Assunção da Virgem Santa Maria (Ano A)

Por: Pe. Duarte Andrade e Sousa

Primeira Leitura: Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab

Salmo: 44 (45), 10.11.12.16 (R. cf. 10b)

Segunda Leitura: 1 Cor 15, 20-27

Evangelho: Lc 1, 39-56

 

 

 

Hoje, dia 15 de Agosto, a Igreja celebra uma das suas maiores festas marianas: a Solenidade da Assunção da Santíssima Virgem Maria. Esta solenidade celebra um dogma proclamado solenemente pelo Papa Pio XII em 1950, na constituição apostólica Munificentissimus Deus, que vale a pena ler com atenção para se perceber como este acontecimento, mesmo não estando descrito em nenhum dos Evangelhos, é um dado inquestionável e muito presente em toda a história da Igreja, desde os primeiros séculos. O primeiro desafio que se nos coloca prende-se talvez com a escolha das leituras desta Missa do Dia. Não havendo nenhuma narrativa bíblica directa da Assunção, como suporte bíblico a Igreja oferece-nos três textos aparentemente díspares: um trecho do livro do Apocalipse (Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab), um salmo nupcial real (Sl 45) como salmo responsorial, uma passagem de São Paulo sobre a ressurreição (1 Cor 15,20-27), e o Evangelho da Visitação de Maria a sua prima Isabel (Lc 1,39-56). Nestes textos, sobretudo no Evangelho e Primeira Leitura, veremos sobretudo duas grandes imagens-tipo de Nossa Senhora: Maria como Arca da Aliança e Maria como Rainha-Mãe.

Primeiro, é necessário irmos ao Antigo Testamento para perceber o que significava a Arca no Antigo Testamento. A Arca era o trono de Deus sobre a terra, o lugar da sua presença real e palpável no meio do seu povo. Foi mandada contruir por Deus a Moisés segundo instruções muito precisas (Ex 25,10-22), sendo essencialmente uma caixa de madeira de acácia – material que era considerado incorruptível – sendo depois revestida de ouro por dentro e por fora, bem como os varais usados pelos sacerdotes que a transportavam. No seu interior guardava os três sinais da aliança: as tábuas da Lei, dadas por Deus a Moisés, um vaso com uma porção de maná, o misterioso pão que descia do céu ara alimentar o povo na travessia do deserto, e o ceptro de Aarão que floresceu miraculosamente, sinal da sua autoridade sacerdotal (Num 7). Sobre a arca foram esculpidos dois anjos e aí habitava a
Shekinah, a glória luminosa de Deus. Era tão sagrada que ninguém a podia tocar sem morrer (2 Sm 6,6-7) e só podia ser transportada por sacerdotes. A Arca era literalmente o lugar onde o Deus do universo escolheu para viver no meio dos homens.

 

Mas podemos perguntar-nos porque é que o Evangelho deste dia é o da Visitação. Qual a relação? Poderíamos pensar que, não havendo nenhum relato da Assunção de Nossa Senhora, a Igreja teria de escolher outro trecho do Evangelho e desses, um dos poucos ligados a Nossa Senhora. Mas não, a razão é bem mais profunda e significativa, como veremos a seguir. Mas para isso é imprescindível revisitarmos uma passagem do Antigo Testamento precisamente ligada à história da Arca da Aliança.

 

É o momento em que o Rei David quis trazer a Arca para Jerusalém, como nos relata o Capítulo 6 do Segundo Livro de Samuel. Aqui é descrito o cortejo com a Arca, onde vemos David dançar diante da Arca com toda a sua força, vestido com o traje dos sacerdotes, acompanhado pelo povo que segue com aclamações. Devido a um percalço em que Deus castiga mortalmente um homem por ter tocado indevidamente na Arca, esta fica alojada na casa de Obed-Edom durante três meses, antes de ser definitivamente levada para Jerusalém. Ali, no templo construído por Salomão, passa a ter lugar no Santo dos Santos, o lugar mais sagrado, inacessível a todos excepto ao sumo sacerdote, e apenas uma vez por ano.

 

Tendo presente este contexto vamos agora perceber a importância do Evangelho da Visitação nos vários paralelos entre Maria e a Arca da Aliança.

 

Em primeiro lugar, quando o Espírito Santo desce sobre Maria na Anunciação, o texto diz que a «cobriu com a sua sombra» (Lc 1,35). Esta é precisamente a mesma palavra grega usada na versão dos Setenta para descrever a nuvem de glória que cobriu o tabernáculo e que tornava a Arca presente (Ex 40,35), ou seja, Deus habita em Maria como habitava na Arca.

 

Em segundo lugar, quando David vai buscar a Arca, o texto diz que ele «se levantou e partiu» para a região montanhosa de Judá (2 Sm 6,2). E Lucas diz que Maria «se levantou e partiu apressadamente para a região montanhosa de Judá» (Lc 1,39). Não só a expressão é virtualmente idêntica, como ambos vão para a mesma região.

 

Um terceiro paralelo acontece logo após o castigo de Oza, aquele que morre por estender a mão e tocar na Arca. Quando David se aproxima da Arca, exclama: «Como virá até mim a Arca do Senhor?» (2 Sm 6,9). Também na Visitação, quando Isabel vê sua prima Maria entrar em sua casa, exclama: «Como é que a mãe do meu Senhor vem ter comigo?» (Lc 1,43). Em ambos os casos há uma exclamação, mais do que uma pergunta apenas, tanto David como Isabel gritam, naquilo que os estudiosos diriam ser algo como um canto litúrgico, inspirado pelo Espirito Santo. O paralelismo continua: «mãe do meu Senhor» ocupa o lugar de «Arca do Senhor». Maria é a nova Arca da Aliança.

Um quarto aspecto semelhante acontece quando David dança e salta diante da Arca com o tal grito de júbilo. No Evangelho, João Baptista ainda bebé salta de alegria no seio de Isabel quando ouve a voz de Maria e Isabel exclama com o referido grito alto. Para além da exclamação é evidente o paralelo das duas danças ou movimentos graciosos de João Baptista e David.

 

Por fim, um quinto paralelismo subtil mas significativo: a Arca permaneceu na casa de Obed-Edom durante três meses (2 Sam 6,11). Maria permaneceu na casa de Isabel durante três meses (Lc 1,56). Lucas poderia simplesmente ter dito que ela ficou até ao nascimento de João, que seria o dado narrativo mais natural, e que de facto corresponderia a três meses, uma vez que na Anunciação o Anjo diz a Maria que Isabel está já no sexto mês da sua gravidez. Mas não: diz três meses especificamente, para que a alusão tipológica seja mais facilmente reconhecível.

 

Assim, neste percurso que brevemente fizemos, tornam-se claros os paralelos que identificam a Visitação como a visita da Arca da Aliança. Lembremo-nos ainda de que dentro da Arca estavam tábuas de pedra com os Dez Mandamentos da Lei de Deus, um vaso com o maná e um ceptro sacerdotal de Aarão. Do mesmo modo, Aquele que está no seio de Maria é o Verbo de Deus feito carne, o verdadeiro Pão do Céu e o sumo sacerdote da Nova Aliança.

 

Continuando a história da Arca da Aliança, sabemos que com a destruição de Jerusalém pelos Babilónios, no século VI a.C., a Arca desapareceu. Segundo o livro dos Macabeus (2 Mac 2,4-8), o profeta Jeremias, ele próprio sacerdote, tê-la-ia escondido no monte Nebo, onde Moisés morreu, prometendo que o seu paradeiro permaneceria oculto até que Deus manifestasse de novo a sua misericórdia e a sua glória. Não podemos esquecer que no tempo de Jesus o templo reconstruído estava vazio no seu centro mais íntimo: não havia Arca no Santo dos Santos. Apesar de continuarem os sacrifícios, o Santo dos Santos estava desabitado. Contudo, havia uma esperança ardente de que a Arca voltasse a aparecer, quando o Messias viesse inaugurar a Nova Aliança.

 

Isto ajuda a compreender a escolha da primeira leitura da Missa do Dia. No Apocalipse, no fim do capítulo 11 e início do capítulo 12, João tem a seguinte visão: vê o Templo celestial aberto, e no interior do Santo dos Santos, o lugar mais sagrado do templo do Céu, aparece a Arca da Aliança. Imediatamente a seguir aparece uma mulher revestida de sol, com a lua sob os seus pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, que dá à luz um filho varão destinado a reger todas as nações. A mulher foge para o deserto, perseguida por um enorme dragão encarnado. Mas o seu filho é arrebatado para Deus e para o seu trono.

 

Este tipo de visão é usual na linguagem bíblica: a Arca e a Mulher são dois símbolos sobrepostos para a mesma realidade. João vê primeiro a Arca e depois vê a mulher no céu. Esta mulher é a mãe do Messias, revestida de glória cósmica. Se Maria é a Arca da Aliança na terra, então esta visão da Arca no templo celestial e da mulher coroada no céu é, como a Igreja entendeu desde os primeiros séculos, uma revelação apocalíptica de Maria no Céu: no Santo dos Santos celestial, glorificada, como Rainha.
É essa ligação que o Papa Pio XII refere no dogma da Assunção de Nossa Senhora: desenvolveu na sua definição dogmática: «na Arca da Aliança, feita de madeira incorruptível e colocada no templo de Deus, viam como que uma imagem do corpo puríssimo da virgem Maria, preservado da corrupção do sepulcro, e elevado a tamanha glória no céu» (MD, 26).

 

A segunda grande imagem bíblica desta solenidade é a da Rainha-Mãe, que aparece no Salmo responsorial, chamado o «Salmo das Bodas Reais». Este salmo dirige-se ao rei no dia da sua entronização, e também à rainha que está à sua direita. O refrão diz: «À vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu, ornada do ouro mais fino». Na monarquia ao tempo de David, a rainha, assim referida, não era a mulher do rei, até porque os reis podiam ter várias esposas. A rainha era a mãe do rei, como atestam por exemplo os livros dos Reis. Quando Salomão sobe ao trono, manda colocar um trono à sua direita para a sua mãe Betsabeia (1 Rs 2,19). O rei inclina-se diante dela, e ela senta-se à sua direita como rainha. É ela que intercede junto do filho em favor do povo. Esta imagem repete-se ao longo de toda a monarquia: cada rei tem a sua mãe como Rainha-Mãe, e o nome da mãe é sempre mencionado quando um rei sobe ao trono, sinal de que ela partilhava a sua dignidade real.

 

O Salmo 45 é por isso um salmo messiânico que anuncia Jesus Cristo, o Rei por excelência e a sua Rainha-Mãe, Nossa Senhora. Nesse sentido, voltando ao livro do Apocalipse, percebemos agora o significado desta Mulher, que é a Arca da aliança, no templo celeste. Se o trono de Jesus não está em Jerusalém, nem na terra, mas já no Céu, onde Ele ascendeu, também do mesmo modo o trono de sua Mãe está lá, à sua direita. Se o Filho é o Rei entronizado no Céu, a Rainha-Mãe também lá está, porque também foi levada ao Céu. A Assunção de Maria é, entre outras coisas, condição de possibilidade para que este salmo se cumpra: para que Maria esteja à direita do seu Filho Rei, é necessário que ela seja assumida ao Céu, corpo e alma, e aí entronizada como Rainha do universo.

 

Também nesse sentido a Segunda Leitura destaca a ressurreição de Cristo como «primícias dos que morreram» e apresenta a vitória de Jesus sobre a morte, o último inimigo a ser destruído. Essa passagem reforça a ideia de que, assim como a ressurreição veio por meio de Cristo, Maria, na sua Assunção, é vista como «segundo fruto», antecipando a promessa de vida eterna para aqueles que estão em Cristo.

 

Como escreveu o Papa Bento XVI: «Maria, Mãe de Deus, cheia de graça, totalmente dócil à acção do Espírito Santo, já vive no Céu de Deus com todo o seu ser, corpo e alma.» Ela é para nós sinal de esperança: Nossa Senhora vai à nossa frente, como as «primícias» de que fala Paulo, e o que nela já se cumpriu, espera-nos a nós na ressurreição final.

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