XIV Domingo do Tempo Comum (Ano A). A Sabedoria do Evangelho

Por: Francisca Corrêa Henriques e Teresa Alves

Primeira Leitura: Zacarias 9, 9-10
Salmo: 145 (144), 1-2.8-11.13-14
Segunda Leitura: Romanos 8, 9.11-13
Evangelho: Mateus 11, 25-30

 

O Mistério Revelado aos Pequeninos

A narrativa do Evangelho Segundo São Mateus situa-nos após a passagem de Jesus pelas cidades galileias de Corazim, Betsaida e Cafarnaum. Nesse «triângulo evangélico», realizara poderosas obras e anunciara a boa nova da chegada do Reino de Deus.

Contudo, aquelas comunidades acolheram a proposta de salvação com indiferença e rejeição. A advertência de Jesus surge, por isso, severa: se tais milagres tivessem ocorrido em terras pagãs como Sodoma, Gomorra, Tiro ou Sídon – historicamente associadas ao pecado –, os seus habitantes ter-se-iam convertido há muito, em sincera penitência.

É precisamente neste contexto de incompreensão que brota o paradoxo: Jesus não desespera nem se retira em frustração. Pelo contrário, eleva ao Pai uma oração de acção de graças:

Naquele tempo, Jesus exclamou:

«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,

porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes

e as revelaste aos pequeninos.

Sim, Pai, Eu Te bendigo,

porque assim foi do teu agrado.

Tudo Me foi dado por meu Pai.

Ninguém conhece o Filho senão o Pai

e ninguém conhece o Pai senão o Filho

e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Vinde a Mim,

todos os que andais cansados e oprimidos,

e Eu vos aliviarei.

Tomai sobre vós o meu jugo

e aprendei de Mim,

que sou manso e humilde de coração,

e encontrareis descanso para as vossas almas.

Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

Jesus viveu uma relação com Deus caracterizada pela obediência, pela fidelidade e pela oração. A oração é o seu lugar de encontro com o Pai. Rezou ao longo de toda a sua vida, fosse a sós, retirado em lugares desertos ou durante a noite. Esta passagem trata-se de uma ocorrência excepcional nos Evangelhos, onde podemos espreitar a intimidade orante de Cristo (1). Ao contrário do Pai Nosso, que é uma instrução para os discípulos, aqui Jesus fala directamente com o Pai. Bendiz o Senhor do céu e da terra porque a verdade foi escondida aos «sábios e inteligentes» e revelada aos «pequeninos».

Sublinhe-se que a sapiência ou erudição em si mesmas não estão aqui em causa. Neste contexto, os alvos de Jesus são aqueles que se encontram fechados na sua autossuficiência intelectiva, como era o caso dos fariseus e dos doutores da lei, que, cegos pelo orgulho, ao invés de se firmarem em Deus, faziam-no sobre as suas próprias capacidades. Por cumprirem escrupulosamente a Lei, consideravam-se justos e com direito automático à salvação. Instalados neste falso conforto, limitavam-se.

Em contrapartida, os «pequeninos» são os discípulos (cf. Mt 10, 42). Aqueles que mantêm a humildade de uma criança tornam-se receptores da revelação. Nesta categoria, inserem-se também todos aqueles que, por não terem condições de cumprir a Lei, eram marginalizados; considerados em estado de impureza. Seja devido à pobreza em que viviam, às doenças e até aos que não respeitando a dignidade inerente a todo o ser humano se encontravam afastados de Deus, em condição de pecado. Os pequeninos são todos aqueles que independentemente da sua condição existencial acolhem em humildade a proposta de libertação e salvação que Jesus lhes traz.

 

A Divindade de Cristo e o Mistério Estrito da Trindade

Tudo me foi dado por meu Pai.

Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
(Mt 11, 27)

Esta sentença constitui um dos pilares fundamentais da Cristologia dos Evangelhos Sinópticos (2), e devido à sua semelhança com as afirmações de Jesus no Evangelho Segundo São João foi cunhada como «meteorito caído do firmamento joanico» (3).

Tudo me foi dado por meu Pai

Antes de mais, Jesus fundamenta a origem da sua autoridade. O poder das Suas obras e a força das Suas palavras derivam de uma mesma fonte: Deus, o Pai, de quem Jesus é o Filho enviado omnipotente. Foi Ele quem lhe deu a autoridade.

Ninguém conhece o Filho senão o Pai

Para alcançar o conhecimento de Deus, torna-se imperativo seguir Jesus porque apenas Ele é o Filho. Enfatize-se a força desta declaração Jesus é o Filho; não enunciamos que é um filho, ou que é como um filho. Longe de ser uma semelhança ou uma metáfora, a identidade de Jesus transcende qualquer comparação. Ele não se assemelha a um filho; Ele é, de forma absoluta, o Filho divino de Deus, o Filho eterno do Pai, Filho preexistente com o Pai.

E ninguém conhece o Pai senão o Filho

Visto que a revelação divina já era uma realidade na vivência de Israel, conforme documentado nas escrituras hebraicas e no Antigo Testamento, quando Jesus faz esta declaração, a mesma não parece verosímil. A tradição judaica já conhecia Deus como pai (e.g.: Dt 32,6: Deus é criador e pai do povo; Is 66,13: Deus consola como uma mãe), e esta imagem estava ligada à protecção, autoridade, bondade e misericórdia.

Mas a forma como Jesus compreende e anuncia a Deus como Pai é uma novidade; Enquanto muitos judeus da sua época preferiam chamar Deus de «Senhor», Jesus utiliza repetidamente “Pai” (em aramaico, Abbá). Não se trata apenas de um título religioso, mas de uma experiência de proximidade, confiança e compaixão.

«Conhecer o Pai» realiza-se por meio de uma verdadeira relação pessoal e profunda com Deus. Assim, o Filho conhece o Pai, do mesmo modo que Deus conhece as suas criaturas, um conhecimento total e perfeito. E entre o Filho e o Pai há um conhecimento mútuo exclusivo que transcende a esfera humana.

 

O jugo da mansidão e humildade

Jesus dirige um convite aos «cansados e oprimidos», prometendo-lhes o repouso diante das exigências e do peso dos seus próprios fardos. Contudo, a narrativa introduz-nos um paradoxo teológico: o alívio prometido não resulta da ausência de carga, mas sim da aceitação do «jugo» – uma pesada estrutura de madeira tradicionalmente utilizada para subjugar os bois ao arado.

O enigma proposto por Cristo reside no facto de que o acolhimento do Seu ensinamento e da Sua autoridade – o Seu «jugo» – contraria a lógica humana: longe de ser um peso opressivo, revela-se leve e suave.

Dando continuidade à mensagem do último Domingo, Jesus recorda-nos a exigência do Seu seguimento: «Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim» (Mt 10, 38). Ser discípulo implica aceitar o peso da madeira sobre os ombros. Afinal, a ressurreição só se alcança pela cruz. Só através da entrega da vida em doação de amor se experimenta a glória eterna.

Para além dos Seus ensinamentos, o próprio estilo de vida de Jesus assume um papel central, configurando-se como um convite à imitação em duas dimensões fundamentais: a mansidão e a humildade. Estas virtudes constituem o jugo que Cristo exorta a carregar, remetendo directamente para as Bem-aventuranças (Mt 5, 3-12), onde são declarados felizes os humildes ou «pobres em espírito» – herdeiros do Reino do Céu – e os mansos – que possuirão a Terra. Deste modo, a imitação da humildade e da mansidão de Jesus surge como condição indispensável para alcançar a verdadeira paz.

Esta passagem alude ao livro de Eclesiástico/Ben Sirá do Antigo Testamento, e em que a Sabedoria diz o seguinte:

colocai o vosso pescoço sob o seu jugo,

e que vossa alma receba a instrução.

Ela está por perto, ao vosso alcance.

Vede com os vossos próprios olhos: afadiguei-me um pouco,

mas encontrei tão grande descanso! (Sir 51, 26-27)

Deste modo, ao autoidentificar-se como a própria Sabedoria divina encarnada, Jesus transcende a figura de mestre. O seu convite exorta os crentes à imitação da sua humildade e mansidão, estabelecendo essa submissão espiritual como condição essencial para o verdadeiro descanso. Esta promessa não visa o alívio das fadigas físicas do corpo, mas oferece paz e repouso à dimensão profunda da alma. Configura-se, assim, como uma resposta espiritual eficaz diante dos fardos e ansiedades da vida.

Retornemos à palavra «jugo», normalmente puxado por uma junta de bois, dois animais. Há uma ajuda entre ambos para carregar o peso do jugo. Esta entreajuda manifestou-se historicamente quando Simão de Cirene aliviou o peso da cruz de Jesus a caminho do Calvário. Ao abraçarmos o jugo cristão da mansidão e da humildade, Jesus passa a caminhar lado a lado connosco, ajudando-nos a sustentar os nossos fardos e cruzes. O jugo torna-se suave precisamente porque é Cristo quem o carrega connosco.

Entre a profecia de Zacarias que lemos na primeira leitura e as palavras de Jesus, desenha-se uma admirável harmonia que a liturgia nos convida a contemplar. Em Zacarias lemos:

«Eis o que diz o Senhor:

Exulta de alegria, filha de Sião,

solta brados de júbilo, filha de Jerusalém.

Eis o teu rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro,

humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta.

Destruirá os carros de combate de Efraim

e os cavalos de guerra de Jerusalém;

e será quebrado o arco de guerra.

Anunciará a paz às nações:

o seu domínio irá de um mar ao outro mar

e do Rio até aos confins da terra.”»

O profeta anuncia a chegada de um rei muito singular: não um conquistador montado num cavalo de guerra, mas um rei humilde, montado num jumento. Enquanto os reis das nações manifestavam o seu poder através da força militar, este rei manifesta a sua autoridade através da mansidão. Por isso mesmo, o profeta acrescenta que Ele fará desaparecer os carros de combate e os cavalos de guerra, instaurando a paz até aos confins da terra.

No Evangelho, Jesus revela-se precisamente como esse rei prometido. Quando convida os discípulos a aprenderem d’Ele porque é «manso e humilde de coração», não está apenas a propor uma virtude moral; está a revelar a sua própria identidade messiânica. A humildade não é um simples traço do seu carácter, mas uma característica essencial do Rei anunciado por Zacarias. O Messias esperado por Israel não vem dominar pela força, mas conquistar os corações pelo amor; não impõe um jugo de escravidão, mas oferece um jugo que conduz à verdadeira liberdade.

Existe ainda um contraste significativo entre os «sábios e inteligentes» e os «pequeninos». Os primeiros esperavam frequentemente um Messias poderoso segundo os critérios humanos, capaz de restaurar politicamente Israel. Os segundos, porém, eram capazes de reconhecer a presença de Deus escondida na simplicidade de Jesus. A humildade do Messias exige a humildade do discípulo. Só os que se fazem pequenos conseguem acolher um Rei que escolhe a mansidão como caminho e a cruz como trono.

Assim, o Salmo responsorial funciona como uma ponte admirável entre a profecia e o seu cumprimento. O salmista proclama: «Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Rei». Aquele que Zacarias anuncia como rei humilde é reconhecido pelos discípulos como o verdadeiro Rei e Senhor. Contudo, o Salmo sublinha também as características fundamentais do seu reinado: «O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade»; «o Senhor ampara os que vacilam e levanta todos os abatidos». Estas expressões parecem antecipar as próprias palavras de Jesus: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei». O Deus cantado pelo salmista manifesta em Cristo a sua ternura para com os fracos, os cansados e os sobrecarregados.

Deste modo, as três leituras convergem numa única mensagem. Zacarias anuncia um Rei humilde e pacífico; o Salmo louva um Deus cheio de misericórdia que sustenta os seus filhos; e Jesus apresenta-Se como o cumprimento perfeito de ambas as promessas, o Filho que revela o Pai e o Rei que oferece descanso às almas.

Num mundo que continua a identificar a grandeza com o poder, o sucesso e a auto-suficiência, a liturgia recorda-nos que a verdadeira sabedoria encontra-se na humildade. É aos pequeninos que o mistério é revelado; é aos cansados que o descanso é oferecido; é aos mansos que pertence o Reino. O caminho de Cristo continua a ser o mesmo: tornar-se pequeno para acolher o Deus que Se fez humilde e aprender a carregar com Ele um jugo que, pela força da graça, se transforma em paz para a alma.

Notas:

(1) Os momentos de oração de Jesus nos evangelhos: a oração de acção de graças (Mt 11, 25 ‖ Lc 10,21); a oração do Getsêmani (Mc 14,36 ‖ Mt 26,39.42 ‖ Lc 22,42); a oração sacerdotal (Jo 17, 1-26).

(2) «Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são designados como Evangelhos Sinópticos porque incluem muitas das mesmas narrativas, frequentemente numa sequência semelhante e com uma linguagem parecida ou, por vezes, idêntica. O termo sinóptico deriva do grego synopsis, que significa «ver conjuntamente» ou «adoptar uma perspectiva comum», reflectindo o facto de estes três livros poderem ser dispostos em colunas paralelas e lidos em simultâneo.» De F. L. Cross e E. A. Livingstone, eds., The Oxford Dictionary of the Christian Church, 3.ª ed. rev. (Oxford: Oxford University Press, 2005), s.v. "Synoptic Gospels."

(3) A célebre expressão foi cunhada pelo teólogo alemão Karl Theodor Keim, na sua obra Geschichte Jesu von Nazara (1867), para ilustrar a singularidade deste versículo no contexto dos Evangelhos Sinópticos.

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