
Por: Alexandra Ferreira
III Domingo do Advento (Ano A)
Aquele que é mais do que um profeta
Primeira Leitura: Isaías 35: 1-6a,10
Salmo: 145 (146): 6-7, 8-9a, 9bc-10
Segunda Leitura: Tiago 5: 7-10
Evangelho: Mateus 11: 2-11
O 3º Domingo do Advento continua a caminhada da Igreja através das Escrituras e mantém o seu foco na figura de João Baptista. Depois de Jesus e Maria, a figura que mais vezes surge em destaque no Leccionário é São João Baptista. Sendo um momento decisivo na história da Igreja, este 3º Domingo do Advento realça como João é verdadeiramente essencial. O próprio Jesus irá chamá-lo “o maior entre os nascidos de mulher”. Colocaremos este episódio de Mateus 11: 2-11 no seu contexto e depois faremos a ligação com as leituras do Antigo Testamento e com o Salmo. O texto diz assim:
“Naquele tempo, João Batista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».”
A identidade de Jesus
Como o texto sugere, João Baptista foi lançado na prisão por Herodes. O seu ministério profético terminou e ele encontra-se agora encarcerado, à espera de uma sentença de morte. Envia, então, os seus discípulos a Jesus — depois de ouvir falar das acções que Ele realizava — com a pergunta: “És Tu Aquele que há-de vir?” João não diz: “És Tu o Messias?” Ele pergunta: “És Tu Aquele que há-de vir?” (Mt 11,3). E essa é uma alusão às profecias do Antigo Testamento acerca do “que há-de vir”, isto é, da vinda do próprio Deus. Jesus é sempre um pouco evasivo nas suas respostas. “Ide contar a João o que vedes e ouvis”. E apresenta uma lista de critérios, de sinais, que devem indicar a João e aos seus discípulos quem Ele realmente é.
A última parte deste Evangelho mostra Jesus a interrogar a multidão sobre João. O texto começa com João a perguntar sobre a identidade de Jesus e, em seguida, inverte-se a situação: é Jesus quem coloca a questão sobre a identidade de João. Ele percorre uma série de hipóteses e pergunta: “Fostes ao deserto ver uma cana agitada pelo vento?” (cf. Mt 11:7). Ou seja, alguém facilmente influenciável. Mas João não era assim: lutou com firmeza, resistiu a Herodes e à sua influência. Depois, Jesus continua: “Fostes ver alguém que vivia no luxo?” (cf. Mt 11:8). Claramente, não. João era profeta, alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. “Fostes ver um profeta?” (Mt 11:9). E é nesse momento que Jesus afirma: “Se é isso, então digo-vos: João é mais do que um profeta. Ele é o mensageiro anunciado no Antigo Testamento.”
Aqui Jesus faz alusão a uma profecia muito importante do livro do profeta Malaquias. Este profetizou que, um dia, Elias viria antes do grande e terrível dia do Senhor, antes da vinda do Senhor (cf. Mal 3:23, 4-5). E no final do livro de Malaquias também se lê que Deus enviará o Seu mensageiro para preparar o Seu caminho (cf. Mal 3:1). Assim, Jesus identifica João como o mensageiro que prepara o caminho para a vinda do próprio Senhor (cf. Mt 11:10). Isto é muito significativo, porque muitos cristãos assumem que aqui se fala apenas da vinda do Messias. Mas, o que Jesus está a dizer é que João é mais do que um profeta, porque é aquele que anuncia a chegada do próprio Senhor.
É por isso que Jesus acrescenta: “Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista.” (Mt 11:11). Obviamente Jesus não quer dizer que João Baptista é maior do que Maria. O que Ele está a dizer é que João é o maior homem que alguma vez viveu no período do Antigo Testamento, como o maior de todos os profetas, porque lhe coube anunciar a vinda do próprio Senhor. Mas acrescenta: “o menor no reino dos Céus é maior do que ele” (cf. Mt 11:11). Ou seja, estabelece um contraste entre a Antiga Aliança e a Nova Aliança, o Reino dos Céus, em que até o menor é maior do que João. Maria não é “a menor no Reino do Céu”, antes pelo contrário, é a Rainha-Mãe do Rei do Céu. Portanto, João não está a ser colocado acima de Maria, mas a ser destacado, no contexto próprio, como a figura culminante da Antiga Aliança.
Para contextualizar a primeira resposta de Jesus, temos de regressar à primeira leitura. A primeira leitura do 3º Domingo do Advento é precisamente a passagem a que Jesus faz alusão. Quando João pergunta: “És Tu Aquele que há-de vir?” (Mt 11:3), e Jesus responde: “os cegos vêem, os coxos andam” e assim por diante (Mt 11:5), Ele está, no fundo, a dizer: “Vai ler Isaías 35 e depois diz-me tu”. E Isaías 35:1–6 diz assim:
“Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. Ser-lhe-á dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e do Saron. Verão a glória do Senhor, o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as mãos fatigadas e robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-vos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria.”
Depois, no versículo 10:
“Voltarão os que o Senhor libertar, hão de chegar a Sião com brados de alegria, com eterna felicidade a iluminar-lhes o rosto. Reinarão o prazer e o contentamento e acabarão a dor e os gemidos.”
Isaías está a profetizar a futura era da salvação e diz algo verdadeiramente notável. Ele descreve uma espécie de novo Êxodo e, ao mesmo tempo, uma renovação da própria criação: as terras áridas, o deserto, as árvores, as flores, as montanhas — tudo se alegrará. Porquê? Porque Deus vem, porque o Senhor vem. E, quando Deus vier, abrir-se-ão os olhos dos cegos, os ouvidos dos surdos ficarão desimpedidos, o coxo saltará, e o mudo falará. É difícil exagerar a importância desta passagem, porque quando João pergunta a Jesus: “És Tu Aquele que há-de vir?”, Ele poderia ter respondido: “Vê esta profecia sobre a vinda do Messias”. Mas, neste caso, Jesus antecipa e sublinha: regressa a Isaías 35, a profecia sobre a vinda do próprio Deus, e estes são os sinais da vinda de Deus: os milagres de os cegos verem, os coxos andarem e os surdos ouvirem.
Há que reparar num detalhe: Jesus acrescenta algo mais. Ele diz que os leprosos são purificados e que os mortos ressuscitam. Ora, isso não aparece em Isaías 35. Então, porque é que Jesus o menciona? Se recuarmos ao Antigo Testamento, lembramo-nos de que, no Segundo Livro dos Reis (2 Rs: 5), há um episódio em que o profeta Eliseu é chamado a curar Naamã, que era leproso. E quando o rei de Israel recebe a mensagem a pedir que o profeta cure o leproso, exclama: “Sou eu, porventura, Deus, para poder curar um homem da lepra?” (2 Rs: 5-7). A ideia, portanto, era que havia certos milagres que só o próprio Deus poderia realizar. Assim, quando Jesus afirma que os leprosos são purificados, está a dar mais um sinal: Ele não responde apenas à questão de João sobre se é o Messias, mas revela também a Sua identidade como Messias divino, o Deus feito homem.
O mesmo acontece quando Ele diz: “os mortos ressuscitam”. Aqui está a aludir a Isaías 26. E quando Isaías anuncia que os mortos ressuscitarão, fá-lo no momento da vinda de Javé, na vinda de Deus. Portanto, quando Jesus aponta para esse sinal, está a indicar mais um critério.
E, por fim, há ainda uma alusão directa a uma profecia sobre o Messias. Quando Jesus diz que “a Boa Nova é anunciada aos pobres”, está a fazer referência a Isaías 61. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres e proclamar a libertação aos cativos” (cf. Is 61:1). Portanto, de certa forma, Jesus reúne dois conjuntos de profecias — as sobre a vinda de Deus e as sobre a vinda do Messias — e une-as numa só realidade.
A pergunta de João, assim, tem uma dupla resposta: És Tu o que há-de vir, isto é, o Messias? Vede o que faço: anuncio a Boa Nova aos pobres. Mas és mais do que o Messias? És Tu o Senhor que há-de vir? Vede o que faço: os coxos andam, os cegos veem, os mudos falam, os leprosos são purificados e os mortos ressuscitam. Tirai vós mesmos a conclusão. É isso que Jesus está a dizer: devolve-lhes a pergunta e, ao mesmo tempo, recorda-lhes: “Felizes os que não encontrarem em Mim motivo de ofensa” (cf. Mt 11:6). Porque haveria alguém de se sentir ofendido pela vinda do Messias? O Messias é apenas o rei ungido de Israel. Mas, se Jesus está a dizer que não é só o Messias, que é também o Filho divino de Deus, que é o próprio Deus que vem em pessoa, então haverá muitos que se ofenderão com isso. Na verdade, é precisamente por essa razão que Ele será executado, sob a acusação de blasfémia. De certo modo, no 3º Domingo do Advento temos uma das primeiras revelações da divindade de Jesus, na sua resposta a João Baptista.
Se ainda restarem dúvidas, podemos olhar para o tema do Salmo Responsorial, o Salmo 145 (146), e o refrão é: “Vinde, Senhor, e salvai-nos”. Ou seja, todo o Salmo fala da vinda do Senhor. O Salmo inicia dizendo:
“Aleluia! Louva, ó minha alma, o SENHOR!”
E nos versículos 7-9 fala-se do Senhor nestes termos:
“O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.
O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.
O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.
O Senhor reina eternamente…”
O que Jesus afirma estar a realizar são precisamente as obras que o Antigo Testamento atribui a Javé, ao SENHOR. Assim, este é mais um daqueles momentos em que Jesus revela a Sua divindade, fazendo referência às profecias e aos Salmos do Antigo Testamento, cumprindo-os na Sua própria pessoa, nas Suas palavras e nas Suas acções.
Expectantes e preparados
Por fim, se olharmos para a segunda leitura desta semana, da Carta de São Tiago, a Igreja exorta-nos a estar preparados para a vinda final de Cristo, para o segundo Advento de Cristo. Na Carta de São Tiago lemos:
“Irmãos: Esperai com paciência a vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e a tardia. Sede pacientes, vós também, e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima. Não vos queixeis uns dos outros, a fim de não serdes julgados. Eis que o Juiz está à porta. Irmãos, tomai como modelos de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor.”
Tiago está a dizer: os cristãos são chamados à paciência. O apóstolo usa duas comparações para o explicar. Primeiro, precisamos de ser pacientes como o agricultor que espera pelos frutos. São precisos vários anos até conseguir provar o primeiro fruto. Depois, devemos ser pacientes como os Profetas, que não tiveram apenas de esperar um ou dois anos, mas séculos inteiros até que as suas profecias se cumprissem. É este o espírito que devemos cultivar durante o Advento: uma atitude de expectativa, mas também de paciência, porque sabemos que Deus virá — como já veio na Encarnação de Jesus Cristo. E tal como cumpriu as profecias da Sua primeira vinda, no tempo de João Baptista, assim também cumprirá as profecias da Sua segunda vinda, no juízo final, no fim dos tempos.
Terminemos com uma reflexão da tradição da Igreja. É de um sacerdote jesuíta do séc. XVI, comentador da Sagrada Escritura, Cornélio a Lápide. Ele escreveu um comentário aos Evangelhos e deixou uma intuição muito profunda acerca da grandeza de João Baptista. Cornélio escreveu o seguinte:
“Aqui Cristo chama João o maior de todos os homens. Isto deve ser entendido em relação aos justos do Antigo Testamento, ou seja, de todo o tempo anterior a Cristo. João foi enviado por Deus para ser o precursor de Cristo e o amigo do esposo, para que pudesse apresentá-l’O ao mundo inteiro e testemunhar que Ele é o Messias e o único Filho de Deus. Este ofício e dignidade de São João Baptista supera de longe todos os ofícios e dignidades de todos os outros profetas (1).”
Ele é aquele que anuncia, não apenas este ou aquele acto de libertação, mas a vinda do próprio Deus. É por isso que, na liturgia, um dos momentos mais fortes da Missa acontece no rito da comunhão, quando, após a consagração, o sacerdote toma a hóstia, eleva o Santíssimo Sacramento e proclama: “Felizes os convidados para a Ceia do Senhor. Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” Nesse momento da Missa, é importante recordar que o sacerdote toma sobre os seus lábios as palavras proféticas de São João Baptista, pois trata-se de uma referência ao Evangelho de João 1:29. Nesse sentido, o papel profético de João Baptista, ao anunciar Cristo na Sua primeira vinda, continua em cada Missa.
(1) Cornélio a Lápide, O Grande Comentário de Cornélio a Lápide: Evangelho de S. Mateus — Capítulos 10 a 21 (trad. Thomas W. Mossman; vol. 2, Quarta Edição; Edimburgo: John Grant, 1908), p. 56.
Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A – 3rd Sunday of Advent” por Brant Pitre




