
Por: Jean Pierre Neuville
XXIV Domingo do Tempo Comum (Ano A)
Mas… afinal o que significa perdoar?
Primeira leitura: Sir 27, 33 – 28, 9;
Salmo: 102 (103), 1-2.3-4.9-10.11-12
Segunda Leitura: Rom 14, 7-9
Evangelho: Mt 18, 21-35
As leituras deste Domingo estão unidas em torno do tema do perdão, de forma particular na relação entre a primeira leitura e o Evangelho, com o Salmo a realçar a vida do crente como uma imitação da Vida de Deus. Será possível parar para refletir na fórmula matemática que o Senhor propõe, ou nos valores monetários em dívida na parábola contada. Contudo, se não entendermos o que significa perdoar, de facto, corremos o risco de tomar sobre nós um «fardo pesado» (cf. Mt 23, 4), em vez do jugo suave e leve do Senhor Jesus (cf. Mt 11, 28-30). Por esta razão, debruçar-nos-emos num breve olhar panorâmico sobre o Evangelho, para depois compreendermos o que é que o perdão é e aquilo que não é.
70 vezes 7 é igual a…
Ao longo das últimas semanas temos reflectido no capítulo 18 do Evangelho de São Mateus, no discurso sobre a Igreja e a autoridade conferida aos discípulos pelo Senhor. A autoridade de ligar e desligar, a qual já tinha sido dada a Pedro no capítulo 16 (cf. Mt 16, 19-20. 18, 18), recorda-nos também que Cristo, depois da ressurreição, soprando sobre os discípulos lhes dá poder para perdoar os pecados (cf. Jo 20, 22-23). O Senhor não só dá autoridade aos discípulos, Ele torna-os participantes da Sua autoridade e isso não é coisa pouca.
A oração cristã de acordo com Santa Teresinha do Menino Jesus, como nos recorda o Catecismo da Igreja Católica (1), é um impulso do coração, um simples olhar para o céu, um grito de gratidão no bom e no mau. Torna-se diálogo. É neste movimento de coração que vemos Pedro a aproximar-se do Senhor, para Lhe perguntar o que é que tudo isto significa, como é que ele… eles farão algo tão grande como perdoar. Como é que tudo isto funcionará. Recordemos:
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na cosmovisão judaica, fortemente estruturada pelas leituras do Antigo Testamento – a Criação, a Lei e os Profetas – o número sete (sheva) aponta para o culminar de um ciclo, para a plenitude de toda a Criação, para o Sabbath, para a Aliança de Deus com todas as Suas criaturas. Por isso, é lido como símbolo de plenitude, de completude e de perfeição. Matematicamente somos capazes de dar uma resposta clara a esta equação: 70 vezes 7 é igual a 490 (voltaremos a este número). No entanto, é na sua leitura simbólica que encontramos o valor maior dado por Cristo, o da totalidade. Ou seja, somos norteados pelo Senhor a perdoar sempre.
Por outro lado, as visões do profeta Daniel e consequentes profecias estavam muito presentes no imaginário de fé do povo judeu no século I d.C.. Por isso, a escolha de Jesus ao intitular-Se como «Filho do Homem» mais de oitenta vezes nos Evangelhos (cf. Dn 7, 11-13) não é por acaso. Daqui, é possível verificar que o número 490, resultado da equação misericordiosa de Cristo, possa também ser uma alusão à profecia do nono capítulo do Livro de Daniel. Nesta, «o príncipe ungido» (cf. Dn 9, 25), o Messias, o Filho do Homem surgirá depois de uma sequência de repetições do número sete, que se traduzem num total de 490 anos. Ou seja, desde o tempo do profeta Daniel passariam 490 anos até que o Messias surgisse, trazendo consigo a libertação e o perdão. É como se, com a chegada do Messias, Deus viesse finalmente realizar a grande remissão anunciada: o perdão das dívidas, das ofensas, de tudo aquilo que separa o homem de Deus.o que nos revela um princípio fundamental para o perdão como imitação do Senhor, como um sintonizar do nosso coração ao coração de Deus (2). Assim como Deus nos envia o Messias como grande Graça, para o perdão das ofensas, das dívidas mesmo depois de tanto tempo, assim é esperado de Pedro, dos discípulos e de todo o baptizado que perdoem sempre, como nos recorda o Livro de Ben-Sirá (Sir 28, 2) - Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. A ideia de sintonia, de imitação, parece assim sublinhada também no Salmo (v. 11) que evoca a «misericórdia», o hesed (fidelidade à Aliança) de Deus: Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua misericórdia para os que O temem.
O Rei, os servos, os talentos e os denários…
Jesus, como que para explicar mais a fundo a equação proposta, conta a seguinte parábola:
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: «Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei». Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: «Paga o que me deves». Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: «Concede-me um prazo e pagar-te-ei». Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: «Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?». E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração.
A parábola do «servo desapiedado», como a define o Catecismo no ponto 2843, apresenta-nos um rei no processo de ajuste de contas. Processo justo, embora com consequências severas.
Procuremos entender bem o que estaria em jogo, no que concerne à divida de cada devedor. De acordo com as notas de tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (3), um denário correspondia ao salário de um dia de trabalho. Já um talento equivaleria a cerca de 6000 dias de salário. Logo, o servo que devia 10.000 talentos precisaria de 160.000 anos para pagar a sua dívida.
Que conclusão poderemos tirar daqui? Que o servo, em vida, não seria capaz de saldar a sua dívida. Contudo, compadecido do seu pedido, da sua contrição, o rei perdoa a dívida totalmente. Jesus, por meio desta parábola, conta-nos aquilo que Deus fará por meio d’Ele e da Sua Paixão.
Este mesmo servo, beneficiário de uma graça exorbitante, de um Amor inconcebível, lança-se ao pescoço do seu companheiro que lhe devia, em comparação, apenas 100 dias de salário. Pior do que se lançar ao pescoço deste companheiro, é que diante do seu apelo não se comove, nem o perdoa, lançando-o na prisão. A vingança e o rancor são detestáveis aos olhos de Deus, recorda-nos Ben-Sirá (cf. Sir 28, 1) e diante destes agirá justamente o Senhor. Pois, como poderá alguém que guarda rancor, que fermenta o ódio em seu coração, pedir ao Senhor cura, esperando obtê-la?
Perdoa-nos as nossas ofensas [as nossas dívidas], assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (cf. Mt 6, 12) … Aqui fica completa a ligação entre o Evangelho e o Livro de Ben-Sirá, sendo visível o desenvolvimento da sabedoria do Antigo Testamento no Novo Testamento, em Jesus. Ele que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas cumpri-los (cf. Mt 5, 17).
Mas… afinal o que significa perdoar? (4)
Até aqui parece tudo muito «simples» de compreender, até pesarmos aquilo que nos é pedido. Sobretudo se o fizermos com uma ideia errada de perdão: o perdão incondicional.
Vejamos que o Rei, no ajuste de contas com o seu servo, tinha tudo muitíssimo bem estipulado dada a dívida. A sua compaixão deve-se a um momento importantíssimo: a contrição, o arrependimento do seu servo que se lança aos seus pés. Para perceber este passo, recordemos uma passagem análoga, desta feita no Evangelho de São Lucas (cf. Lc 17, 3-4):
Se o teu irmão pecar, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. E, se pecar contra ti sete vezes ao dia e sete vezes voltar para te dizer «estou arrependido», tu lhe perdoarás.
Somos chamados a ser santos como o Pai é Santo (cf. Mt 5, 48), não a tentar ser, ou fazer mais do que o próprio Pai. Por esta razão, é essencial compreendermos o que é o perdão.
Na primeira carta de São João lemos que se confessarmos os nossos pecados, o Senhor no-los perdoará (cf. 1Jo 1, 9). Daqui o Catecismo diz-nos que o primeiro acto do penitente, pelo qual a validade do sacramento da reconciliação depende, é o da contrição (5). Portanto, para procurar obter a absolvição é indispensável o arrependimento dos nossos pecados: reconhecê-los, sentir a dor de os ter cometido e aproximar-me para pedir perdão.
O Amor de Deus é um dado adquirido: Ele é Amor (cf. 1Jo 4, 8). Porque nos ama, oferece o Seu perdão, não o impõe. Eu devo querer esse perdão, procurando-o, reconhecendo o meu pecado. Deste modo, devemos distinguir a exigência do amor incondicional que Jesus faz, de forma particular no mandamento de amar até os nossos inimigos, rezando por eles (cf. Mt 5, 43-48); e o acto de perdoar àqueles que nos pedem perdão, que é condicional, pois depende desse arrependimento e consequente pedido de desculpa.
Perdoar não é tratar o outro que me ofendeu como se ele nunca o tivesse feito, até porque isto poderá ser perigoso, podendo encorajar a repetição da acção anterior. Também não me é exigido receber o outro numa comunhão plena, pelo menos não imediatamente. A confiança ao ser quebrada deverá ser reconstruída e nunca será igual. É necessário a penitência, como no sacramento da reconciliação. É necessário reparar. Na Encíclica Dives in Misericordia (6), o Papa S. João Paulo II, recorda-nos:
O perdão manifesta que, além do processo de «compensação» e de «trégua» que é a característica da justiça, é necessário o amor para que o homem se afirme como tal. O cumprimento das condições da justiça é indispensável, sobretudo, para que o amor possa revelar a sua própria fisionomia.
Se o perdão nos for apresentado como incondicional, poderá tornar-se num fardo pesadíssimo. Compreendê-lo no coração da Igreja, na imitação do Deus sempre fiel à Sua Aliança, não o torna menos exigente, mas evita que seja desumano. Assim, o primeiro passo para amarmos e perdoarmos à imagem de Deus é compreender que sem Cristo não é possível. Reconhecer a minha fragilidade e fraqueza, deixando que o Senhor aja por meio de mim, mesmo nessas limitações, para que seja a Sua face a resplandecer para o outro.
Para isso, devemos preparar o nosso coração, para que quando o nosso irmão procurar o perdão, não encontre um coração cheio de rancor e mágoa, frutos de maledicência e autossuficiência. Mas um coração esvaziado e restabelecido pelo Amor de Cristo. Um coração pronto a ser utilizado pelo Senhor.
(1) Cf. Catecismo da Igreja Católica, § 2558.
(2) Cf. Ibidem, § 2571.
(3) Cf. https://conferenciaepiscopal.pt/biblia/index.php/Main_Page
(4) Ponto baseado em STAPLES, T., «Must I Forgive and Forget?», et AKIN, J., «The Limits of Forgivness», in https://www.catholic.com/
(5) Cf. Catecismo da Igreja Católica, §1451.
(6) Pp. João Paulo II, Dives in Misericordia, § 14.
Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 21st Sunday Ordinary time»
de Brant Pitre e em«21st Sunday in Ordinary Time» em
The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readingsfor Year A de John Bergsma.




