
Por: Francisca Corrêa Henriques
Primeira Leitura: Sabedoria 6, 12-16
Salmo: 62 (63), 2.3-4.5-6.7-8
Segunda Leitura: 1 Tessalonicenses 4, 13-18
Evangelho: Mateus 25, 1-13
Na passada segunda-feira, celebrámos a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Um convite à oração por aqueles que já partiram e que nos introduz na reflexão sobre a nossa própria morte. Não apenas sobre a nossa partida definitiva deste mundo terreno, mas sobre todo o tipo de morte que vamos enfrentando ao longo das nossas vidas. Como diz o Papa Bento XVI, «Morrer, na realidade, faz parte do viver, e isto não só no fim, mas considerando bem, em cada momento». (1) Pois então, qual é o sentido da nossa vida? É sobre esta inquietação profunda que somos convidados a refletir neste Domingo, com a conhecida Parábola das Dez Virgens. Inserida no vigésimo quinto capítulo do Evangelho segundo São Mateus, integra a parte final do discurso escatológico de Jesus.
Este texto foi redigido para o público judaico-cristão do primeiro século e, por isso, pressupõe que os leitores estejam familiarizados com uma série de costumes judaicos da época, os quais nos ajudam a compreender melhor a mensagem. O matrimónio era um processo que se iniciava com os esponsais ou noivado, ao qual se seguia a troca de votos — momento em que os noivos se tornavam legalmente marido e mulher. Após estes dois passos, o noivo dispunha de um tempo, por vezes cerca de um ano, para preparar a casa onde acolheria a sua esposa, bem como para organizar a grande festa de celebração, que tinha a duração de sete dias. Como parte desta grande festa, realizava-se uma procissão noturna até à nova casa. Apenas após estas etapas, os esposos iniciavam a sua convivência.
É no contexto desta procissão que se desenrola a parábola que aqui pretendemos aprofundar. A primeira constatação óbvia é que os noivos não são identificados; sabemos apenas que dez virgens «foram ao encontro do esposo». Estas dez virgens são as damas de honor que aguardam a chegada do esposo para o acompanhar ao banquete nupcial e que, por ser de noite, trazem as suas lâmpadas. Há uma chave de leitura esponsal deste episódio e estas virgens representam o povo de Deus que aguarda a vinda do Messias. Jesus Cristo, como esposo da humanidade que tem sede de nós, vem ao nosso encontro para nos salvar por meio desta aliança — desta relação íntima de amor prefigurada no matrimónio.
Contudo, nestas virgens habita uma diferença que, à primeira vista, parece pouco importante, mas que, com o desenrolar da narrativa, compreendemos ser essencial, pois toca o âmago e o coração de cada uma delas. Cinco virgens levaram azeite extra nas almotolias para reabastecer as suas lâmpadas e, por isso, são qualificadas como prudentes. As restantes cinco não o fizeram, não se preparando devidamente para este grande encontro; consequentemente, são designadas como insensatas.
O esposo demorou e todas as virgens acabaram por adormecer. A meio da noite, foi anunciada a sua chegada e elas começaram a preparar as suas lâmpadas para irem ao seu encontro. Contudo, as lâmpadas das virgens insensatas começavam a apagar-se; por essa razão, pediram azeite às prudentes, dado que o seu se consumira durante a espera. Como as virgens prudentes não tinham azeite suficiente para todas, sugeriram-lhes que fossem comprá-lo aos vendedores. Enquanto estas se ausentavam, o esposo chegou e entrou para o banquete nupcial acompanhado apenas pelas virgens prudentes, que estavam prontas para o receber, fechando-se então a porta. Mais tarde, mesmo diante do apelo das virgens insensatas para que a porta fosse aberta, o esposo respondeu que não as conhecia.
Esta parábola pretende exortar-nos a que, mesmo que a vinda do esposo se atrase, permaneçamos sempre preparados como as virgens prudentes: a chama da vigilância deve manter-se acesa. O azeite utilizado para alimentar esta chama é um elemento invisível, mas essencial; representa a nossa vida interior, a nossa caridade. Se, numa primeira leitura, nos chamou a atenção o facto de as virgens prudentes não acederem ao pedido das insensatas — chegando mesmo a parecer-nos uma atitude egoísta —, somos agora capazes de reconhecer que este azeite é algo que não se partilha: é individual e intransferível. Concerne ao modo como acolhemos o dom da graça de Deus na nossa vida e à nossa disponibilidade para nos encontrarmos com o Esposo, que vem ao nosso encontro para se reunir e celebrar o amor no banquete nupcial — uma grande festa e símbolo do Reino dos Céus — como expressão máxima da alegria e da felicidade eternas.
Esta verdade encontra o seu eco profundo nos ensinamentos da Igreja sobre o fim dos tempos. Quando Jesus regressar na Sua glória para o julgamento final, a verdade mais íntima da nossa vida espiritual virá inteiramente à luz. É esta vida espiritual que constitui o azeite das nossas lâmpadas, o qual alimenta a fé ao longo da espera. Nesse momento decisivo, o Senhor manifestará as intenções ocultas de cada coração, retribuindo a cada um em função das suas obras — resposta concreta e visível de cada indivíduo à sua fé — e da forma livre como acolheu, ou rejeitou, o dom da graça divina ao longo da sua existência. (2)
É neste horizonte do juízo que compreendemos o dramatismo do fecho da porta (Mt 25, 10). Ao contrário do que a nossa mentalidade contemporânea possa sugerir, este encerramento não reflete uma arbitrariedade do Esposo, mas sim a consumação das nossas próprias escolhas. O apelo tardio das virgens insensatas «Senhor, Senhor, abre-nos!» (Mt 25, 11) obtém uma resposta severa: «Em verdade vos digo: Não vos conheço» (Mt 25, 12). Esta rejeição não significa uma indiferença da parte de Deus, mas constata uma ruptura real: elas optaram por viver sem corresponder ao amor de Nosso Senhor, e em conformidade com a sua opção estarão eternamente separadas do «único em Quem o homem pode encontrar a vida e a felicidade para que foi criado e às quais aspira». (3)
Por fim, a parábola termina com uma advertência vital: «Vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mt 25,13). A vigilância cristã não é um estado de medo passivo, mas sim uma prontidão activa e diária, pois o momento do encontro definitivo com o Senhor permanece oculto aos nossos olhos humanos. Contudo, para aqueles que vivem com Cristo no coração, esta expectativa não gera temor, mas sim uma profunda confiança; mais do que um nada, a morte passa a ser a porta da esperança que conduz à grande e definitiva festa da vida eterna.
É momento de regressarmos à nossa questão inicial: qual é o sentido da nossa vida? Como afirmava Santo Agostinho, «Criastes-nos, Senhor, para Vós, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Vós» (4). Afinal, a dinâmica mais profunda de quem ama traduz-se no desejo ardente de se reunir com a pessoa amada. Estarmos prontos para o nosso encontro com o Senhor, para a nossa união definitiva com Deus, é a nossa maior responsabilidade pessoal. Para tal, torna-se primordial o cuidado do coração e da intimidade da nossa relação com Jesus Cristo.
A leitura do Livro da Sabedoria de Salomão remete-nos para um movimento bidirecional: a mútua atracção que existe, tanto da parte dos homens em direção à Sabedoria, como da Sabedoria em direcção aos homens.
A Sabedoria, aqui personificada como mulher, é o centro para onde os homens se voltam com todas as suas faculdades. Isto reflete-se na dimensão afectiva («amam»), na dimensão prática («procuram» / «buscam»), na dimensão volitiva («desejam»), na dimensão intelectual («meditar sobre ela») e na dimensão espiritual («consagra as vigílias») do ser humano.
Por outro lado, o movimento da Sabedoria é gradual, evoluindo de uma postura passiva para uma activa: «deixa-se ver», «faz-se encontrar», «antecipa-se e dá-se a conhecer», fica «sentada à sua porta», «procura por toda a parte os que são dignos dela», «aparece-lhes nos caminhos» e «vem ao seu encontro em todos os seus pensamentos». Esta forma progressiva de aproximação, prefigura a própria História da Salvação, isto é, o modo como Deus escolheu revelar-se à humanidade, harmonizando-se com a capacidade que o homem tem de O acolher.
O Livro da Sabedoria terá sido redigido no século I a.C., época em que a cultura helénica se impunha, e a obra pretende defender a fé e os valores judaicos. Neste contexto, a Sabedoria é dom gratuito de Deus, conhecimento que conduz o homem à vida verdadeira ou a viver santamente e que terá a sua recompensa junto do Senhor. Israel identificou a Sabedoria com a Lei ou Tora, i.e., a viver cumprindo os mandamentos, caminho seguro para chegar a Deus.
Esta Sabedoria, que é «luminosa» e brilha sem cessar, e que é «cheia de benevolência», é sinónimo de Verdade Divina. É por Ela que devemos manter-nos vigilantes durante toda a nossa vida, e é ela que nos preparará para o nosso encontro com o Senhor.
O Salmo, à semelhança da leitura do Livro da Sabedoria, vem relevar esta ideia de que o homem procura Deus «A minha alma tem sede de Vós, meu Deus». E fá-lo desde a «aurora» até à «noite», vigilante, durante toda a vida. Como nos recorda Santo Agostinho, «A oração, saibamo-lo ou não, é o encontro da sede de Deus com a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede d’Ele» (5).
Senhor nosso Deus, que na vossa infinita sabedoria conheceis a hora de todas as coisas, concedei-nos a graça de permanecermos preparados e vigilantes, instruídos pela luz do Espírito Santo até ao Vosso regresso.
(1) Papa Bento XVI, Ângelus, 5/11/2006.
(2) Cf. Catecismo da Igreja Católica, n.º 682.
(3) Catecismo da Igreja Católica, nº 1057.
(4) Santo Agostinho, Confissões, I, 1, 1.
(5) Catecismo da Igreja Católica, nº 2560.
Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 32nd Sunday Ordinary time» de Brant Pitre.
(1) Santo Agostinho, Sermão 33, 2, citado no Catecismo da Igreja Católica, § 2067
Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 26th Sunday Ordinary Time» de Brant Pitre




