
Por: Duarte Azevedo Mendes
I Domingo do Tempo do Advento
Vinde, Senhor Jesus!
Primeira Leitura: Isaías 2: 1-5
Salmo: 121 (122):1-2, 4-5, 6-7, 8-9
Segunda Leitura: Romanos 13: 11-14
Evangelho: Mateus 24: 37-44
Este Domingo, o I do Tempo do Advento, marca o início de um novo ano litúrgico, mas, ao contrário do que se poderia esperar, a Igreja não nos propõe leituras sobre a Criação do Mundo ou a Anunciação. Este caminho até à celebração do Natal, a celebração da primeira vinda de Cristo, começa como uma reflexão sobre a segundo vinda do Senhor: o fim dos tempos. O próprio Catecismo da Igreja o afirma no seu ponto 524:
“Ao celebrar em cada ano a Liturgia do Advento, a Igreja actualiza esta expectativa do Messias. Comungando na longa preparação da primeira vinda do Salvador, os fiéis renovam o ardente desejo da sua segunda vinda. Pela celebração do nascimento e martírio do Precursor, a Igreja une-se ao seu desejo: «Ele deve crescer e eu diminuir» (Jo 3, 30).”
Este é, portanto, um tempo em que recordando a espera do povo de Israel pela vinda do Messias – que se concretizou já no nascimento de Jesus segundo a carne – preparamos, esperançosamente, a segundo vinda d’Ele – no fim dos tempos. Durante o Tempo de Advento meditamos e agradecemos a vinda de Jesus na carne e preparamos a parusia, isto é, a vinda gloriosa de Cristo, vencedor sobre a morte e o pecado, no fim dos tempos.
Assim, São Mateus, no seu Evangelho, que nos acompanhará durante o ano que este Domingo começa, relata as seguintes palavras de Jesus:
(Mt 24: 37-44)
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. Assim será também na vinda do Filho do homem. Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado; de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem.”
No recomeçar do ciclo litúrgico, este excerto de um discurso de Jesus, ao invés de se situar, como poderíamos imaginar, no início da vida pública de Jesus, está inserido no último discurso de Jesus antes do relato dos episódios que levam à Sua Crucifixão e Morte. Sentado no Monte das Oliveiras, Jesus fala uma última vez aos seus discípulos, aí reunidos, num discurso escatológico, ou seja, num discurso sobre o fim dos tempos e os sinais que o antecederão.
Fazendo uso da imagem do dilúvio relatado no Livro do Génesis, Jesus recorda-nos que apenas os justos serão salvos. Quando Noé construiu a arca, a vida de todos os outros desenrolava-se com total normalidade, até ao dia em que a chuva caiu. Igualmente, na segunda vinda de Cristo, os justos serão salvos e os ímpios deixados para trás, sem que se apercebam realmente do que está a acontecer.
Tal não significa que haja alguns escolhidos de antemão por Deus para serem salvos. Todos somos chamados a sermos contados entre os justos, ou seja, a sermos santos. Aqueles que são deixados para trás, os ímpios, são todos aqueles que não se converteram de alma e coração à Verdade. Para que tal não aconteça, o Senhor deixa-nos um conselho: “Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.”.
Este “fim dos tempos” não será o fim das nossas existências. Para os justos está guardado um lugar junto de Deus. Essa é imagem que o profeta Isaías nos pinta na primeira leitura deste Domingo:
(Is 2, 1-5)
“Visão de Isaías, filho de Amós, acerca de Judá e de Jerusalém: Sucederá, nos dias que hão de vir, que o monte do templo do Senhor se há de erguer no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. Ali afluirão todas as nações e muitos povos acorrerão, dizendo: «Vinde, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há de vir a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor». Ele será juiz no meio das nações e árbitro de povos sem número. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão de preparar para a guerra. Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor.”
Nesta visão do profeta, vislumbramos a Nova Jerusalém, a representação metafórica dos novos céus e da nova terra com que o Livro de Isaías há de terminar, num dos momentos em que todos crentes sobem à cidade de Jerusalém – um costume, depois proclamado como lei no Antigo Israel, de peregrinar até à Cidade Santa nas festas centrais do ano litúrgico judaico. Isaías sublinha que terá lugar, então, a separação entre os justos e os ímpios (“Ele julgará as nações”) e não mais haverá guerra, transformando-se as armas em instrumentos agrícolas, qual símbolo de prosperidade nesta nova terra.
De forma a prolongar a nossa reflexão sobre esta visão do profeta Isaías, a Igreja propõe-nos o Salmo 121, que canta:
(Sl 121 (122):1-2, 4-5, 6-7, 8-9)
“Alegrei-me quando me disseram:
«Vamos para a casa do Senhor».
Detiveram-se os nossos passos
às tuas portas, Jerusalém.
Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor,
segundo o costume de Israel,
para celebrar o nome do Senhor;
ali estão os tribunais da justiça,
os tribunais da casa de David.
Pedi a paz para Jerusalém:
«Vivam seguros quantos te amam.
Haja paz dentro dos teus muros,
tranquilidade em teus palácios».
Por amor de meus irmãos e amigos,
pedirei a paz para ti.
Por amor da casa do Senhor,
pedirei para ti todos os bens.”
De novo, a Sagrada Escritura convida-nos a contemplar o costume de peregrinar até Jerusalém. Essa prática é apresentada como um tempo de paz entre todos os povos, recordando o arco-íris colocado por Deus nos céus após o dilúvio, sinal da aliança entre Ele e a humanidade, e, também, a primeira vinda de Cristo. Ambos os momentos são evocados no texto das Calendas de Natal, antigo hino da liturgia das horas da noite de Natal, que a Igreja convida a cantar no início da Missa do Galo, como anúncio solene do nascimento de Jesus.
Por fim, a Igreja convida-nos a reflectir sobre as palavras que o apóstolo São Paulo escreve à comunidade cristã da cidade de Roma, admoestando-a exactamente sobre aquele conselho que Jesus transmite na passagem do Evangelho deste Domingo. Escrevia, então, São Paulo aos cristãos romanos:
(Rm 13: 11-14)
“Irmãos: Vós sabeis em que tempo estamos: Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes; não vos preocupeis com a natureza carnal para satisfazer os seus apetites, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.”
O conselho de São Paulo era tão válido no séc. I como o é hoje: “já é hora de acordardes do sono”. O apóstolo através destas palavras coloca no hoje das nossas vidas esta realidade futura, mas certa, do fim dos tempos. De facto, a cada dia que passa o julgamento do Juízo está mais próximo. É, pois, tempo de preparar esta segunda e derradeira vinda do Senhor Jesus, representada aqui pelo “dia [que] está próximo”.
A preparação aconselhada por São Paulo é simples, mas exigente: abandonar o pecado, as “obras das trevas”, e revestirmo-nos “das armas da luz”, “do [próprio] Senhor Jesus Cristo”. E que vestes são estas que servem de metáfora para o nosso comprometimento com o Senhor? As armas da oração, da caridade e do jejum, que neste tempo de Advento, tempo de penitência (recordemos os paramentos roxos usados na liturgia a partir deste Domingo), somos convidados a recordar.
Notemos, no entanto, que a referência negativa do apóstolo à carne pretende aludir às coisas do mundo e não aos nossos corpos. No fim dos tempos, não serão apenas as almas dos justos a subir à Nova Jerusalém, mas os justos por inteiro, corpo e alma.
Como conclusão, recordemos as palavras que a liturgia nos convida a aclamar em cada celebração eucarística, logo após o próprio Senhor Jesus se fazer presente no altar, através do Seu Corpo e do Seu Sangue. À exclamação do sacerdote “Mistério da fé!” respondemos:
Anunciamos, Senhor, a vossa morte,
proclamamos a vossa ressurreição.
Vinde, Senhor Jesus!
Nesta exclamação final, que talvez repitamos sem contemplar o seu verdadeiro significado, rezamos muito firmemente por este fim dos tempos, para que o último dos dias venha quanto antes e possamos subir nós também entre os justos à montanha sagrada, à Jerusalém celeste.
Para tal, vigiemos, como nos pediu Jesus, e revistamo-nos “das armas da luz”, como nos aconselhou São Paulo, fazendo deste tempo de Advento, que agora começa, não só um tempo de preparação da celebração do Natal, mas também um tempo de reflexão pessoal das nossas vidas para estarmos a postos para a parusia, para a última vinda de Cristo.
Que possamos, com confiança e esperança, rezar: VINDE, SENHOR JESUS!
Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A – 1st Sunday of Advent” por Brant Pitre




