Solenidade da Epifania (Ano A)

Por: Padre Bernardo Aranha

Solenidade da Epifania (Ano A)

Primeira Leitura: Isaías 60:1-6
Salmo: Sl 71(72):2.7-8, 10-11, 12-13
Segunda Leitura: Efésios 3:2-3a.5-6
Evangelho: Mateus 2:1-12


Nada é deixado ao acaso nas grandes solenidades deste tempo de Natal. Nem a pobreza do presépio, nem a misteriosa magnificência que o cerca. Enquanto o Filho de Deus descansa nas palhinhas, os anjos manifestam a Sua glória aos pastores da casa de Israel e uma assombrosa estrela conduz do Oriente os misteriosos personagens que hoje vemos chegar a Belém! A solenidade da Epifania é a manifestação universal da realeza de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É a catolicidade do mistério da encarnação, anunciada no Antigo Testamento, a tomar forma na gruta da cidade de David!

Por todo o Antigo Testamento perpassa uma promessa de salvação universal, a qual, pelo povo de Israel e a sua eleição, se dirige a todos os homens. Deus é o criador de todas as coisas e o drama do pecado e da redenção diz respeito a toda a humanidade (Gn 3,15). E a leitura de Isaías da missa de hoje anuncia que as trevas que cobrem toda a terra e a escuridão dos povos serão dissipadas pela glória do Senhor, a cuja luz caminharão todas as nações.

A Abraão foi prometida uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu (Gn 15, 5). Seguindo São Paulo, é possível ver na estrela que guiou os magos o sinal desta descendência, vislumbrada na sua unidade, isto é, como sinal de Jesus Cristo, rei de Israel, princípio de salvação para uma multidão de irmãos na fé. «A escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou de antemão a Abraão: em ti serão abençoadas todas as nações.» (Gal 3, 9) E, mais adiante, continua o Apóstolo, «…as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: aos descendentes, como se falasse de muitos, mas de um só: E à tua descendência, que é Cristo.» (Gal 3, 15) E até o adivinho Balaão, que o rei de Moab conjurou a maldizer Israel, não pode deixar de bendizer o povo de Deus e de anunciar: «Eu vejo, mas não para já; contemplo-o mas ainda não está próximo: uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel.» (Nm 24, 17) Uma estrela no céu manifesta a unidade, em Cristo, da inumerável descendência prometida a Abraão.

O povo de Israel reconhece na sua eleição uma vocação universal. Daí que a vinda do Salvador fosse um apelo a todos os homens. São Mateus, que escreve o seu evangelho para a comunidade judaica, quer lembrar aos seus leitores dessa profunda verdade no episódio dos magos do Oriente que seguem a estrela.

São João Crisóstomo nega que a estrela de que fala Mateus seja um verdadeiro astro celeste, uma vez que só um ser pessoal poderia percorrer a órbita da estrela que conduziu os magos, ao ponto de baixar para indicar o lugar preciso onde nasceu o Salvador. «Parece, pois, que esta estrela era um poder invisível transformado na aparência de uma estrela.» (hom 6 in Matt).

São Leão Magno, num sermão sobre a Epifania, diz que se trata de um astro verdadeiro. «Apareceu aos três magos, na região do Oriente, uma estrela de uma nova claridade, mais brilhante e formosa do que os outros astros, que atraía os olhos e os corações dos que a olhavam, para que compreendessem imediatamente que não carecia de significação o que parecia tão insólito.» (Serm 31).

Seja como for, a natureza exacta do fenómeno visto pelos magos escapa-nos. Seria a conjunção de Júpiter e de Saturno, que de vinte em vinte anos se dá, e que terá ocorrido no ano 7 a.C.? Não o sabemos. Sabemos apenas que uns magos do Oriente viram neste sinal celeste o anúncio do nascimento do Messias-rei e se puseram a caminho.

No Evangelho da missa, retirado do segundo capítulo de São Mateus, conta-se que: «Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.» (Mt 2,1) «Os magos são as primícias dos pagãos a crerem em Cristo. Neles apareceram, numa espécie de presságio, a fé e a devoção dos pagãos vindos a Cristo de lugares remotos.» (Tomás de Aquino, S.th, III, q. 38, resp). Aos pés do menino, «todos se reúnem e vêm ao teu encontro» (Is 60, 4), como anunciara o profeta Isaías na primeira leitura.

O mistério envolve com a sua luz todas as dimensões deste episódio, os magos e a sua identidade, a estrela e o seu inusitado caminho. Quem são os magos, que a tradição cristã identificará como reis? São pagãos que não pertencem ao povo eleito e ignoram as escrituras e, no entanto, perscrutam a natureza e os seus segredos. Representam a sabedoria humana, inquieta diante do mistério da realidade, em busca de um sentido, sedenta de verdade. Com eles chega ao presépio a íntima disposição sapiencial e religiosa da natureza humana, cujo dinamismo não se detém nos imanentes limites deste mundo e procura o criador de todas as coisas, a fonte de todo o ser e bondade que vê na natureza. Na estrela do Oriente, souberam ver um sinal que os pôs a caminho. É como se esta estrela particular lhes manifestasse a raiz transcendente e unitária do multiforme espectáculo da criação, o rei de Israel. Neles se revela a dignidade da sabedoria humana e do sentido religioso, que atira o homem para lá dos seus limites e o leva a procurar Aquele que deve adorar.

A rica literatura sapiencial que a Sagrada Escritura contém caminha para Jerusalém sentada em «camelos (…) de Madiã e de Efá. Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando as glórias do Senhor» (Is 60, 6), anuncia o profeta Isaías na liturgia hodierna.

Seguindo a misteriosa estrela, os Magos (literalmente, os sábios) chegaram a Jerusalém, «nos dias do rei Herodes» (Mt 2,1), anunciando o nascimento do rei dos judeus. Diz o evangelista que Herodes e toda a cidade de Jerusalém se perturbaram ao ouvir tal notícia. Compreende-se bem a perturbação de Herodes, rei fantoche ao serviço dos romanos, um idumeu, um estrangeiro, cuja realeza não passava de um artifício humano para serenar uma província ocupada do vasto império romano. O nascimento do Messias, do verdadeiro rei, não podia deixar de perturbar semelhante personagem, cuja violência e apego ao poder o levara já a matar três dos seus filhos, ameaças eventuais ao seu frágil trono. Consultados os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo (Mt 2, 4), Herodes e os magos ficam a saber que, segundo fora profetizado pelo profeta Miqueias, é em Belém de Judá, cidade de David, que deve nascer aquele que as escrituras anunciam. Acontece, então, aquilo que mais tarde o velho Simeão dirá à Virgem Maria a propósito do menino que acaba de nascer: «Ele é sinal de divisão entre os homens, para revelar os pensamentos escondidos de muitos.» (Lc 2,34-35) O propósito homicida do rei idumeu, que o levará a ordenar a matança das crianças inocentes, por um lado. Por outro, a humilde sabedoria dos magos do Oriente. Toda a sua investigação os leva a procurar a Verdade revelada nas Escrituras de Israel. O caminho da verdadeira sabedoria humana, que sabe ler o livro da criação como manifestação do Criador, leva os verdadeiros sábios a abrirem-se à revelação de Deus. A Verdade não se encontra no fim de um itinerário meramente humano, mas na abertura do homem que procura genuinamente o dom de Deus que se revela. Também isto se aprende na solenidade que hoje celebramos. A Verdade é o Ser que se oferece àqueles que o procuram, aos homens de boa vontade de todos os povos, tribos e raças.

É, por isso, triste a perturbação da cidade de Jerusalém diante da nova do nascimento do Messias. Herodes planeia homicídios, enquanto os príncipes dos sacerdotes e os escribas ficam imóveis na sua preguiça e desinteresse (São João Crisóstomo, homília 6 do comentário a Mateus). O conhecimento das Escrituras não os move a caminhar ao encontro d’Aquele que elas revelam e que nelas se oferece. Os magos, por sua vez, «ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino» (Mt 2, 9). Ensinados pelas Escrituras, que por tão indignos ministros lhes foram abertas, seguiram pelo caminho da fé, confirmado pela estrela. O contraste não podia ser maior. A fé sepultada num coração duro, não vence o imobilismo irrazoável dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas. A razão indagadora, aberta à revelação e à fé, conduz ao encontro pessoal com a Verdade, com o Menino deitado na manjedoura. É como diz São Paulo na leitura da Epístola aos Efésios, na segunda leitura da missa. O Evangelho, que anuncia Cristo Jesus, torna os gentios herdeiros da mesma promessa dos judeus, membros do mesmo corpo, a Igreja (Ef 3, 5-6). Gentios e judeus encontram-se unidos pela fé em Cristo, no presépio de Belém, cada qual seguindo o seu caminho. Os pastores, a voz dos anjos; os sábios do Oriente, a razão aberta ao mistério escrito no céu, manifestado por uma estrela e desvendado pela Escritura Sagrada.

O momento maior do itinerário dos magos dá-se, porém, quando chegam ao presépio. «Entraram na casa, viram o menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se (proskynesis) diante d’Ele, adoraram-no» (Mt 2,11). Nada poderia ser mais surpreendente. Diante da pobreza que envolve o Rei que buscavam, os magos, que a tradição, inspirada no salmo 71, identifica com os «reis de Társis e das ilhas (…) da Arábia e de Sabá», não retrocedem. A aparência modesta do Salvador não engana os reis magos, como faria a qualquer viajante superficial e mundano. Agora sabemos que estes magos eram, na verdade, sábios, dóceis penetradores do mistério da realidade. Reconhecer o filho de Deus encarnado na pobreza deste mundo, ao qual ofereceram ouro, incenso e mirra, como rei, Deus e homem, é a prova da sua sabedoria cheia de fé.

Subscreva a nossa Newsletter:

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp