XXI Domingo do Tempo Comum (Ano A). Pedro, a Rocha da Igreja

Por: Catarina Cid

XXI Domingo do Tempo Comum (Ano A)
Pedro, a Rocha da Igreja: das profecias ao mandato de Cristo

 

 

Primeira Leitura: Isaías 22, 19-23

Salmo: Salmo 138, 1-2, 2-3, 6, 8

Segunda Leitura: Romanos 11, 33-36

Evangelho: Mateus 16, 13-20



O Evangelho de S. Mateus deste Domingo ajuda-nos a compreender a profundidade das raízes judaicas da instituição do Ministério Petrino, o Ministério do Papa.

Vejamos o que nos conta S. Mateus:

Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». Eles responderam: «Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus». Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.

Quem dizem que Eu sou?

Jesus, numa altura do Seu ministério em que a Sua fama o precedia pelos caminhos e povoações da Galileia como homem de Deus, profeta, mestre, curandeiro, etc., era seguido e interpelado por multidões que o procuravam na esperança de se verem livres dos seus sofrimentos. Na boca do povo, Jesus é identificado como sendo algum dos grandes profetas do passado, desaparecidos há séculos, que talvez tivesse voltado. Seja como for, no sentimento geral, são reconhecidas a Jesus características de um homem extraordinário, poderoso em prodígios e palavras, talvez até trazendo em Si o espírito de algum daqueles profetas dos tempos antigos. Ou seja, aquelas gentes reconheciam-Lhe características sobrenaturais, mas sem nunca chegarem a ter um pequeno vislumbre do grande mistério que a Sua verdadeira identidade encerrava. Neste contexto Jesus pergunta aos Doze: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»

Em resposta, os discípulos, que apesar de o acompanharem de perto ainda não sabiam bem quem Ele era, dão-lhe notícia da confusão instalada à volta da Sua identidade: «Uns dizem que és João Baptista, outros [...] Elias [...] Jeremias ou algum dos profetas.»

Um líder natural

Jesus, no entanto, insiste e volta a interpelá-los: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Simão (Pedro), toma a palavra e, em nome dos Doze, responde: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.» Esta resposta de Simão (Pedro) torna-se uma declaração de fé que toca e ilumina o coração da Igreja até aos dias de hoje, afirmando que Jesus é o Messias esperado pelo povo de Israel, o Filho de Deus anunciado pelos profetas ao longo da História. Não poucas vezes, ao longo dos Evangelhos, é Simão Pedro quem fala em nome dos Doze, quem toma a iniciativa, quem, de certa forma, os comanda e se assume como líder natural do grupo.

«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus».

Simão Pedro abarca, com a sua resposta, todo o mistério da identidade de Jesus, não pela carne mas pelo espírito, não por meio da sua própria inteligência ou conhecimento, mas porque tal lhe foi revelado por Deus, porque Deus escolheu revelá-lo a ele e não a outro.

Tu és a Pedra

Na sequência desta revelação feita a Simão Pedro, Jesus prossegue dizendo algo de extrema importância e de uma relevância tal que irá ter consequências por toda a História e vida da Igreja, ao longo dos séculos, até aos dias de hoje. Ao mudar o nome de Simão para Pedro e ao confiar-lhe as chaves do Reino, Jesus institui um ministério permanente de autoridade e serviço na Sua Igreja: o Ministério Petrino, que continua nos sucessores de Pedro, os Papas. Estabelece, assim, um princípio de unidade e um mandato para guiar e confirmar os fiéis na fé.

Dirigindo-se a Simão, Jesus anuncia-lhe que o seu nome passará a ser Pedro. A mudança de nome no Antigo Testamento é sempre uma ocasião marcante, sinal que indica a existência de uma aliança, de uma relação especial com Deus, de algo que prepara um acontecimento futuro, um plano Deus que arranca a partir daquele momento e daquela pessoa. Qualquer judeu sabia que a atribuição de um nome, na tradição judaica, trazia em si toda a carga de uma expressão com uma identidade e um significado particular. Vejamos o exemplo de Abraão. Originalmente, o seu nome era Abrão que significava «pai elevado», não tendo ele, no entanto, filhos. Deus muda-lhe o nome para Abraão, que significa «pai de uma multidão», e Abraão vem a tornar-se o pai de todos os povos da Terra. Deus muda-lhe o nome para reflectir esse mesmo papel que ele vem a desempenhar no plano de Deus para a salvação da Humanidade.

Simão passa a chamar-se «Cephas» (em aramaico), «Petros» em grego, língua em que foi escrito o Evangelho de São Mateus. Quer em grego quer em aramaico, a intenção e a vontade de Jesus foi chamar «Pedra» («Petros» ou Pedro) a Simão e construir sobre ele a Sua Igreja, com a promessa de vitória sobre as forças do mal. Ao mudar o nome para Pedro, Jesus confere-lhe uma nova identidade, uma nova missão, um papel especial na História da Salvação. Ao dirigir-se-lhe, fica claro que Jesus quis atribuir-lhe uma autoridade especial sobre a Sua Igreja, mas para se poder aprofundar ainda mais o que está na base da intenção e vontade de Jesus, é preciso voltar ao Antigo Testamento, para tentar entender as bases em que estão fundadas as raízes judaicas da autoridade inerente à instituição Papal, à figura do Papa, como sucessor de Pedro.

Ecclesia

Jesus, ao dar o nome de Pedro atribui-lhe a missão de ser a pedra onde assentará a Sua assembleia, a Sua «Ecclesia» (assembleia em grego). Este era o termo utilizado no Antigo Testamento para designar a assembleia de Israel, reunião do povo para adorar a Deus no templo. Esta «Ecclesia» está ligada ao Templo de Jerusalém, onde o povo se reunia para adorar a Deus. É muito interessante o facto de que, no Templo de Jerusalém, no Santo dos Santos, existia uma pedra especial, a pedra fundacional, a pedra angular, sobre a qual repousava a Arca da Aliança.



Essa pedra era, de certa forma, a fundação do Templo e a fundação da «ecclesia», da assembleia do povo de Deus, que lá se reunia para adorar o Senhor. Por isso, quando Jesus diz a Pedro que ele é a pedra e que sobre essa pedra edificará a Sua ecclesia, está a falar da Igreja como um novo templo, sobre o qual Isaías e outros profetas profetizaram. Neste caso, o novo templo de Deus sustenta-se não só em Jesus, a pedra angular, mas também em Pedro como base sobre a qual Jesus quis alicerçar a Sua Igreja na terra. O templo é um templo místico, um corpo vivo, uma assembleia reunida no templo que é Jesus, sob a autoridade e cuidado de Pedro.

As chaves do Reino

Jesus diz a Pedro: «Dou-te as chaves do reino dos céus» e «Dou-te o poder de ligar e desligar, para que tudo o que ligares na terra fique ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra fique desligado nos céus.», aludindo a uma passagem do Antigo Testamento, Isaías 22, a primeira leitura da missa deste Domingo.

Isaías descreve um episódio que se desenrola no reinado de um rei da dinastia de David, cerca de 800 anos antes de Jesus. Naquela altura, havia no reino um cargo de grande importância, só superado em poder e autoridade pelo próprio rei. Era um cargo equivalente ao de chefe do palácio real, ao de um administrador, um primeiro-ministro, cargo que era ocupado por alguém de total confiança do rei. Entre outras responsabilidades, tinha consigo as chaves das portas do palácio real e controlava o acesso ao Rei daqueles que procuravam chegar à sua presença, fechando ou abrindo as portas do palácio, decidindo quem podia ou não entrar. Trazia as chaves sempre consigo penduradas das suas vestes, à altura do ombro. Governava em auxílio do rei, em total submissão e para o bem do reino. Nesta passagem, o profeta dirige-se a Chebna que agira em benefício próprio, esquecendo o seu lugar de súbdito e, por isso, informa-o de que vai morrer e que o cargo será atribuído a outra pessoa. Do Livro de Isaías:

Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do palácio: «Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te do teu posto. E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim, filho de Elcias. Hei de revesti-lo com a tua túnica, hei de pôr-lhe à cintura a tua faixa, entregar-lhe nas mãos os teus poderes. E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei aos seus ombros a chave da casa de David: há de abrir, sem que ninguém possa fechar; há de fechar, sem que ninguém possa abrir. Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme, e ele será um trono de glória para a casa de seu pai.

O profeta anuncia ao desonesto administrador real que este será destituído de todas as insígnias de poder e confiança, que lhe pertenciam por inerência do cargo, em favor de um sucessor íntegro. Esta intervenção de Deus através das palavras de Isaías, leva-nos mais uma vez, a reflectir sobre a Sua fidelidade ao zelar pelo bem e integridade da administração da Casa de David para bem do povo escolhido.

Abrir e fechar

Isaías refere também que este administrador tem o poder de abrir sem que ninguém possa fechar e de fechar sem que ninguém possa abrir. Este poder revela a sua autoridade irrevogável sobre o povo, ou seja, uma autoridade não apenas simbólica mas definitiva, vinculativa.

Para melhor se entender o poder que Jesus quis conceder a Pedro, recuemos a Mateus 23, onde Jesus se refere aos Fariseus dizendo: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar.» Jesus censurara os escribas e os fariseus por exercerem essa autoridade de forma pesada e incoerente, impondo aos outros fardos que eles próprios não estavam dispostos a carregar (Mt 23,4). Ao confiar a Pedro o poder de «ligar e desligar», Jesus não elimina essa autoridade; purifica-a e coloca-a ao serviço do povo de Deus, para ser exercida segundo o Seu próprio coração.

Ao dizer a Pedro que poderá «ligar e desligar», concede-lhe uma autoridade que, na tradição judaica, significava interpretar autenticamente a Lei de Deus, decidir o que era vinculativo para o povo e exercer o governo da comunidade. Era uma linguagem conhecida dos mestres de Israel, aos quais competia ensinar e aplicar a Lei. Jesus transfere agora essa autoridade para Pedro, para que este a exerça ao serviço da Sua Igreja, com a assistência do próprio Deus.

Um Pai, para a Igreja

A figura do Rei é como a figura de um pai para o povo e o administrador real deve participar dessa paternidade. A raiz da palavra «Papa» é «Pai». Por isso, a figura do Papa, do Bispo e Roma, é para os católicos, já desde os tempos da Igreja primitiva, a figura do Pai da Igreja de Cristo, que cuida e promove o bem dos seus filhos.

O cargo instituído pelo próprio Rei Jesus, enraizado na tradição judaica, é, por isso, tão antigo como a própria Igreja. Jesus quis que Pedro fosse o segundo na hierarquia real, quis dar-lhe a responsabilidade de governar, de traçar o caminho da Igreja. Há 2000 mil anos como agora, este Ministério com mandato Divino permanece numa sucessão ininterrupta de 267 «Pedros» que foram e continuarão a ser a rocha firme que sustenta a Igreja e a liga ao Céu.

Vozes existem que referem que a figura do Papa na Igreja foi uma invenção medieval movida por interesses humanos. É interessante ver como essa acusação cai sobre si própria ao aprofundarmos as Escrituras e vermos as raízes profundas que o Ministério Petrino tem no Antigo Testamento. É com assombro que reconhecemos a sabedoria com que Jesus nos remeteu para Isaías e para a tradição judaica, para sustentar a forma como quis erguer a Sua Igreja sobre a Rocha, sobre a figura do Papa, que tem a autoridade e o mandato de Cristo para o ensino da doutrina, que tem as chaves e a administração da casa do Rei e nos guia e cuida como um pai e em nome do PAI.

Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 21st Sunday Ordinary time» de Brant Pitre e em «21st Sunday in Ordinary Time» em «The Word of The Lord - Reflections on the Sunday Mass Readings for Year A» de John Bergsma

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