
Por: Miguel Simões
IV Domingo do Advento (Ano A)
A Concepção Virginal de Jesus
Primeira Leitura: Isaías 7:10-14
Salmo: 24 (23), 1-2, 3-4, 5-6
Segunda Leitura: Romanos 1:1-7
Evangelho: Mateus 1:18-24
Neste IV Domingo do Advento, a Igreja apresenta-nos o anúncio do nascimento de Jesus, como nos é relatado por São Mateus. Diz assim:
“O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.”
Esta passagem contém muitos pormenores interessantes. Analisemos alguns. Primeiro, detenhamo-nos no verísulo 18 “estando Maria, sua mãe, desposada com José, mas antes de coabitarem”. Se repararmos, estão aqui em causa dois pontos temporais distintos a servir de referência: i. “desposada com José”, e ii. “antes de coabitarem”. São Mateus refere-se aqui ao processo de casamento que os antigos judeus praticavam, que era composto por duas fases. No judaísmo antigo, um homem e uma mulher tornavam-se legalmente casados através de um acto desponsório. Às vezes diz-se que Nossa Senhora e São José estavam noivos, mas não é verdade: o desponsório era a entrada legal numa aliança matrimonial, ou seja, uma vez desposados, já eram, de jure, marido e mulher. Todavia, o casamento só era consumado quando passavam a viver juntos, a coabitarem, como diz o Evangelho. O que significa, então, que se Maria tivesse ficado à espera de bebé de outro homem, mesmo antes de coabitar com José, tal teria sido considerado adultério – e não mera quebra de noivado. Habitualmente, o noivo, após o desponsório, preparava a casa para receber a sua esposa, algo que São José, sendo carpinteiro, poderia obviamente fazer. Depois, ocorreria aquilo a que anacronicamente chamaríamos de “cerimónia do casamento”, que decorria ao longo de sete dias, culminando com a procissão da noiva até à casa do noivo. Só então seria o casamento consumado. Assim sendo, a imagem que nos é apresentada é a de Nossa Senhora e São José já casados (e não noivos), porém sem viverem juntos, i.e., sem terem celebrado a festa final do casamento com a sua consumação.
Assim, conseguimos compreender melhor não só a gravidade da situação, bem como a reacção de São José no versículo seguinte “José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente.” O que fica, então, sublinhado é a concepção virginal de Jesus: concebido no seio de Maria pelo poder do Espírito Santo. Como o Anjo diz a José, quando este resolve deixar Maria: “Não temas receber Maria, tua esposa” – i.e., recebê-la em tua casa – “pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo” (Mt 1:20).
Logo de seguida, depois desta clara afirmação da concepção virginal de Nossa Senhora, o Anjo acrescenta: “Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.” Aqui importa reparar que na língua aramaica – provavelmente falada pela maioria dos judeus no tempo do nascimento de Jesus – o original da transliteração “Jesus” corresponde a Yeshua, que significa “Deus salva” ou “o Senhor salva”. Ou seja, para além da revelação da concepção virginal do Menino, recebemos igualmente a sua identidade: o Salvador.
Por fim, notemos ainda como São Mateus sublinha que esta concepção virginal, esta concepção milagrosa, sem precedentes, corresponde em verdade ao cumprimento de uma das profecias do Antigo Testamento. O evangelista remete para Isaías 7:14, para a profecia de uma virgem que conceberá e dará à luz um filho cujo nome será Emanuel, que significa “Deus connosco” ou “Deus está connosco”. Voltamos a ver a importância do nome. Não é de estranhar, então, que seja esta a primeira leitura que a Igreja nos propõe.
Ora, de modo a compreender mais plenamente por que razão aponta São Mateus para este texto, recuemos e olhemos para o mesmo no seu contexto. O cenário é o seguinte: as dez tribos do Norte de Israel, frequentemente chamadas de Efraim ou simplesmente Israel, aliaram-se ao império pagão da Síria, e ameaçam atacar o Reino do Sul, Judá. O rei do Sul, à época, é o rei Acaz, que está obviamente cheio de medo e inquietação sobre o que fazer perante esta crise. O profeta Isaías – que vivia no século VIII a.C., no tempo do rei Acaz – dirige-se a ele com uma mensagem de encorajamento da parte do Senhor. No meio dessa mensagem, Isaías entrega um oráculo misterioso: o anúncio de que uma virgem conceberá e dará à luz um filho. Vejamos, então, a primeira leitura deste Domingo (Is 7:10-14):
“Naqueles dias, o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: «Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».”
A profecia termina aqui. Destaquemos alguns aspectos. Isaías diz ao rei Acaz: “Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas” Acaz responde: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”. Ora, percebemos que a resposta devia conter alguma falsa modéstia, pois Deus irrita-se e responde “Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel”.
Um outro aspecto, controverso, mas que importa ter como referência, é o hebraico para “jovem”. O original diz almah. Ora, almah também pode aparecer traduzido como “virgem”, uma vez que também possui esse sentido. Assim sendo, a controversidade do versículo prende-se precisamente com isto: em que sentido está aqui a ser empregue almah. Ou seja, será virgem no sentido de uma mulher que nunca conheceu homem ou apenas enquanto referência genérica a uma mulher jovem? A ênfase está na idade ou na virgindade? Corresponde precisamente ao – muito raramente utilizado – termo portugês “donzela”. O que donzela significa é uma jovem solteira que, por isso mesmo, não teve relações conjugais. Quer dizer, trata-se de um conceito cumulativo: ela é jovem e é virgem. É isto que almah significa. Aqui, parece claro, contudo, que, apesar da tradução utilizada recorrer a “jovem”, o enfâse está na virgindade, dado que se diz de seguida que está à espera de bebé e irá dar à luz. Ora, como estamos a falar de um sinal que Deus irá dar, só faz sentido que se trate de um milagre, i.e., não uma jovem dar à luz, mas sim uma virgem. Note-se, ainda, novamente, a importância do hebraico no nome que Deus escolhe para o bebé: Emanuel, que significa “Deus [está] connosco”.
Se recuássemos e lêssemos Isaías 7, 8 e 9 – algo que não cabe aqui fazer –, encontraríamos razões para pensar que, de certo modo, esta profecia teve um cumprimento preliminar na figura do rei Ezequias, filho de Acaz. Durante o seu reinado, a crise com a Síria e Efraim terminou, e o Senhor libertou o seu povo. Contudo, outros elementos das profecias de Isaías 7, 8 e 9 parecem igualmente apontar para uma criança que vai muito além do que Ezequias alguma vez foi. Por exemplo, em Isaías 9 lê-se: “Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz.” (Is 9:5). Ou seja, estamos diante de uma descrição de uma figura que não parece meramente humana, mas também divina: um rei tão grande que será chamado “Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz.” Portanto, embora se possa compreender um cumprimento preliminar no rei Ezequias, o seu cumprimento pleno encontra-se em Jesus. Por isso, afirma São Mateus que Isaías 7 – a concepção virginal – se cumpre verdadeiramente no nascimento do Menino, concebido pelo poder do Espírito Santo e que é, de facto, literalmente “Deus connosco”. Esta é a Boa Nova que Mateus anuncia no seu Evangelho: a Boa Nova não “apenas” do nascimento do Messias, mas de Deus connosco. É isto que Bento XVI afirma no terceiro volume do seu livro Jesus de Nazaré. Reconhece que há aspectos desta profecia de Isaías que se podem aplicar ao nascimento de Ezequias, no século VIII a.C., mas afirma também que a palavra de Isaías é como “uma Palavra à espera” (1). Quer dizer, que está à espera de alguém que virá e que será maior do que qualquer rei davídico, alguém que realizará esta concepção virginal milagrosa e que será Deus connosco. Essa palavra permaneceu em espera até que Jesus veio e a cumpriu no Novo Testamento.
Dito isto – e muito mais poderia ser dito, pois é um tema bastante complexo –, espera-se que se compreenda melhor por que razão a Igreja coloca lado a lado a profecia de Isaías 7 e Mateus 1.
Para terminar, saliente-se, ainda, alguns pontos do Catecismo da Igreja Católica que se debruçam sobre a concepção virginal de Nosso Senhor. Primeiro, sublinhar como a concepção virginal nos mostra que o nascimento de Jesus é um milagre, um mistério que não conseguimos compreender totalmente. O milagre de Deus, Deus do universo, que se fez carne através da concepção virginal, pela acção do Espírito Santo. Por isso, o Catecismo ensina-nos que o nascimento de Jesus foi “uma obra divina que ultrapassa toda a compreensão e possibilidade humanas” (CIC 497). Ensina-nos, também, que este facto é o cumprimento da profecia de Isaías, como já explorámos: “A Igreja vê nisto o cumprimento da promessa divina feita através do profeta Isaías: «Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho» (Is 7:14)” (CIC 497)
Um outro ponto que importa salientar, especialmente nos dias que correm, em que se verificam correntes a questionar a narrativa do nascimento virginal como facto histórico e a interpretá-la como mitologia, é o ponto 498 onde a Igreja afirma claramente que não se trata de uma lenda, construção teológica ou mitologia pagã. Ou seja, que não se trata de uma espécie de conto popular do qual se pretende tirar um sentido mais profundo, mas que não teria necessariamente acontecido assim. É, antes, um milagre na ordem da história cujo “sentido […] só é acessível à fé.” (CIC 498) Se olharmos para os escritos dos primeiros cristãos, os Padres da Igreja primitiva, veremos que, desde o início, o testemunho da fé no nascimento virginal foi recebido com escárnio, incompreensão e rejeição, tanto por judeus como por pagãos: “a fé na conceição virginal de Jesus encontrou viva oposição, troça ou incompreensão por parte dos não-crentes, judeus e pagãos”. (CIC 498) Portanto, quando se ouve cépticos a afirmar: “Bem, os primeiros cristãos acreditavam no nascimento virginal de Jesus porque eram muito primitivos e crédulos, toda a gente acreditava nessas coisas naquela altura.”, sabemos que, através destes primitivos escritos, nada poderia estar mais longe da verdade. De facto, tanto os judeus antigos como os pagãos antigos rejeitavam o nascimento virginal de Jesus como algo ridículo, pois, como é evidente, também no séc. I se sabia perfeitamente que as virgens não têm filhos. Sabiam que seria necessária uma intervenção sobrenatural e milagrosa de Deus para que uma virgem concebesse um filho no seu seio – que é precisamente o que a Igreja afirma, com base nas leituras que vimos hoje.
A concepção virginal de Cristo ensina-nos, também, entre muitas outras coisas, que Jesus não é apenas humano, nem apenas divino, mas antes verdadeiro, pleno, homem e verdadeiro, pleno, Deus. A concepção virginal revela que, na sua natureza divina, Jesus tem apenas Deus como pai. Quer dizer, revela que Jesus é o verdadeiro Filho de Deus, o filho natural de Deus. Claro que os baptizados também são filhos de Deus, todavia não por natureza, mas por graça: filhos adoptivos. Jesus, porém, é filho natural de Deus porque partilha da natureza divina do Pai. Ele é o Filho eterno de Deus, e a concepção virginal revela-nos isto: Ele tem apenas Deus como Pai, e por isso é plenamente divino. Todavia, a concepção virginal diz-nos igualmente que nasceu de uma mulher: de uma virgem. Assim, recebe também a natureza humana de Maria, sua mãe. Ele é naturalmente Filho de sua Mãe. Por outras palavras, Jesus é naturalmente Filho do Pai segundo a sua natureza divina e é naturalmente Filho de Maria segundo a sua natureza humana. “A natureza humana, que Ele assumiu, nunca O afastou do Pai [...]. Naturalmente Filho do seu Pai segundo a divindade, naturalmente Filho da sua Mãe segundo a humanidade, mas propriamente Filho de Deus nas suas duas naturezas.” (CIC 503)
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Bento XVI, Jesus de Nazaré: Prólogo – A Infância de Jesus, Princípia Editora, 2012, p.46.
Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 4th Sunday of Advent por Brant Pitre




