XII Domingo do Tempo Comum (Ano A). De Jeremias a Jesus

De Jeremias a Jesus: a Verdade que Não se Cala


Primeira leitura:
Jeremias 20:10-13
Salmo:
68 (69): 8-10, 14, 17, 33-35
Segunda leitura:
Romanos 5:12-15
Evangelho:
Mateus: 10:26-33


Neste Domingo, a liturgia conduz-nos desde o clamor ferido de Jeremias até à voz de Jesus que, no Evangelho de Mateus, envia os Seus discípulos em missão com a desarmante certeza de que nada devem temer pois o Pai cuida amorosamente de cada um.


Jeremias: o profeta que não podia calar

Para compreender o clamor de Jeremias, é preciso regressar ao seu tempo. Não a um tempo idealizado, mas a um tempo difícil, muito instável e marcado por crises profundas. Estamos na viragem do século VII para o século VI antes de Cristo. O reino de Judá vive os seus últimos dias. Politicamente, encontra-se entre duas grandes potências vizinhas, o Egipto e a Babilónia. Por outro lado, tanto os seus governantes como o povo afastaram-se de Deus. Multiplicam-se os cultos idólatras, as alianças duvidosas e cresce injustiça social.

E é precisamente neste cenário que Deus chama Jeremias. Não o chama por ele ser particularmente dotado ou forte. Pelo contrário, o próprio Jeremias hesita e diz: «Ah, Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem.» (Jr 1, 6) Mas a vocação não nasce da capacidade humana; nasce sempre da escolha de Deus.

E Deus coloca a Sua palavra na boca de Jeremias. O próprio Profeta, no versículo anterior ao texto deste Domingo descreve-a como «um fogo devorador encerrado nos ossos» que ele não consegue conter. A palavra de Deus não é algo exterior, é algo que o habita, que o consome, que o obriga a falar.

E é aqui que começa o drama.


A verdade incómoda

Jeremias anuncia uma palavra que o mundo não deseja escutar, porque a Verdade de Deus perturba sempre os corações acomodados. O profeta torna-se alvo de rejeição porque a sua própria vida choca com aquilo a que os outros chamam normalidade.

Ele diz ao povo de Israel que está em pecado, que as alianças políticas não salvarão nem Judá nem o seu povo, que a confiança nas aparências religiosas é ilusória e que, se não houver verdadeira conversão, Jerusalém cairá.

E o povo reage não com arrependimento, mas com dura rejeição. No texto que meditamos o profeta, com o coração magoado, escreve sobre os insultos que escuta:

Eu ouvia as invectivas da multidão: «Terror por toda a parte! Denunciai-o, vamos denunciá-lo!». Todos os meus amigos esperavam que eu desse um passo em falso: «Talvez ele se deixe enganar, e assim o poderemos dominar e nos vingaremos dele

Até os seus amigos o vigiam, esperando que ele caia. Aqueles que partilharam a sua vida tornam-se observadores da sua possível ruína. E, no entanto, no meio deste sofrimento, Jeremias não desiste. Ele sabe que há uma presença maior do que a hostilidade dos homens:

Mas o Senhor está comigo como herói poderoso, e os meus perseguidores cairão vencidos. Ficarão cheios de vergonha pelo seu fracasso, ignomínia eterna que não será esquecida.

Esta frase não apaga o sofrimento. Jeremias continua a sofrer, continua a sentir medo, angústia, solidão, mas confia que Deus não o abandona.

É este o paradoxo da vida espiritual: podemos estar cercados por adversidade, rodeados pela incompreensão, enfraquecidos pelo nosso pecado e, ao mesmo tempo, sustentados pela mão do Senhor. Como uma árvore que o vento faz curvar quase até ao chão, sem, contudo, a derrubar, porque as suas raízes mergulham bem fundo na terra.

O Salmo 69 prolonga a experiência do profeta Jeremias. É a oração de alguém que sofre por causa da sua fidelidade: «Por Vós tenho suportado afrontas, cobrindo-se meu rosto de confusão

O sofrimento pode ser consequência de fidelidade. O salmista sofre, pois, o zelo pela casa de Deus levou a que sobre ele recaíssem insultos e escreve: «Devorou-me o zelo pela vossa casa, e recaíram sobre mim os insultos contra Vós.» O salmista sente-se estrangeiro entre os seus próprios irmãos. A casa que deveria ser abrigo torna-se lugar de distância. Mas ele não se fecha, não desiste e reza assim:

«A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,

no momento propício, meu Deus.

Pela vossa grande bondade,

respondei-me, em prova da vossa salvação


Jesus, na continuidade e plenitude da experiência profética

No Evangelho deste Domingo lemos:

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se. O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Portanto, não temais: valeis muito mais do que todos os passarinhos. A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus. Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus.»

Jesus conhece a história de Jeremias, conhece o destino dos profetas e reza e canta os salmos. Sabe que Ele próprio e, depois dele, os seus discípulos entrarão nessa mesma história. Por isso, quando envia os discípulos em missão, não lhes promete facilidades. Por um lado, dá-lhes a conhecer a dura verdade que os espera, mas por outro revela a certeza espiritual de que não devem temer:

«Não tenhais medo

Jesus está a formar os discípulos para uma nova maneira de ver a realidade e por isso esclarece:

«Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo

Ele distingue entre dois tipos de temor. O medo natural, de sofrer, de perder, de morrer, e aquele que deve ser o único e verdadeiro temor, o espiritual, de perder a alma, de se afastar de Deus.

O mundo ensina-nos a preservar a vida, o nosso bem-estar, a todo o custo. Jesus ensina-nos a preservar o essencial, a nossa relação com o Pai. Jesus convida os Seus discípulos e cada um de nós a viver com os olhos na vida eterna, com o temor que nasce do amor e da consciência da grandeza de Deus. O discípulo, cada um de nós, é chamado a viver este «temor do Senhor» que a Escritura apresenta como princípio da sabedoria (Sl 111:10). Não é um temor que afasta, mas uma reverência que aproxima, uma consciência humilde de que só em Deus a vida encontra a sua verdade e a sua plenitude.

Depois deste alerta aparentemente duro, Jesus equilibra a sua exigência com uma imagem de ternura desarmante: «Nem um só passarinho cai por terra sem o consentimento do vosso Pai.» Aqueles passarinhos sem qualquer valor no mercado dos homens tornam-se imagem do cuidado divino, porque até o mais pequeno ser é conhecido e sustentado pelo Pai. E então, Jesus acrescenta: «Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.» Deus conhece-nos intimamente, conhece a nossa história, as nossas feridas, os nossos medos e esperanças. Por isso pode dizer-nos: «Não tenhais medo: valeis mais do que muitos passarinhos.»

Jesus consola e incute confiança, mas esta confiança não conduz ao silêncio; pelo contrário, impele ao testemunho: «O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia.» A fé não é uma chama para se esconder, é uma luz destinada a iluminar e partilhar. Testemunhar Cristo exige coragem, é exigente, porque significa que a nossa própria vida, os nossos actos de cada dia devem falar d’Ele ao mundo.

E é por isso que Jesus termina com uma afirmação decisiva: «A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus.» A existência humana torna-se então lugar de decisão. Cada gesto, cada palavra, cada silêncio participa desta escolha entre reconhecer Cristo ou escondê-Lo, entre viver da luz ou permanecer fechado no medo.

Agora sabemos que o sofrimento e as dificuldades não são o fim, a rejeição não é a última palavra, o medo não tem a vitória. Porque Deus está presente. Quem confia em Deus não será abandonado.

Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 12th Sunday Ordinary time» de Brant Pitre e em «12th Sunday in Ordinary Time» em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsma.

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