
Primeira leitura: Dt 8, 2-3.14b-16a
Salmo: Sl 147, 12-13.14-15.19-20
Segunda leitura: 1Cor 10, 16-17
Evangelho: Jo 6, 51-58
Na quinta-feira a seguir ao Domingo da Santíssima Trindade – isto é, 60 dias depois da Páscoa –, celebramos a solenidade do santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, abreviada, no costume português, como solenidade do «Corpo de Deus». Neste dia de preceito, a Igreja celebra o maior tesouro confiado à sua custódia e adoração: o próprio Senhor, oferecido e presente em forma sacramental.
Esta festa, surgida nos inícios do segundo milénio, caracteriza-se pelas procissões que por toda a parte se fazem, segundo a recomendação da Igreja que lemos, por exemplo, no Código de Direito Canónico: «Onde, a juízo do Bispo diocesano, for possível, para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia faça-se uma procissão pelas vias públicas, sobretudo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo.» (cân. 944 §1). O desejo da Igreja é, pois, recordar aos fiéis e manifestar publicamente neste dia a sua fé na Eucaristia, segundo a qual, depois de consagrados na Missa, o pão e o vinho já não o são realmente, mas apenas em aparência; são agora o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus – em suma, Jesus vivo e ressuscitado, de modo total e substancial, ainda que oculto sob as espécies sacramentais do pão e do vinho.
Vamos considerar biblicamente este mistério tomando como ponto de partida o Evangelho que nos é apresentado neste dia: retirado de João 6, o capítulo que nos traz o longo «discurso do pão da vida». Dele podemos concluir várias ideias úteis à nossa reflexão, que numeramos para as destacar mais facilmente; diz Jesus:
(1) Eu sou o pão vivo descido do Céu. (2) Quem comer deste pão viverá eternamente. (3) E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne, que Eu darei pela vida do mundo. […] (4) Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. A minha Carne é verdadeira comida e o meu Sangue é verdadeira bebida. (5) Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. (6) Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram; quem comer deste pão viverá eternamente.
Elencando de outro modo, podemos dizer que o Senhor nos ensina:
- Que Ele é um pão vivo vindo do Céu;
- Que o pão que Ele é deve ser comido e assim dar a vida eterna a quem o come;
- Que o pão que Ele é e dá a comer é, afinal, a sua carne;
- Que a sua carne é verdadeira comida, como também o seu sangue é verdadeira bebida, e que trazem a vida [eterna] e a ressurreição a quem deles come e bebe;
- Que comer da sua carne e beber do seu sangue gera comunhão com Ele («permanece em Mim e Eu nele»), fazendo receber a sua vida como Ele a recebe do Pai;
- Que este pão descido do céu se distingue do pão comido pelos pais, os quais morreram, enquanto o que come deste pão viverá eternamente.
Ao longo do nosso artigo, aludiremos às conclusões listadas segundo a numeração que apresentamos.
Comecemos a nossa pesquisa bíblica pela «ponta solta» que salta imediatamente à vista: (6) a que se refere Jesus quando Se compara ao pão que os pais dos seus interlocutores comeram? O livro do Deuteronómio responde, com as palavras que Moisés dirigia ao povo na primeira leitura:
Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto […]. Atribulou-te e fez-te passar fome, mas deu-te a comer o maná que não conhecias nem teus pais haviam conhecido, para te fazer compreender que o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor.
Moisés refere-se ao maná, de que se fala pela primeira vez na Escritura em Êxodo 16, quando os filhos de Israel, sob a camada de orvalho da manhã, encontraram certo dia «uma substância fina e granulosa, fina como a geada sobre a terra» (v. 14). Atónitos, os israelitas perguntaram a Moisés «man hû’?», literalmente, «o que é isto?», explicação para o nome «maná» dado àquele alimento, «pão que o Senhor deu a comer» (cf. v. 15). Este alimento surgia cada manhã nos anos do caminho no deserto, estritamente recolhido na dose suficiente para cada dia, com exceção da sexta-feira, em que a dose era dupla para que não fosse necessário recolhê-lo ao sábado e se pudesse observar o repouso próprio da índole deste dia (cf. v. 29).
É curioso que Moisés se refira a este pão como desconhecido até então, sublinhando a sua origem sobrenatural; por outro lado, explica que este pão faz compreender que o homem «não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor.» Esta última nota reforça o significado espiritual deste alimento; podemos recebê-la à luz do salmo da Missa, e assim compreender que Jesus Se diga (1) pão vivo descido do Céu: «[O Senhor] Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras // e saciou-te com a flor da farinha. // Envia à terra a sua palavra, // corre veloz a sua mensagem.» Em Cristo, Palavra encarnada de Deus, se cumpre perfeitamente este significado: Ele, «pão vivo descido do Céu», é também a palavra enviada à terra pelo Pai, e por isso alimento mais fundamental dos homens. Ele vem do céu, como o maná, que o Senhor «faz chover do céu» (cf. Ex 16, 4; Sl 78/77, 23-25; etc).
A tipologia do maná ainda nos oferece uma leitura anagógica que não é desprezível: este alimento foi dado durante a caminhada no deserto e cessou à chegada à Terra prometida; o próprio sabor do maná, «como bolo de mel» (Ex 16, 31), era como um antegosto da Terra prometida, «terra que mana leite e mel» (Ex 3, 8). Mas, como é próprio das tipologias veterotestamentárias, nada disso é mais do que uma «sombra» da realidade do Novo Testamento (cf. Col 2, 17; Heb 10, 1) – se o maná vinha do céu significando a palavra divina, Jesus é a Palavra em Pessoa, descido à terra na encarnação (cf. Jo 1, 14); se o maná sustentava até à Terra prometida, o pão que é Jesus sustenta até à Terra definitiva da promessa, a vida eterna: «quem comer deste pão viverá eternamente» [(2) e (6)]. Ademais, explicitando a relação entre a sua Pessoa e o maná, Jesus propõe-Se deliberadamente como resposta à expectativa então presente no povo judeu, segundo a qual o Messias havia de trazer novamente o maná. Veja-se, a título de exemplo, o apócrifo 2Baruc 29, 3, 6-8:
E há de acontecer que, quando se realizar tudo quanto está previsto ocorrer nestas partes, o Messias começará a revelar-se. […] E os que têm fome poderão festejar e verão maravilhas todos os dias. […] Nesse tempo, o tesouro do maná voltará a cair do alto, e eles comerão dele nesses dias, porque alcançaram a consumação do tempo.
Exclui-se, por isso, uma explicação meramente simbólica do novo maná. Se a sobrenaturalidade do antigo maná é tão clara na perceção judaica, não cabe que o novo maná o seja menos, como um simples elemento natural. Avançamos, assim, para os pontos (3) e (4) da nossa lista. O pão é, na verdade, a carne [e o sangue] do próprio Jesus, verdadeira comida [e bebida].
É incontornável a associação do discurso do pão da vida com o gesto de Jesus na sua Última Ceia. Paulo reporta-nos assim esse acontecimento:
Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus na noite em que era entregue, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de Mim.” Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes em memória de Mim.” Portanto, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha. (1Cor 11, 23-26).
A interseção de todos estes textos – discurso do pão da vida, instituição da Eucaristia e episódio do maná no deserto – levam-nos a concluir que há um real alimento que deve ser comido, que é sobrenatural, que é identificado com a carne (ou o corpo) e o sangue do próprio Jesus, nas formas de pão e vinho. Se a Eucaristia fosse apenas pão e vinho, o tipo (o maná do AT) seria, em certo sentido, mais prodigioso que o antítipo (o novo maná da Eucaristia), o que é absurdo. Compreende-se a reação escandalizada dos judeus («como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?»), como também a severidade de Paulo sobre a importância desta doutrina na consciência cristã: «Aquele que come e bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação» (1Cor 11, 29).
A necessidade de comer a carne e beber o sangue levantam outros ecos bíblicos, que não devem passar despercebidos ao leitor.
O facto de Jesus nos mandar comer a sua carne e o tornar possível quando, celebrando a Páscoa judaica, institui o gesto eucarístico – anunciando a sua própria morte, como Ele indica e Paulo explicita em 1Cor 11, 26 –, tem uma leitura evidente: Ele põe-Se no lugar da carne dos cordeiros que, nesta festa judaica, necessariamente deviam ser sacrificados e comidos, segundo o preceito de Êxodo 12. A cruz do Senhor – o seu sacrifício – não pode ser desligada da Eucaristia – sacrifício tornado alimento. Essa é a estrutura da Páscoa: a celebração do sacrifício de Cristo tem de coincidir com a possibilidade de comer a sua carne, fazendo-nos participantes da sua redenção. Este é o antítipo a que corresponde, como tipo, o episódio dos cordeiros da Páscoa judaica: no livro do Êxodo, as famílias judias que se alimentaram do cordeiro foram salvas do extermínio, ao passo que as famílias egípcias foram visitadas pela morte, como se lê em Ex 12.
Há, todavia, uma diferença com que se releva a superioridade da Páscoa de Jesus Cristo. Os judeus apenas comiam a carne, usando o sangue para assinalar as portas das suas casas. Mas o sangue não podia ser consumido: tal violaria a lei estabelecida pelo Senhor. Lemos, por exemplo, em Lv 17, 10-12:
Se qualquer homem da casa de Israel, ou qualquer estrangeiro residente no meio deles, comer qualquer espécie de sangue, voltar-Me-ei contra esse que come sangue e eliminá-lo-ei do seu povo. Porque o sangue é a vida do corpo, Eu vo-lo concedo a fim de vos servir de purificação sobre o altar, pois o sangue é que faz a expiação porque é vida. Por isso, disse aos filhos de Israel: Nenhum de vós comerá sangue, e o estrangeiro residente no meio de vós também não comerá sangue.
Se Jesus manda beber o seu sangue, fá-lo precisamente pela razão por que tal era proibido aos judeus: o sangue é a vida do corpo. Beber o sangue recorda-nos que a Eucaristia é um alimento vivo; e assim, segundo a promessa de Jesus, (4) temos a vida eterna e a ressurreição comendo da sua carne e bebendo do seu sangue, verdadeiramente comida e bebida. Ainda que celebrando o sacrifício do Senhor e anunciando a sua morte, recebemo-Lo vivo e acolhemos a sua vida em nós.
Este último aspeto ajuda-nos a admirar quão poderosa é a quinta afirmação da nossa lista: (5) comendo e bebendo este alimento e bebida, permanecemos em Cristo e Ele em nós. Gera-se uma comunhão. É de tal modo extraordinária esta consequência que a palavra «comunhão» se tornou antonomásia do sacramento da Eucaristia. A comunhão que o Pai e o Filho têm entre Si torna-se modelo da comunhão que temos com Cristo pela Eucaristia e, por isso também, uns com os outros; e assim se cumpre, de modo singular, o que Jesus pedia ao Pai na sua oração sacerdotal: «para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós» (Jo 17, 21). Esta síntese da comunhão que, pela Eucaristia, temos com Cristo e uns com os outros, já Paulo a fazia de modo preclaro: «O cálice de bênção, que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão» (1Cor 10, 16-17).
Neste dia do santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, caro leitor, demo-nos conta da grandeza da Eucaristia, como presença real e alimento divino dados por Cristo à nossa fé, e como apelo à comunhão. À luz das extraordinárias prefigurações do Antigo Testamento – e muitas ficaram ainda por referir! –, maravilhemo-nos com tudo aquilo que Jesus nos dá nas simplicíssimas espécies do pão e do vinho. E correspondamos de todo o coração ao convite que a Igreja nos faz no invitatório do Ofício divino deste dia: «Vinde, adoremos o Pão da vida: Cristo Senhor!»
Este artigo teve como fonte principal o livro Jesus e as raízes judaicas da Eucaristia – Que segredos encerra a Última Ceia? de Brant Pitre.




