
Por: Isabel Horta Correia
Primeira Leitura: Sabedoria 12,13:16-19
Salmo: 86 (85), 5-6, 9-10, 15-16
Segunda Leitura: Romanos 8, 26-27
Evangelho: Mateus 13, 24-43
As leituras deste Domingo convergem numa mesma mensagem: Deus é paciente, misericordioso e fiel ao Seu plano de salvação. Em vez de eliminar imediatamente o mal, oferece tempo para a conversão, acompanha o Seu povo com a graça do Espírito e faz crescer, silenciosamente, o Seu Reino. O discípulo é chamado a confiar nesta acção discreta de Deus, resistindo à tentação da impaciência, do julgamento precipitado e do desânimo perante a presença do mal.
Neste Domingo, o Evangelho relata uma série de parábolas. Jesus serve-se desta antiga forma de comunicação judaica, o mashal, para, através do enigma, levar os seus ouvintes a reflectir sobre os mistérios do Reino. Desta forma, revela tanto a realidade do Reino, como o seu carácter misterioso.
Assim, lemos:
Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?”. Ele respondeu-lhes: “Foi um inimigo que fez isso”. Disseram-lhe os servos: “Queres que vamos arrancar o joio?”. “Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro”».
Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado».
Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo». Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem, e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno, e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».
Primeira parábola: o trigo e o joio
Na primeira parábola, Jesus começa por apresentar uma realidade prosaica, um homem que semeia a semente do trigo no seu campo, mas imediatamente introduz a tensão ao contar que, durante a noite, o inimigo aparece e, sem ninguém saber, semeia no mesmo campo ervas daninhas. Quando as hastes de trigo começam a dar grãos, os criados apercebem-se de que no campo não cresce só trigo, mas também joio. Assim, o trigo e o joio crescem juntos, no mesmo campo. Esta imagem retrata a história humana, onde há sempre uma mistura de luz e sombra, de amor e de egoísmo. O bem e o mal, tal como o trigo e o joio, se forem plantados no mesmo campo estão entrelaçados e, às vezes, parecem inseparáveis.
Ao aperceber-se desta mistura no campo, os servos ficam admirados: «Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?» No fim deste Evangelho, quando os discípulos pedem que os esclareça, Jesus esclarece que o trigo foi semeado pelo Filho do Homem e o joio pelo Diabo. Por isso, a dúvida que subsiste é: como permite Deus que o Diabo seja semeador? Se Deus é bom e o Seu Reino já chegou, porque continua o mal a existir? A resposta não está na forma como Deus age perante ele. Com frequência também a nós, tal como aos servos nesta passagem, parece-nos que Deus concede demasiada liberdade ao mal, que lhe dá a faculdade de nos rodear de maneira demasiado terrível. Contudo, Deus permite que trigo e joio cresçam juntos até à colheita, não por indiferença, mas por misericórdia. Aos s servos que propõem arrancar as ervas daninhas, o dono do campo, que simboliza Deus, responde que devem deixar o trigo e o joio crescerem juntos até ao tempo da colheita. Deus concede tempo para a conversão, pois conhece a fragilidade humana e não quer que o trigo seja arrancado juntamente com o joio. O julgamento definitivo será realizado apenas no fim dos tempos, quando Deus fará plena justiça. Até lá, os discípulos são chamados a confiar na Sua providência e a viver como trigo no meio do joio, testemunhando a força do bem e da graça num mundo onde o mal continua presente. Jesus está a revelar-nos que esta parábola é sobre o mistério do pecado, sobre este mundo que, antes do juízo final, será sempre composto por justos e ímpios, bons e maus; e Deus permite que permaneçam lado a lado até ao fim dos tempos. Jesus quer explicar que não é com violência que se instaura o Reino de Deus neste nosso mundo; que o Seu estilo é a mansidão. O Reino de Deus é uma grande força, a maior que existe, mas não segundo os critérios do mundo.
Esta convivência permitida entre o bem e o mal é muito explícita , por exemplo, no livro do Génesis 18, 22-23, quando Deus promete a Abraão que não destruirá Sodoma se lá houver pelo menos dez justos. Ou, no Novo Testamento, quando Jesus não abandona Pedro e os outros discípulos por causa de Judas. Mas porquê? Porque permite Deus esta coexistência?
A primeira leitura deste Domingo ajuda-nos a responder a esta questão. No Livro da Sabedoria lemos:
Não há Deus, além de Vós, que tenha cuidado de todas as coisas; a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente. O vosso poder é o princípio da justiça e o vosso domínio soberano torna-Vos indulgente para com todos. Mostrais a vossa força aos que não acreditam na vossa omnipotência e confundis a audácia daqueles que a conhecem. Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência, porque sempre podeis usar da força quando quiserdes. Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.
Este texto revela que a omnipotência de Deus se manifesta sobretudo na Sua infinita misericórdia: «O vosso poder é o princípio da justiça, e o vosso domínio soberano torna-Vos indulgente para com todos.»
Longe de agir com precipitação, Deus governa-nos com grande benevolência e dá aos Seus filhos a esperança de que, após o pecado, nos será concedida a conversão e o arrependimento.
É precisamente esta imagem de Deus que Jesus nos revela na parábola do trigo e do joio. O Senhor não manda arrancar imediatamente o joio, mas deixa-o crescer juntamente com o trigo até ao tempo da ceifa. Não porque seja indiferente ao mal, mas porque a Sua misericórdia é maior do que a nossa impaciência. Deus conhece o coração humano, sabe que o joio pode tornar-se trigo pela força da Sua graça e reserva para Si o julgamento definitivo.
Também, São Tomás de Aquino explica que Deus deu ao Homem liberdade de seguir caminhos diferentes. O plano da salvação é este caminho em que bons e maus vivem juntos e muitas vezes em comunidade. Além disso, aqueles que por algum tempo foram joio podem encontrar Jesus e converter-se. Quanto maior tiver sido o seu afastamento de Deus, mais eloquente poderá ser a sua conversão. Lembremos São Paulo: de perseguidor dos cristãos tornou-se o grande Apóstolo dos gentios. A sua conversão levou-o a revelar Cristo de tal forma que a Palavra estaria hoje muito mais pobre sem este Apóstolo. Por isto Jesus diz-nos: «Deixai-os crescer ambos até à ceifa.» O Senhor convida-nos a aceitar o mistério da vida com serenidade e paciência, deixando o julgamento para Ele. A purificação do coração e a vitória definitiva sobre o mal são essencialmente obra de Deus. Os feixes só se farão no fim dos tempos.
Segunda parábola: a planta da mostarda
De seguida, Jesus conta a parábola do grão de mostarda. Jesus diz-nos que um homem lançou à terra um grão de mostarda, uma semente muito pequena, possivelmente a mais pequena conhecida no Seu tempo . É, no entanto, importante notar que a mostarda não era uma planta que se cultivava habitualmente porque era uma planta invasiva, uma planta daninha. Além disso, a planta da mostarda, quando cresce, forma um arbusto com altura inferior a um metro. Como entender então o que Jesus nos diz nesta parábola? Porque é que Jesus diz que o grão de mostarda se transforma numa «árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos»?
Jesus, mais do que revelar o Reino, quer mostrar que ele é uma realidade misteriosa. É preciso ir além do visível e da experiência humana. Jesus, para descrever o Seu Reino, um Reino glorioso, vai compará-lo a uma árvore. No Antigo Testamento, em Ezequiel 17, temos a comparação do reino de Deus a um «glorioso cedro do Líbano». Jesus, em vez de comparar o Reino a uma árvore majestosa, compara-o a um arbusto de mostarda, uma planta invasora, algo inesperado e aparentemente insignificante.
Também no livro de Daniel, capítulo 2, descreve-se o Reino como uma pequena pedra que se transforma numa grande montanha. Do mesmo modo, o pequeno grão de mostarda cresce para além do esperado, tornando-se uma árvore onde «as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». As aves simbolizam os gentios, mostrando que o Reino será universal, aberto tanto a Israel, como às restantes nações.
Assim, Jesus ensina que o crescimento do Reino está nas mãos de Deus. A partir do que é pequeno, humilde ou até desprezado, Deus faz surgir a Sua glória. Que mistério!
Terceira parábola: o fermento
Por fim, Jesus apresenta a parábola da mulher e do fermento, que é muito curta e nos diz que o Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher misturou com três medidas de farinha, até que toda a massa ficou levedada. À primeira vista, podemos pensar que Jesus nos quer falar apenas do pequeno que se transforma em grande. Mas, mais uma vez, nesta parábola, Jesus quer indicar que o Reino de Deus é uma realidade misteriosa.
Jesus usa um elemento inesperado: o fermento. Embora fosse um ingrediente comum do pão, na tradição bíblica era frequentemente associado à corrupção e ao pecado, como mostram a proibição do fermento na Páscoa (Ex 12) e expressões como «o fermento dos fariseus» (Mt 16, 6) ou a exortação de São Paulo: «Livrai-vos do fermento velho» (1 Cor 5, 7). Por isso, é surpreendente que Jesus escolha precisamente o fermento para representar a força transformadora do Reino de Deus.
Assim, as leituras de hoje convidam-nos a confiar no modo como Deus conduz a História. O Seu Reino cresce silenciosamente, no meio das ambiguidades deste mundo, sustentado por uma misericórdia que nunca desiste do Homem. A nós, cabe-nos viver como bom trigo, sem julgar antes do tempo, certos de que, no fim, «os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai.»
Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 11th Sunday Ordinary time de Brant Pitre




