XV Domingo do Tempo Comum (Ano A). A Semente da Meditação

Por: Miguel Simões

Primeira leitura: Is 55, 10-11

Salmo: 64 (65), 10abcd, 10e-11, 12-13, 14

Segunda leitura: Rm 8, 18-23

Evangelho: Mt 13, 1-23

/A parábola.

Neste Domingo ouvimos uma das mais célebres passagens do Evangelho: a parábola do semeador. Tendo em conta a extensão da mesma, analisemo-la pausadamente.

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar. Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem. Disse muitas coisas em parábolas […]

Um primeiro aspecto que importa destacar, que não diz respeito exclusivamente a esta passagem, tem que ver com o termo parábola. Parábola vem do grego parabolē, termo que, na Septuaginta, serviu muitas vezes para verter o hebraico mashal. Este não designa apenas a parábola no sentido restrito que hoje lhe damos, mas uma forma breve e figurada de sabedoria: provérbio, comparação, sentença, dito exemplar ou enigmático. Ou seja, as parábolas de Jesus não são apenas histórias que comparam duas coisas, mas antes e fundamentalmente uma espécie de enigma que oculta uma verdade existencial. Neste sentido, é algo comum nas parábolas de Jesus verificarmos uma reviravolta, algo inusitado e inesperado, onde muitas vezes encontramos o significado mais profundo da mesma.

/O pior semeador de Israel e arredores.

«Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram, porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um. Quem tem ouvidos, oiça». 

A maior parte de nós já ouviu – e meditou – dezenas de vezes esta parábola. O que é bom, mas por outro lado cria uma certa familiaridade com o texto, que o domestica e potencia um olhar míope sobre o mesmo. Por isso, vale a pena pensar em como reagiria um contemporâneo de Jesus ao ouvi-la pela primeira vez. Jesus diz: «Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas.» Logo aqui encontramos um primeiro elemento inesperado, pois qualquer judeu estaria à espera de que um semeador – que depende da sua colheita para sobreviver – fosse cuidadoso o suficiente com as sementes que comprara. O que está aqui a ser descrito, então, é um semeador que, ao que parece, é um tudo ou nada desastrado. Esta é a primeira reviravolta: um semeador que não sabe o que está a fazer.

De facto, Jesus continua e diz-nos que «Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra […]. Outras caíram entre espinhos […].» Não é preciso ser perito em agricultura – muito menos numa época e comunidade agrária – para saber que nada irá crescer e dar fruto em solos pedregosos, nem entre espinhos, que são como ervas daninhas para um jardim. Este deve ser o pior semeador que Israel já viu. Assim, os judeus deveriam estar a perguntar-se entre si «quem é este semeador louco e o que é que ele tem que ver com o reino de Deus?»

No entanto, o semeador lá acerta: «Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.» Sabemos, historicamente, que à época dez por um seria uma colheita acima da média. Portanto, como assim Jesus relata colheitas de trinta, sessenta e cem por um?! Isto seriam colheitas super abundantes: milagrosas! Mais ainda tendo em conta que o semeador parece ser um completo zero à esquerda no seu ofício. Contudo, quando semeia num solo propício, as suas sementes originam colheitas excepcionais. Quem tem ouvidos, oiça. Está claro que estamos perante um enigma.

/Porquê parábolas?

Os próprios discípulos não compreendem porque é que Jesus ensina em parábolas:

Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Porque lhes falas em parábolas?»

Normalmente, diz-se que Jesus usa parábolas a fim de se tornar inteligível para todos. Não como um teórico intelectual, mas com situações do dia-a-dia que todos conhecem: semeadores, pescadores, etc. E pode muito bem ser assim. Todavia, Jesus responde:

 «Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus, mas a eles não. Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas, porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender. Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz: “Ouvindo ouvireis, mas sem compreender; olhando olhareis, mas sem ver. Porque o coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para não acontecer que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos e compreendendo com o coração, se convertam e Eu os cure”. 

Ou seja, Jesus diz que a razão pela qual prega em parábolas é precisamente para ocultar os segredos do reino de Deus aos endurecidos de coração, que vendo não vêem e ouvindo não ouvem. Assim, as parábolas assumem uma função paradoxal, pois revelam os mistérios de Deus aos discípulos e ocultam-nos aos corações empedernidos. Novamente: as parábolas não são meras histórias, passíveis de compreensão por qualquer um, mas antes mistérios, enigmas, que só se compreendem com a graça de Deus, um coração aberto: por quem tem ouvidos.

Tal como Jesus, também o profeta Isaías – que Jesus aqui cita –, que pregava no séc. VIII, uma época especialmente rebelde e corrupta do povo israelita, recorria a parábolas e alegorias para os condenar de forma indirecta. Mas Jesus diz:

Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem! Em verdade vos digo: muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.

Quer dizer, foi concedida uma graça especial aos discípulos para ouvir e compreender. Mas, como bem sabemos, tal não significa que estes não sejam, por vezes e tal como nós, lentos de compreensão, de modo que Jesus, para além da parábola, também oferece a explicação:

Escutai, então, o que significa a parábola do semeador: Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».

Assim, percebemos então que o semeador afinal não é um desastrado, mas o próprio Jesus, que semeia a Palavra de Deus em todo o tipo de solo. Um semeador generoso e gratuito com as suas sementes. Jesus não prega apenas àqueles mais propícios a ouvir, compreender e dar fruto, mas a todos.

Tal como todas as parábolas e alegorias, também esta serve como modelo fecundo de exame de consciência. Vale a pena pararmos para rezarmos e pensarmos: «Que tipo de solo sou eu? Como é que tenho respondido aos apelos de Jesus?» Importa não descartarmos rapidamente a pergunta na certeza tentadora de que somos o solo bom. Na verdade, se formos honestos, devemos conseguir identificarmo-nos com cada um dos solos em diferentes momentos da nossa vida. Não somos sempre o mesmo solo. Não é uma decisão vitalícia que tomamos num determinado momento, mas, pelo contrário, uma decisão que tem de ser actualizada todos os dias, continuamente. Por isso, é fundamental um exame de consciência sincero, que não se deixe levar por uma narrativa complacente e autojustificativa, como é nossa tendência, mas antes que olhemos para as nossas acções e para os frutos que temos gerado. As respostas à pregação do Evangelho são as mesmas do tempo de Jesus: posso ouvir e compreender, posso ouvir e sucumbir perante sofrimentos e dificuldades, posso ouvir e deixar-me seduzir pelas coisas mundanas ou sufocar pela ansiedade com as coisas deste mundo. Posso não ouvir de todo.

Esta é a grande vantagem da parábola e alegoria que, por serem uma forma de comunicação indirecta, retrasam a compreensão rápida e superficial, bem como o mecanismo de defesa que se activa quando sou directamente acusado, que nem me permite compreender e identificar com a acusação. Assim, como apela ao enigma e ao exame de consciência, o trabalho fica do lado do discípulo ou do condenado. É ele quem tem de compreender e ver-se a si mesmo. No entanto, é preciso honestidade, um coração aberto e disponível para receber o reflexo, por mais horrível que seja, de si mesmo e, em vez de desesperar perante tal reflexo, avançar e passar para o decisivo: deixar-se transformar num outro tipo de solo. (1)

/Primeira leitura e salmo

Na primeira leitura deparamo-nos precisamente com a mesma imagem que Jesus utiliza na parábola do semeador: a palavra de Deus como semente. Diz assim:

Eis o que diz o Senhor: «Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».

Também o salmo segue o tema da fecundidade da terra:

Refrão: A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.

Visitastes a terra e a regastes,

enchendo-a de fertilidade.

As fontes do céu transbordam em água

e fazeis brotar o trigo.

Assim preparais a terra;

regais os seus sulcos e aplanais as leivas,

Vós a inundais de chuva

e abençoais as sementes.

Coroastes o ano com os vossos benefícios,

por onde passastes brotou a abundância.

Vicejam as pastagens do deserto

e os outeiros vestem-se de festa.

Os prados cobrem-se de rebanhos

e os vales enchem-se de trigo.

Tudo canta e grita de alegria.

Vale a pena relembrarmo-nos de que ter comida nem sempre implicou ir ao supermercado às compras. Para um judeu do tempo de Jesus, e qualquer sociedade agrária, a chuva é ocasião de enorme alegria, pois significa que haverá comida para alimentar as famílias. Do mesmo modo, a época da colheita é uma época de felicidade, dado que se assegura a sobrevivência para o próximo Inverno ou Verão. E tudo isto era visto como dádiva de Deus. Percebemos então o tom «melodramático» do salmo.

/Antídoto à infertilidade.

Por fim, vale a pena citar o ponto 2707 do Catecismo da Igreja Católica, que faz referência à parábola deste Domingo, e que surge na Parte IV («A Oração Cristã»), mais concretamente quando fala nas várias expressões da oração (oração vocal, meditação e contemplação):

Um cristão deve querer meditar com regularidade; doutro modo, torna-se semelhante aos três primeiros terrenos da parábola do semeador.

A Igreja diz-nos que devemos querer meditar com regularidade (2), especialmente na Sagrada Escritura. Caso contrário, tornar-nos-emos em solos infrutíferos. É deste desejo, aliás, que nasce o próprio projecto Saboreai e Vede. Portanto, se ao confrontarmo-nos com a parábola do semeador damos por nós a reconhecermo-nos como terreno infértil, a Igreja recomenda-nos reavivar a nossa meditação. Não apenas oração vocal, mas essencialmente tempo para ponderar a palavra de Deus, procurar compreendê-la na sua plenitude, fazendo sentido da mesma no seu contexto histórico e na minha vida, pois «aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende.»

Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 15th Sunday Ordinary time, de Brant Pitre.

(1) Sobre a Sagrada Escritura como espelho, cf. KIERKEGAARD’S JOURNALS and NOTEBOOKS, Volume 8, Princeton University Press, 2015, pp. 342-343.

(2) Sobre a meditação, vale a pena ler os pontos do CIC 2705-2708, que apesar de sucintos são de grande importância para a vida quotidiana de qualquer cristão.

Subscreva a nossa Newsletter:

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp