II Domingo Tempo Comum. Eis o Cordeiro de Deus

Por: Miguel Simões

II Domingo Tempo Comum
Eis o Cordeiro de Deus


Primeira Leitura: Isaías 49:3, 5-6
Salmo: 39 (40):2, 4, 7-8, 8-9, 10
Segunda Leitura: 1 Coríntios 1:1-3
Evangelho: João 1:29-34


Neste segundo Domingo do Tempo Comum encontramos o testemunho e reconhecimento por parte de S. João Baptista de Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Apesar de nos encontrarmos no ano A, i.e., no ano dedicado ao Evangelho de S. Mateus, tal como acontece nos anos B e C, no segundo Domingo do Tempo Comum encontramos uma passagem do Evangelho de S. João, pois, como sabemos, uma vez que S. João não tem um ano específico dedicado ao seu Evangelho – não-sinóptico –, este é nos anunciado ao longo do ano litúrgico. Tal acontece, acima de tudo, durante a Quaresma e a Páscoa, mas também no início do Tempo Comum, quando voltamos a meditar e rezar o ministério público de Jesus. A passagem que a Igreja hoje nos propõe relata, assim, um dos momentos mais marcantes da vida terrena de Jesus antes de iniciar aquilo que entendemos pela sua vida pública. Diz assim:

Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou a baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

  1. «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!»

Como Católicos, estamos mais do que familiarizados com a expressão, dita em cada Missa, «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!» Contudo, o que é que tal significaria no contexto judaico do primeiro século em que é proferida pela primeira vez por S. João? Ora, qualquer judeu do primeiro século, ao ouvir tal expressão, imediatamente pensaria em duas passagens do Antigo Testamento. A primeira seria o capítulo 12 do livro do Êxodo em que nos é relatado a tão conhecida história do sacrifício do cordeiro pascal, a Páscoa judaica. Aqui, o cordeiro pascal não só põe em marcha o Êxodo, como também salva os israelitas do anjo da morte, o anjo exterminador, permitindo-lhes, então, iniciar a sua jornada rumo à Terra Prometida. Ou seja, o cordeiro pascal, já neste contexto, estava associado à libertação, ao resgate e, em particular, à libertação da morte. O que significa, pois, que o que João está a anunciar e profetizar é que Jesus irá inaugurar um novo êxodo, um que nos libertará, como agora sabemos, não apenas da morte física, mas também da morte espiritual e que iniciará a nossa caminhada não para a terra prometida terrena, mas sim para a Terra Prometida Celeste. Neste mesmo sentido, encontramos também o próprio Jesus, no capítulo 6 de S. João, a afirmar que «Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei de dar pela vida do mundo é a minha carne.», tal como no Antigo Testamento era necessário comer a carne do Cordeiro Pascal para ser preservado da morte. (1)

A segunda passagem seria a profecia de Isaías, no capítulo 53, do servo sofredor. Isto porque se, por um lado, temos o cordeiro pascal no Êxodo – de facto, o cordeiro pascal protege da morte, liberta do Egipto –, é, porém, em Isaías que encontramos a imagem à qual a oração subordinada «que tira o pecado do mundo» faz referência. Em Isaías 53 ouvimos o profeta anunciar a misteriosa figura de um servo que «como um cordeiro é levado ao matadouro», «tomando sobre si os pecados de muitos»: «o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes.» É precisamente esta a imagem que João Baptista pretende anunciar: Jesus como o Cordeiro Pascal, do Novo Êxodo, e como o verdadeiro Servo Sofredor, que carrega e tira todo o pecado do mundo, assumindo-os sobre Si.

  1. «Era antes de mim»

Um segundo aspecto que importa igualmente considerar é: o que é que João quer dizer quando afirma: «Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim.»? De facto, se pararmos para pensar, é uma coisa estranha de se dizer acerca de um primo mais novo, pois, como sabemos pelos capítulos 1 e 2 de S. Lucas, João Baptista é seis meses mais velho do que Jesus. Ou seja, segundo a ordem natural das coisas, Jesus não existia antes do seu primo. Todavia, aquilo para que João Baptista está a apontar é precisamente a ordem sobrenatural das coisas, ou seja, o mistério da divindade de Jesus – aquilo a que os teólogos chamam de pré-existência. De facto, embora Jesus tenha nascido depois de João segundo o seu corpo humano e segundo a sua natureza humana, Ele é, de facto, o Filho eterno de Deus, i.e., antes de Se fazer homem, o Filho – a Pessoa divina, a segunda Pessoa da Trindade – já existia desde toda a eternidade. Jesus existia antes de assumir a natureza humana e Se ter feito homem na Encarnação, quer dizer, evidentemente antes de João Baptista. Como rezamos no Credo: «Nascido do Pai antes de todos os séculos». E como o Prólogo de São João nos revela: «No princípio havia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus. No princípio Ele estava em Deus. Por Ele é que tudo começou a existir.»

Assim, o segundo aspecto que João profetiza é absolutamente essencial, pois ao afirmar que teologicamente Jesus era antes de si, afirma, simultaneamente, a natureza eterna e divina contida na pessoa de Jesus, quer dizer, que Jesus é o Filho eterno do Pai; gerado não criado; sem começo. Ele é o grande “Eu Sou”, ou seja, que Jesus é Deus – e não apenas homem.

  1. «Eu não O conhecia»

Em terceiro lugar, João Baptista diz-nos, por duas vezes, algo verdadeiramente curioso: «Eu não O conhecia». É curioso porque à primeira vista não é de todo em todo evidente como é que dois primos não se conhecem. Acima de tudo, dois primos cujas mães tinham uma relação de proximidade ao ponto de coabitarem e se ajudarem enquanto esperavam os respectivos bebés. Ora, S. João Crisóstomo, ao interpretar esta passagem, chama a atenção para a resposta a esta dúvida. Este doutor da Igreja leva-nos para o Evangelho de Lucas, 1:80, onde encontramos a resposta. Depois de contar a história do nascimento de João Baptista e da bênção do seu pai Zacarias, no final, o evangelista faz um ponto muito importante sobre João Baptista: «Entretanto, o menino crescia, o seu espírito robustecia-se, e vivia em lugares desertos, até ao dia da sua apresentação a Israel.» A palavra grega para “deserto” significa também “solidão”, “lugares ermos”. E aquilo que S. João Crisóstomo e outros Padres da Igreja dizem é que João Baptista não cresceu com a família. Quer dizer, não cresceu em Jerusalém, mas no deserto, afastado da família – e, por maioria de razão, de Jesus – e só se manifestou ao povo quando iniciou o seu ministério público, no tempo do baptismo. Portanto, apesar de João e Jesus serem primos, não cresceram juntos. Jesus cresceu na Galileia, como filho de carpinteiro; João cresceu como asceta no deserto (2).

Ora, esta afirmação, como explicou S. Cirilo de Jerusalém, não é de menor importância. Precisamente porque, ao nos dizer que não o conhecia, i.e., que não o conhecia de vista, não conviviam, nem cresceram juntos, tal significa então que o reconhecimento que João Baptista faz de Jesus tivesse sido puramente por revelação divina. Ou seja, é pela manifestação do Espírito Santo, no baptismo de Jesus, que João Baptista reconhece que Este é o Messias, o Filho de Deus, Aquele que baptiza no Espírito Santo. S. Cirilo sugere, assim, que aprouve a Deus separar João e Jesus durante a infância e só os reunir naquele momento a fim de mostrar que o testemunho de João não era motivado por favoritismo familiar ou uma espécie de nepotismo, uma vez que nem o conhecia fisicamente.

  1. «Eu vi e dou testemunho»

Assim sendo, chegamos ao último ponto, a saber, o testemunho que João Baptista dá. E de que é que ele dá testemunho? Ele dá testemunho do facto de que o Espírito desceu sobre Jesus e, portanto, de que Ele será Aquele que baptiza com o Espírito Santo. Como vemos, e.g., em Mateus 3: «aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe descalçar as sandálias. Ele há de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo.» Ou seja, João Baptista dá testemunho, pelo anúncio divino que lhe é concedido e que ele viu realizar-se, de que Jesus é o esperado, o Messias, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, de que «Este é o Filho de Deus».

  1. A primeira leitura e o salmo

Aprofundado o Evangelho, não é de surpreender, então, que a primeira leitura seja de Isaías 49, uma profecia acerca do servo sofredor. Ou seja, tal como João identifica Jesus como o servo sofredor, Isaías apresenta-nos um oráculo sobre esse mesmo servo:

Disse-me o Senhor: «Tu és o meu servo, Israel, por quem manifestarei a minha glória». E agora o Senhor falou-me, Ele que me formou desde o seio materno, para fazer de mim o seu servo, a fim de Lhe reconduzir Jacob e reunir Israel junto d’Ele. Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor e Deus é a minha força. Ele disse-me então: «Não basta que sejas meu servo, para restaurares as tribos de Jacob e reconduzires os sobreviventes de Israel. Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».

Compreendemos que Isaías está a profetizar sobre a missão do servo, i.e., que vem para realizar a salvação de Israel, n.b.: não só das tribos, como também dos gentios, para ser luz das nações. Tal como quando João Baptista identifica Jesus como o servo está também a revelar a Sua missão: Ele será Aquele que tira o pecado, não apenas o do povo judeu, mas de todos os povos do mundo.

E esse é, naturalmente, também o tema do Salmo de hoje. O Salmo Responsorial é retirado do Salmo 40, que recorre igualmente à imagem do servo obediente:

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou».
«De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração».


O tema aqui é o do servo que vem para fazer a vontade do Pai. O servo obediente que se manifesta em Cristo como o Cordeiro de Deus, o servo sofredor, Aquele que tira o pecado do mundo. E essa é, no fundo, a essência do II Domingo do Tempo Comum.

  1. Para um excelente e aprofundado estudo de Jesus como o Cordeiro Pascal cf. Jesus e as raízes Judaicas da Eucaristia do Brand Pitre.

  2. De facto, vários estudiosos têm notado, a partir dos Manuscritos do Mar Morto e dos escritos de Josefo, que havia realmente, na região do Mar Morto, uma comunidade de essénios, i.e., uma antiga seita judaica de homens celibatários que praticavam formas rigorosas de ascetismo: jejum, oração e leitura das Escrituras, como uma comunidade monástica. E sabemos, pelos textos antigos, que, embora não casassem nem tivessem filhos, recebiam crianças de outras famílias e criavam-nas na comunidade. O mesmo aconteceu nas comunidades monásticas europeias durante séculos: crianças abandonadas, ou entregues voluntariamente pelos pais, eram criadas entre monges e monjas. Ora, parece que algo semelhante pode ter acontecido com João Baptista. Alguns estudiosos modernos sugerem que, depois de João nascer, os pais o teriam consagrado e entregue à comunidade dos essénios, que o teria educado. Claro que isto é mera especulação e que não o sabemos ao certo. O que não é, porém, especulação é que João não cresceu na Judeia. A Bíblia é clara: João Baptista viveu no deserto até ao início da sua missão pública.

 

Mass Readings Explained – Year A – 2nd Sunday Ordinary time por Brant Pitre

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