XXVI Domingo do Tempo Comum (Ano A). Um “sim” eficaz

Por: Duarte Azevedo Mendes

XXVI Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Um «sim» eficaz

 

Primeira leitura: Ezequiel 18, 25-28

Salmo: 25 (24), 4-5, 6-7, 8-9

Segunda leitura: Filipenses 2, 1-11

Evangelho: Mateus 21, 28-32

 

Neste Domingo, a Igreja convida-nos a reflectir sobre a responsabilidade de cada um pelas suas próprias escolhas e pela resposta que damos ao apelo de Deus à conversão. A primeira leitura, retirada do livro do Profeta Ezequiel, dá início a este percurso e nela escutamos:

Eis o que diz o Senhor: «Vós dizeis: “A maneira de proceder do Senhor não é justa”. Escutai, casa de Israel: Será a minha maneira de proceder que não é justa? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto? Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal e vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida. Se abrir os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, há de viver e não morrerá».

 

Pecados dos pais, culpa dos filhos?

Ezequiel é um dos chamados Profetas Maiores, ao lado de Isaías, Jeremias e Daniel. Sacerdote em Jerusalém, é exilado com o Rei Jeconias para a Babilónia, no ano de 597 a. C., e é aí, por volta dos seus 30 anos, que é chamado por Deus a tornar-se um profeta. A passagem que escutamos neste Domingo insere-se nos oráculos proféticos proclamados no sexto ano após o exílio, ou seja, em 592 a. C., ainda antes de o Templo de Jerusalém ser completamente arrasado por Nabucodonosor.

Neste contexto, o povo israelita assumia o seu desterro para a Babilónia como castigo de Deus pelas faltas de seus pais contra Deus. Daí que se insurja contra Ezequiel dizendo: «A maneira de proceder do Senhor não é justa.» Para o povo agora exilado, o castigo que sofria não era consequência das suas próprias faltas, mas das faltas dos seus pais.

Mas o profeta retorque, afirmando com clareza a responsabilidade pessoal de cada um diante de Deus. Ninguém pode, portanto, esconder-se atrás das acções daqueles que o precederam, mas, igualmente, não fica refém do seu passado: o justo, se abandona a justiça, pode perder-se e o pecador, se abandona o mal, pode encontrar o caminho da vida.

 

Palavra dita, vontade cumprida

No Evangelho ouvimos uma parábola que nos aponta na mesma direcção. Relata-nos São Mateus:

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: “Filho, vai hoje trabalhar na vinha”. Mas ele respondeu-lhe: “Não quero”. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: “Eu vou, Senhor”. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?». Eles responderam-Lhe: «O primeiro». Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».

Jesus encontra-se no Templo em Jerusalém. No relato de São Mateus, no dia anterior tinha entrado em Jerusalém ao som de Hossanas, como recordamos no Domingo de Ramos, e, chegado ao Templo, tinha expulsado os cambistas e vendedores que aí se encontravam. É o início da rota de colisão entre Jesus e as autoridades religiosas da Cidade Santa.

No dia seguinte, dirigindo-se de novo ao Templo, começou a ensinar os que aí se reuniam e é confrontado pelos príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, que O questionam sobre a origem do Seu poder e autoridade. Depois, Jesus apresenta-lhes esta história de um pai e dois irmãos.

Ora, quem eram estes interlocutores de Jesus? Os príncipes dos sacerdotes pertenciam à elite sacerdotal ligada ao governo e à administração do Templo e entre eles encontravam-se os principais responsáveis pelo culto e pela vida do santuário. A atitude de Jesus no dia anterior, ao interferir com o funcionamento do Templo, tinha, assim, sido uma afronta à sua posição. Por seu lado, os anciãos do povo presidiam a famílias e comunidades judaicas e constituíam, frequentemente, uma elite social e religiosa entre o povo, fazendo muitos deles parte do Sinédrio.

É precisamente a estes homens, tão zelosos da sua autoridade e da sua posição religiosa, que Jesus dirige a história de um pai e dois filhos. Nela, os filhos recebem a mesma indicação do pai: «Filho, vai hoje trabalhar na vinha.» O primeiro recusa-se e o segundo promete prontamente cumprir a vontade do pai. No entanto, as palavras e as atitudes dos dois filhos acabam por divergir. O filho aparentemente obediente acaba por não ir trabalhar na vinha. Já o primeiro arrepende-se da desobediência inicial e cumpre a vontade paterna.

A expressão «arrependeu-se» traduz o verbo grego metamelomai. Esta palavra surge apenas duas vezes no Evangelho de São Mateus: nesta passagem e no arrependimento de Judas depois da sua traição (Mt 27, 3). Em ambos os casos, o verbo exprime o pesar que surge de uma atitude tomada. Mas o que difere é a atitude subsequente: o primeiro filho transforma o seu arrependimento em obediência ao pai, enquanto Judas permanece encerrado no remorso e no desespero, sem se voltar confiadamente para Deus nem encontrar o caminho da conversão.

Confrontados por Jesus, os seus interlocutores não têm dúvidas. O primeiro filho é aquele que segue a vontade paterna. Independentemente das palavras do segundo, o determinante é a atitude final de ambos, o cumprimento da indicação do pai. Afinal, a obediência verdadeira não se mede pela qualidade da resposta dada no momento, mas antes pela transformação dessa resposta na concretude das nossas vidas.

É a partir da resposta dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos do povo que Jesus explicita o ensinamento que pretende transmitir com esta parábola.

Jesus lembra a pregação do Seu Precursor, João Baptista, que havia pregado o arrependimento e a conversão dos pecadores. Quando Jesus lembra «os publicanos e as mulheres de má vida», lembra, não aqueles que escutaram João e continuaram as suas vidas como antes, mas aqueles que ouvindo este apelo se arrependeram das suas faltas e se converteram ao «caminho da justiça». Não se trata, portanto, de escandalizar a audiência, mas de lhe mostrar que aqueles que eram considerados grandes pecadores públicos do seu tempo acolheram o apelo à conversão.

O contraste é, assim, particularmente duro: aqueles que pareciam estar mais longe de Deus responderam ao chamamento de João, enquanto aqueles que se consideravam próximos de Deus – precisamente os que, naquele momento, se encontravam diante de Jesus – recusaram converter-se.

 

Obedecendo com humildade

O oráculo de Ezequiel e a parábola dos dois filhos encontram, na segunda leitura, a sua expressão plena: o próprio Senhor Jesus. 

Na passagem retirada da Carta de São Paulo aos Filipenses escutamos um trecho que as comunidades cristãs primitivas tomaram como um hino cristológico e que ainda hoje a Igreja reza, lado a lado com os Salmos, na Liturgia das Horas:

Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

Jesus é, assim, o exemplo acabado daquela obediência que não se limita às palavras, mas se entrega inteiramente à vontade do Pai. Jesus, verdadeiro Deus, na Sua humildade, tornou-se verdadeiro Homem e, seguindo a vontade do Pai, entregou-Se por nós e para nossa salvação.

É exactamente neste contexto que a humildade de Cristo apresentada por São Paulo se torna também um modelo de vida na relação com os outros. A obediência de Jesus ao Pai não é apenas um exemplo individual de virtude, mas mostra-nos a forma de vida daquele que não procura os seus próprios interesses: a entrega pelos outros.

Diante destas leituras, a pergunta de Jesus também nos é dirigida: que filhos somos nós? Não basta dizer «sim» a Deus com os nossos lábios. Esse «sim» deve tornar-se eficaz na nossa vida. Mais ainda, quando a nossa resposta tiver sido um «não» (ainda que tantas vezes não nos apercebamos de que o foi), permanece sempre aberto o caminho da conversão. De olhos postos em Cristo, peçamos a graça de transformar as nossas palavras em obras e de modelar a nossa vontade à vontade do Pai.


Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 26th Sunday Ordinary Time» de Brant Pitre e em A Catholic Introduction to the Bible – The Old Testament de John Bergsma e Brant Pitre.

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