos a tripla concupiscência: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida.
A concupiscência da carne é o desejo desordenado do prazer, simbolizado por Eva ao ver que o fruto era «bom para comer». A concupiscência dos olhos refere-se ao desejo desordenado de possuir o que não nos pertence, pois, o fruto era também «agradável à vista». E, finalmente, a soberba da vida remete para a ambição de ser sábio como Deus, isto é, de se elevar acima da própria condição humana e viver como se fosse Deus, mas sem Ele, vivendo no pecado do orgulho.
Quando olhamos agora para o Evangelho, percebemos o que Jesus faz no deserto. Ele não é apenas o novo Israel: é também o novo Adão. Enquanto o primeiro Adão foi tentado num jardim – símbolo de abundância e harmonia –, o novo Adão é tentado num deserto, porque o pecado transformou o jardim da criação num lugar árido. E, tal como Adão enfrentou três tentações, Jesus também é atacado pelo diabo segundo este mesmo triplo padrão.
Onde o primeiro Adão sucumbiu, o novo Adão triunfa; onde o antigo foi vencido pelo diabo, o novo derrota o tentador. É desta forma que Jesus, nos quarenta dias no deserto, inaugura o seu ministério: restaurando, pela obediência, aquilo que o pecado havia desfeito.
Como nos diz o Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 540:
Todos os anos, pelos quarenta dias da Grande Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto.
Com Jesus no deserto nesta Quaresma
Então, o que somos convidados a fazer durante a Quaresma? A Igreja, com sabedoria de mãe, chama-nos a caminhar com Jesus para o deserto, não um deserto geográfico, mas o deserto do coração, onde se trava o combate mais profundo: o combate contra o pecado, contra as tentações, contra tudo o que nos afasta de Deus. A Quaresma é um tempo de prova, sim, mas também um tempo de purificação, de reencontro e de graça.
Muitas vezes reduzimos este período a pequenas renúncias: menos chocolate, menos café, menos álcool. Embora essas práticas tenham valor, a Quaresma é mais do que perder peso ou melhorar hábitos. Jesus mostra-nos outro caminho e apresenta-nos três caminhos simples e transformadores: rezar, jejuar e dar esmola.
Jesus jejuou durante quarenta dias e convida-nos a jejuar também. O jejum cura o nosso apego desordenado ao prazer – seja ele comida, bebida ou qualquer outra forma de satisfação que se torna excessiva. Jejuar devolve-nos a liberdade interior e reordena o coração.
A esmola, por sua vez, cura o desejo desordenado de possuir. Quando damos, libertamo-nos da tirania das coisas. Nada nos aproxima tanto de Cristo pobre como dar a quem nada tem.
E a oração é o remédio para o orgulho. A oração desfaz o egoísmo pela raiz, porque cada vez que nos ajoelhamos, confessamos com humildade: “Tu és Deus e eu não” e reconhecemos que somos criaturas, dependentes da Sua graça.
Assim, quando unimos estas três práticas – oração, jejum e esmola –, entramos verdadeiramente no mistério de Jesus no deserto. As liturgias de Quarta-feira de Cinzas e do I Domingo da Quaresma dão-nos um mapa espiritual preparado pelo próprio Cristo para nos conduzir a um tempo de graça, um tempo de reencontro profundo com o Senhor.
Estas leituras apontam já para onde caminhamos: para o Calvário. Ao longo das próximas semanas, veremos a intensidade deste caminho aumentar. Porque será na cruz que Jesus vencerá, de forma plena e definitiva, todas as tentações. Na cruz, Ele sentirá a ausência total de prazer, abraçando a dor por amor – vencendo a concupiscência da carne. Na cruz, estará despojado de tudo: sem bens, sem conforto, nem sequer com as Suas próprias vestes – vencendo a concupiscência dos olhos, o desejo de possuir. Na cruz, será desafiado como fora no deserto: «Se és o Filho de Deus, desce da cruz!», mas Jesus permanecerá humilde, fiel, obediente – vencendo a soberba da vida e esmagando o orgulho com a própria humildade.
Que esta Quaresma seja para nós um deserto fecundo, um encontro profundo com o Amor que se entrega por nós. Que, caminhando com Jesus, cheguemos com Ele à Páscoa renovados, purificados e mais próximos do coração de Deus.
Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 1st Sunday of Lent por Brant Pitre




