
Por: Isabel Horta Correia
XXVII Domingo do Tempo Comum (Ano A)
A Vinha do Senhor
Primeira Leitura: Isaías 5:1-7
Salmo: 80:9, 12, 13-14, 15-16, 19-20
Segunda Leitura: Filipenses 4:6-9
Evangelho: Mateus 21:33-43
A liturgia de hoje é dominada pela imagem bíblica da vinha. No cântico do profeta Isaías e na parábola do Evangelho podemos ler toda a história da salvação, nas suas diferentes fases: podemos ler a história das vicissitudes do homem, as suas infidelidades, as suas ingratidões, mas sobretudo podemos admirar as múltiplas e contínuas manifestações do amor de Deus pelo homem, tanto na Antiga como na Nova Aliança.
No Evangelho deste Domingo, Jesus, no contexto da crescente oposição que se levanta contra Si nos últimos dias da Sua vida na terra, conta-nos a famosa parábola dos lavradores maus:
«Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
“Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?”
Eles responderam: “Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo”.
Disse-lhes Jesus: “Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos”»
Lendo uma passagem anterior do Evangelho segundo S. Mateus (21:23), fica claro que Jesus conta esta parábola dos maus lavradores no Templo de Jerusalém dirigindo-se aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. Este já não é, assim, o das multidões da Galileia no Sermão da Montanha. Jesus fala agora directamente aos sacerdotes e anciãos judeus, os líderes do povo, na cidade de Jerusalém e no próprio Templo. E fala naqueles dias em que cresce o conflito entre Jesus e estes líderes judeus, que Lhe fazem perguntas, tentam testá-Lo e Lhe armam ciladas.
Quando Jesus usa a metáfora da vinha, do dono da vinha e dos trabalhadores na vinha, está a aludir especificamente a uma profecia do Antigo Testamento, um texto sobre a vinha do Senhor, bem conhecido pelos que O escutavam. Este texto, a alegoria da vinha do profeta Isaías, que a Igreja nos propõe como a primeira leitura deste Domingo, muitas vezes chamado cântico da vinha, diz assim:
«Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha.
O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços.
E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha:
Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito? Quando eu esperava que viesse a dar uvas, porque é que apenas produziu agraços?
Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha: vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou demolir-lhe o muro e será espezinhada. Farei dela um terreno deserto: não voltará a ser podada nem cavada, e nela crescerão silvas e espinheiros; e hei de mandar às nuvens que sobre ela não deixem cair chuva.
A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel, e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror.»
Isaías escreve um cântico de amor sobre a vinha do Senhor, que nos diz ser a casa de Israel. A vinha representa tanto a casa de Israel, o povo de Israel, como a cidade de Jerusalém, dada a menção à torre de vigia e à queda dos muros. Assim como esta vinha tem uma torre e muros à sua volta, também Jerusalém, a cidade, tinha uma torre e muros construídos à sua volta. O profeta anuncia que as muralhas e a torre da cidade irão ruir.
Assim, esta é uma profecia da destruição de Jerusalém e uma profecia do julgamento contra os seus líderes e habitantes, que deveriam viver numa aliança de amor com Deus, mas que quebraram esta aliança e a violaram através do seu pecado. A imagem que Isaías utiliza é o contraste entre uvas e agraços, isto é, uvas bravas. Se Jerusalém é a vinha do Senhor, deveria produzir uvas boas, que simbolizam a justiça. Mas, em vez de produzir o fruto da justiça para o Senhor, gera agraços, impróprios para a produção de vinho.
Imagine-se agora a perspetiva de um judeu do primeiro século especialmente do sumo sacerdote, um ancião ou um rabino, que conhecia as Escrituras. Estes sabiam bem que Isaías tinha condenado Jerusalém e os seus líderes por causa da sua maldade, usando a alegoria da vinha e dos seus maus frutos. Jesus retoma precisamente esta imagem ao dizer: «Ouvi outra parábola», apresentando agora os agricultores como ímpios. Mais uma vez na parábola de Jesus, o dono da vinha é um símbolo de Deus, do Senhor, e a vinha representa não só o povo de Judá, mas os líderes de Jerusalém.
A vinha é, então, a palavra central da liturgia de hoje, a imagem que liga entre si o trecho de Isaías, o Evangelho de Mateus e o Salmo.
Em Isaías lemos o cântico da vinha, cântico de amor de Deus, dono e agricultor, pela sua «plantação escolhida». O profeta manifesta também a desilusão de Deus perante as uvas bravas, perante a violência física e moral que habita na casa de Israel, «Que mais podia fazer à minha vinha…?». E depois refere o juízo de Deus que se mostra pronto a abandonar a vinha que cultivou com tanto amor e cuidado.
Na parábola de São Mateus, a vinha é agora o pano de fundo do drama. Destacam-se em primeiro plano aqueles que a cultivam: os vinhateiros a quem o senhor tinha arrendado a vinha. A atenção desloca-se para uma nova injustiça: já não a recusa do trabalho, mas a recusa de entregar os seus frutos ao Dono da vinha.
Os vinhateiros não reconhecem a relação de aliança e, na «época das colheitas», não reconhecem outro dono senão eles próprios. Mas o Dono não desiste da sua vinha e envia-lhes servos fiéis para lhes recordar a aliança estabelecida. Estes servos representam os profetas que Deus enviou a Israel sempre que esta caía em pecado a fim de os chamar ao arrependimento.
A parábola continua mostrando, porém, que os rendeiros rejeitam os servos enviados pelo Dono da vinha: espancam um, matam outro e apedrejam um terceiro. Estes servos representam os profetas enviados por Deus a Israel, enquanto os rendeiros representam os chefes do povo em Jerusalém.
Alguns estudiosos têm salientado que estas podem ser alusões a profetas específicos. Assim, quando se diz que um dos servos foi morto, pode ser uma referência a Isaías, talvez o mais famoso dos profetas do Antigo Testamento depois de Elias, que, segundo a tradição judaica, foi serrado ao meio pelo rei Manassés. A imagem do servo a ser apedrejado pode, por sua vez, ser uma alusão ao profeta Jeremias. Este profetizou em Jerusalém que a cidade seria destruída 600 anos antes de Jesus, caso o povo não se arrependesse. Em consequência, foi atirado para uma cisterna e acabou por ser levado para o Egipto, onde, segundo a tradição, foi apedrejado até à morte.
Comparando as duas leituras, encontramos, contudo, uma diferença significativa entre o relato de Isaías e a parábola de Jesus. Enquanto no profeta lemos que a ira do Senhor se concretiza, o mesmo não acontece na parábola do Evangelho.
Isaías acaba dizendo «Farei dela um terreno deserto: não voltará a ser podada nem cavada, e nela crescerão silvas e espinheiros; e hei de mandar às nuvens que sobre ela não deixem cair chuva». O Senhor abandona a sua amada vinha e esta voltará ao estado inicial de infertilidade.
Jesus, por seu lado, revela algo novo: vem agora dizer-nos que, apesar dos vinhateiros terem chegado ao ponto de espancar os enviados do Dono, e terem morto o seu próprio filho, Ele não vai desistir da sua vinha. Jesus revela-nos o mistério da Sua Encarnação: o Pai não abandona as suas criaturas apesar da quebra da Antiga Aliança e envia o Seu Filho como palavra definitiva de mediação. Envia-O como sinal da Nova Aliança mesmo sabendo que os vinhateiros depois de espancarem os enviados do Dono “lançaram-no [ao Filho] fora da vinha e mataram-no”.
Neste ponto a parábola torna-se anúncio dos acontecimentos pascais. O drama da Humanidade tem aqui um ponto de viragem, pois o Homem deixa de simplesmente desobedecer aos preceitos divinos e passa a rejeitar o próprio Senhor, matando o Filho que o Pai enviou.
Compreendemos, então, como as leituras deste Domingo descrevem toda a história da salvação. Deus tinha escolhido para Si um povo, o povo de Israel, e com ele tinha estabelecido uma Aliança e tinha-lhe dado leis, chefes, sacerdotes, profetas que o ajudassem no caminho rumo à terra prometida, à libertação da escravidão, à salvação. Mas o povo eleito não foi fiel à Aliança, não correspondeu ao amor de Deus, não escutou os seus profetas e não observou as suas leis. Apesar de tudo isto, Deus nunca abandonou o seu povo, permaneceu-lhe fiel, colocando-se sempre do seu lado, e enviou o Seu Filho muito amado, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Assim, o Deus da Aliança constrói a Sua Casa na história do homem, sobre Cristo. A pedra rejeitada torna-se, no Calvário, a pedra angular da construção divina na história do mundo. A partir da Cruz, que parecia ser o lugar da derrota, manifesta-se o poder de Deus que conduz à Ressurreição pelo Espírito Santo.
Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 27th Sunday Ordinary Time» de Brant Pitre.




