
XIII Domingo do Tempo Comum (Ano A). «Quem vos recebe, a Mim recebe»
Primeira leitura: 2 Rs 4, 8-11, 14-16a
Salmo: 88 (89), 2-3, 16-17, 18-19
Segunda Leitura: Rm 6, 3-4. 8-11
Evangelho: Mt 10, 37-42
i. A hospitalidade
A unidade textual das leituras deste Domingo aponta para a generosidade de Deus, que recompensa abundantemente aqueles que auxiliam os Seus servos. Esta generosidade assenta na hospitalidade, uma das obras de misericórdia, pelas quais, como afirma o Catecismo no ponto 2447, «vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais». Enquanto acção de amor a Deus e ao próximo, central e vital a todo o baptizado, a hospitalidade tem como grande modelo bíblico o Patriarca Abraão, como se afirma na Carta aos Hebreus: «Não vos esqueçais da hospitalidade, pois foi graças a ela que alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.» (Hb 13, 2)
Pela hospitalidade, o próprio crente disponibiliza-se não só ao serviço do Bom Deus na pessoa do próximo com quem se cruza, mas ao verdadeiro sintonizar do seu coração «com a compaixão do seu Senhor pelos homens [ousando] interceder por eles com uma confiança audaciosa» (1). Uma autêntica audácia filial, na qual somos plenamente introduzidos por Jesus (2).
De forma clara, a Igreja apresenta-nos, na liturgia da Palavra deste Domingo, o amor ao próximo, nomeadamente no cuidado com os profetas e os discípulos, como um caminho de intimidade com o próprio Deus, sintonizando radicalmente o nosso coração ao do Pai, tal como o Filho o fez.
ii. «Quem vos recebe, a Mim recebe»
São Mateus procura apresentar Jesus como novo Moisés. Para tal alicerça a sua narrativa em torno de cinco grandes Sermões, do mesmo modo que a Torah (a Lei, o nosso Pentateuco), se estrutura nos cinco livros de Moisés – Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Inserido na terceira parte do Sermão da Missão (cf. Mt 10), o Evangelho deste Domingo detém-se sobre o custo do discipulado (cf. Mt 10, 37-39) e as recompensas de quem acolhe um discípulo de Jesus (cf. Mt 10, 40-42). Relata-nos o Evangelista:
Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: Não perderá a sua recompensa».
Quem são, no contexto desta passagem, os apóstolos de Cristo? Para o entendermos bem, analisemos primeiro a palavra «discípulo», no grego do século I, mathitís, que significa literalmente «estudante», «aprendiz». A partir desta, podemos olhar para a palavra «apóstolo», também do grego, apostello, que significa por sua vez «enviar a/ para». Aquele que aprende do Mestre, será enviado para O testemunhar.
Na passagem em questão, Jesus dirige-se ao Seu circulo íntimo: os Doze apóstolos, aos quais confiou a Sua própria autoridade, para os enviar a anunciar o Evangelho. Não obstante, São Paulo ao afirmar, na Carta aos Romanos, que se «morremos com Cristo [pelo baptismo], acreditamos que também com Ele viveremos» (cf. Rm 6, 8), permite ir mais fundo na interpretação destas leituras. Aqui somos recordados que a grande exigência de Jesus a todo o baptizado é de uma vida conformada à Sua, fruto de uma intimidade cada vez maior com o Senhor. Ser «sal da terra e luz do mundo» (cf. Mt 5, 13-14). Portanto, por um lado, entendemos que Ele aborda especificamente a assistência prestada a esses que continuam a Sua missão, particularmente os que pregam o Evangelho. Por outro, essa missão toca a todos os baptizados, a todos os discípulos.
A radical exigência de Cristo, na qual Ele reclama um amor a Si que seja acima de tudo e todos, é feita aos apóstolos. Trata-se de uma reivindicação chocante que vira sobre si o quarto Mandamento – «Honrarás pai e mãe» (cf. Ex 20, 2-17; Dt 5, 6-21) – e aliás todo o Decálogo. Pois, para um judeu do século primeiro, a primeira exigência como pessoa seria glorificar, honrar aqueles que lhe teriam dado a vida, nomeadamente a mãe e o pai. Mais ainda, se percorrermos toda Sagrada Escritura até ao Antigo Testamento, o único que alguma vez exigiu este tipo de fidelidade, de amor, é o próprio Deus (cf. Dt. 6, 4). Deste modo, perante os Seus apóstolos, Cristo assume-Se implicitamente como Deus.
A ordenação dos amores (Ordo Amoris) é fundamental ao discípulo que amando as coisas na sua devida proporção, saber-se-á apegar mais ao Doador do que aos próprios dons concedidos, como nos educa o Catecismo entre os pontos 2734 e 2740. Deste modo, o discípulo sintonizará mais e mais o seu coração ao do Senhor, passando a ser reflexo do amor do próprio Cristo em todo o seu ser e agir.
Assim, é possível compreender que a hospitalidade tem aqui um duplo sentido: o acolhimento do próximo deve ser reflexo de um acolhimento prévio, o acolhimento do Outro que é Deus. O discípulo que desenvolver uma verdadeira intimidade com o seu Senhor, passará a ser reflexo d’Ele. Esta hospitalidade exige, portanto, a responsabilidade do discípulo: «Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou.»
iii. «Estou convencida de que este […] é um santo homem de Deus»
Na primeira leitura, somos convidados a ver aquilo que Jesus descreve no Evangelho em acção. Lemos no Segundo Livro dos Reis:
Certo dia, o profeta Eliseu passou por Sunam. Vivia lá uma distinta senhora, que o convidou com insistência a comer em sua casa. A partir de então, sempre que por ali passava, era em sua casa que ia tomar a refeição. A senhora disse ao marido: «Estou convencida de que este homem, que passa frequentemente pela nossa casa, é um santo homem de Deus. Mandemos-lhe fazer no terraço um pequeno quarto com paredes de tijolo, com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada. Quando ele vier a nossa casa, poderá lá ficar». Um dia, chegou Eliseu e recolheu-se ao quarto para descansar. Depois perguntou ao seu servo Giezi: «Que podemos fazer por esta senhora?». Giezi respondeu: «Na verdade, ela não tem filhos e o seu marido é de idade avançada». «Chama-a» – disse Eliseu. O servo foi chamá-la e ela apareceu à porta. Disse-lhe o profeta: «No próximo ano, por esta época, terás um filho nos braços».
A «distinta senhora [sunamita]» insiste no acolhimento de Eliseu, arriscando a sua reputação ao dar asilo ao profeta, um renegado. Os profetas de Deus recordam-nos, no corpus literário dos Livros dos Reis, que Deus tem outros meios para trabalhar com o Seu povo para além dos reis e da sua administração real, sobretudo quando são infiéis. O surgimento inesperado e gratuito de vários profetas «à imagem de Moisés» (cf. Dt 18, 15) é outra causa para a esperança, numa narrativa que acompanha a queda do reino de Israel.
É verificável na acção de Deus ao longo da História a forma como, pela Sua Providência, nada falta àqueles que são fiéis à Aliança, sem deixar de dar oportunidades a todos os outros para se voltaram decididamente para Ele. A ilustre mulher, que arrisca a sua distinção social no acolhimento do Profeta, abre de facto espaço para que Deus aja na sua história, na esterilidade do seu lar.
Algo de extraordinário é que esta mulher intervenha por se convencer de que aquele homem era «um santo homem de Deus», um Profeta, portanto. Mas como é que alguém se convence, sem que o outro dê sinal dessa mesma realidade?
Como pudemos verificar antes, a missão do discípulo advém da sua intimidade com o Senhor, pela qual O reflete aos outros. Assim como Moisés, que cobria o seu rosto depois de se encontrar intimamente com Deus (cf. Ex 34, 29), o discípulo serve o Senhor não para sua conveniência ou para sua vanglória, mas para a maior glória d’Ele. Recordemos que o profeta Isaías descreve como belos os pés do mensageiro que percorre os montes para anunciar a paz (cf. Is 52, 7). Estes pés correriam longas distâncias, feridos pelas intempéries do caminho, chegando ensanguentados, até mesmo desfeitos ao seu destino. Mas a beleza que se impunha não é a do mensageiro, mas a da boa nova de paz e de Salvação. É isto mesmo que leva a mulher sunamita ao acolhimento de Eliseu. Dessa acção, impregnado pelo Espírito Santo, este servo de Deus abençoa a mulher com aquilo que só o Senhor da Vida poderia dar: um filho.
A Igreja antecipa as palavras de Jesus no Evangelho com este exemplo da hospitalidade devida a um santo Profeta de Deus no Antigo Testamento, pois os Seus discípulos seriam também Profetas, homens santos da Nova Aliança. Isto, exige um olhar renovado para aquele que dedica a vida toda a Deus, para os que abriram, abrem e abrirão mão das bênçãos e dos confortos do lar e da família, para se lançarem ao mundo inteiro anunciando a Boa-Nova do Reino, o Evangelho (cf. Mc 16, 15-20). Não se trata de acolher em vista à obtenção de recompensas, mas cada vez mais conscientes do benefício espiritual de recebermos Cristo em nossa casa, no nosso lar na pessoa de um dos seus discípulos.
Percebemos ainda que aquele que acolhe o Profeta, o discípulo de Cristo, passa a ser também testemunho, imagem de Cristo e da Sua fidelidade para aquele que recebe em sua casa e para o mundo. Torna-se assim maravilhoso o canto daqueles que são sinal das «misericórdias do Senhor», cantadas no salmo que escutamos neste Domingo.
iv. «Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor»
No capítulo 19 do Evangelho de Mateus, Pedro, consciente do grande preço que o discipulado de Jesus exige, pergunta ao Mestre: «[Nós] deixámos tudo para te seguir! Que recompensa teremos?» (cf. Mt 19, 27). Esta frontalidade de Pedro é própria do filho audaz, é sincera e, por isso, não é condenada por Jesus que responde: «[Receberá] cem vezes mais e, como herança, a vida eterna» (cf. Mt 19, 29). A certeza do discípulo não está na ausência de dificuldades, mas na fidelidade do Senhor à Sua Aliança. Por esta razão, cada um de nós canta este Domingo com o Salmo:
Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor
e para sempre proclamarei a sua fidelidade.
Vós dissestes:
«A bondade está estabelecida para sempre»,
no céu permanece firme a vossa fidelidade.
No salmo 88 (89), que é um dos mais importantes da Sagrada Escritura, a palavra misericórdia vem do hesed, que significa «fidelidade à aliança». Todo o salmo serve como um eixo teológico onde se sustenta toda a estrutura do saltério, pois mostra aquelas que seriam as espectativas da Aliança Davídica. O rei Davídico é adotado como filho de Deus (v. 27), ficando claro que a relação estabelecida por Deus por meio de uma Aliança é a de família, selada com um juramento, uma promessa.
Enquanto cristãos, mostra-nos a relevância de David para o antigo Israel, uma Aliança tão importante como as estações do ano, como os ciclos da natureza (cf. vv. 35-38). O facto de Jesus ser da linhagem de David e ser Rei e Senhor do Universo é algo muitíssimo importante para os convertidos provenientes do judaísmo, pois Deus finalmente cumpre as promessas feitas há mais de 500 anos a David, na pessoa de Cristo.
Deus é fiel, exultemos e demos graças a Deus nos nossos corações pela Sua generosidade, pelo cumprimento das Suas promessas, pelo Seu hesed, a Ele que recompensa os Seus mensageiros e aqueles que os auxiliam. A Ele que retribui até cem vezes mais.
(1) Cf. Catecismo da Igreja Católica, § 2571.
(2) Cf. Ibidem, § 2609.
Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 13th Sunday Ordinary time» de Brant Pitre e em «13th Sunday in Ordinary Time» em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsma.




