
Por: Padre Tomás Castel-Branco
Primeira Leitura: Daniel 7, 9-10, 13-14 ou 2 Pedro 1, 16-19
Salmo: 97 (96), 1-2, 5-6, 9 e 12
Evangelho: Mateus 17, 1-9
Todos os anos, no dia 6 de Agosto, a Igreja celebra a festa da transfiguração de Jesus no monte com Pedro, Tiago e João. Desde os primeiros séculos se dedica uma festa litúrgica exclusiva a este acontecimento da vida de Jesus, o que manifesta a sua importância, além de, no segundo Domingo da Quaresma, proclamamos sempre o evangelho da transfiguração. Desta maneira, é possível enfatizar de forma mais evidente a divindade de Jesus que habitualmente se esconde sob a natureza humana na naturalidade da Sua vida diária, podendo igualmente ser considerada como a celebração da manifestação antecipada da visão beatífica e do mistério da Santíssima Trindade.
A transfiguração ocupa um lugar central no caminho de Jesus para Jerusalém e para a Sua paixão. Não se trata simplesmente de uma manifestação extraordinária da Sua glória, nem de um episódio isolado da vida do Senhor.
A cena revela aos discípulos quem é verdadeiramente Jesus e, ao mesmo tempo, prepara-os para o escândalo da cruz. Antes de contemplarem o rosto desfigurado do Senhor pela paixão, Pedro, Tiago e João recebem a graça de contemplar, ainda que por instantes, o esplendor do Seu rosto glorificado. Jesus mostra-lhes antecipadamente a glória que alcançará através da Sua paixão (cf. Lc 9,28-36). A glória não é apresentada como algo separado da cruz, sendo precisamente através da paixão, morte e ressurreição que a segunda Pessoa da Santíssima Trindade realizará plenamente a obra da salvação.
A estreita ligação entre a transfiguração, a confissão de Pedro e o primeiro anúncio da paixão é particularmente significativa. O evangelho situa o episódio «seis dias depois» (Mt 17, 1), estabelecendo uma continuidade temporal com aquilo que acabara de acontecer. Pedro tinha confessado Jesus como «o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16), mas imediatamente depois teve de confrontar-se com o anúncio desconcertante de que o Messias iria sofrer, morrer e ressuscitar (cf. Mt 16, 21). A transfiguração vem iluminar precisamente esta tensão demonstrando que o Jesus que caminha para a cruz não deixa de ser o filho glorioso. Pelo contrário, a cruz pertence ao próprio caminho pelo qual a Sua glória se manifestará. Na transfiguração, o Pai confirma do céu aquilo que Pedro professara na terra: Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus (cf. Mt 17, 5). Deste modo, a transfiguração constitui uma revelação antecipada da Páscoa. Os discípulos recebem uma luz que deverá permanecer na sua memória quando chegar a hora da paixão e, por isso, aquele que verão humilhado, rejeitado e crucificado será o mesmo que agora contemplam revestido de glória. A cruz não desmente a identidade de Jesus; revela-a paradoxalmente de modo supremo, pelo que, a reação dos discípulos é marcada simultaneamente pela alegria e pelo temor. Pedro manifesta o desejo de permanecer naquele lugar: «Senhor, é bom estarmos aqui» (Mt 17, 4), no entanto, quando a presença divina se torna mais intensa tiveram muito medo (cf. Mt 17, 6-7). A experiência de Deus atrai e, ao mesmo tempo, ultrapassa o Homem. Esta revelação cristológica é verdadeira, mas a sua compreensão só amadurecerá à luz da Páscoa. Assim, só depois da morte e da ressurreição será possível compreender plenamente que a glória contemplada no monte e a glória revelada na Cruz pertencem ao mesmo mistério.
Neste ano litúrgico rezamos com a ajuda do capítulo 17 do evangelho segundo São Mateus, o qual salienta que a transfiguração é uma autêntica teofania. No antigo testamento, Deus revelava-se ao Povo no cimo da montanha, sendo este o lugar onde Ele era encontrado. Isto é notório no livro do Êxodo quando as doze tribos de Israel se juntam na montanha e Deus desce sobre a nuvem (cf. Ex 24-25); ou, no momento, em que Moisés recebe a revelação divina na sarça ardente (cf. Ex 33-34); ou ainda quando o profeta Elias espera e vê a Deus no monte Horeb (cf. 1 Re 19). Através destes exemplos compreendemos como não é estranho que Jesus revele a Sua divindade aos discípulos mais próximos no topo da montanha ao transfigurar-se.
No monte Tabor dá-se em Jesus uma metamorfose, do grego μεταμόρφωσις, ou seja, uma transformação de tal forma que o Seu rosto resplandecia como o Sol e as Suas vestes se tornaram brancas como a luz (cf. Mt 17, 2). Para compreender esta alteração em Jesus, também nos ajudará recorrer ao antigo testamento em ordem a compreender a estreita ligação e cumprimento cristológico. Assim, na primeira leitura da Missa desta festa, no capítulo 7 do livro de Daniel, vemos anunciada a vinda do Filho do Homem nas nuvens do Céu, o que permite vislumbrar uma estreita relação com a transfiguração de Jesus, também pela visão que o profeta teve de um ancião com roupa branca como a neve e o cabelo como lã pura (cf. Dn 7, 9). As vestes são brancas para significar a identidade divina e celeste. Atendendo a este último aspecto mencionado, é possível constatar no evangelho da festa que estamos a considerar que, no que a Jesus diz respeito, «o seu rosto ficou resplandecente como o Sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mt 17, 1-9).
Nesta passagem evangélica aparecem duas personagens do antigo testamento cuja presença não é um pormenor secundário pois contribuem para a compreensão de que a Transfiguração é a revelação da glória divina de Jesus. Moisés e Elias são os dois grandes representantes do Antigo Testamento: Moisés representa a Lei e Elias os Profetas. A sua presença junto de Jesus manifesta que toda a história da salvação converge para Ele e Jesus não aparece simplesmente como mais uma figura dentro da história bíblica, dado que Ele é o centro para o qual a Lei e os Profetas apontavam. A antiga Aliança encontra n’Ele o seu cumprimento e a sua plenitude. Neste sentido, Moisés e Elias não obscurecem Cristo nem competem com Ele. Pelo contrário, conduzem a Ele. Toda a revelação anterior encontra no Filho a sua realização. Ambos desejavam ver a face de Deus no antigo testamento, mas não conseguiram e, este momento das Suas vidas em que, por graça de Deus, presenciam a revelação trinitária e cristológica, constitui-se como plenitude do que haviam desejado. Em ordem a entendê-lo recorremos ao pedido que o apóstolo Pedro fez a Jesus: «Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias» (Mt 17, 4), pois no antigo testamento o povo de Israel construiu uma tenda após a teofania no monte Sinai com o objectivo de que Deus permanecesse com eles como um templo temporário.
O catecismo da Igreja católica confirma que «finalmente, retomando o caminho do deserto em direcção ao lugar onde o Deus vivo e verdadeiro Se revelou ao seu povo, Elias recolheu-se, como Moisés, “na cavidade do rochedo”, até “passar” a presença misteriosa de Deus (cf. Cf. 1 Rs 19, 1-14; Ex 33, 19-23). Mas será somente no monte da Transfiguração que Se mostrará sem véu Aquele cuja face eles procuravam (Cf. Lc 9, 30-35): o conhecimento da glória de Deus está na face de Cristo, crucificado e ressuscitado (Cf. 2 Cor 4, 6)». Deste modo, o mistério da transfiguração estabelece uma estreita ligação com o mistério da encarnação pois Deus assume um rosto humano que possibilita alcançar o que antes não era possível.
A tradição cristã compreendeu profundamente esta relação entre Cristo e as escrituras. Hugo de São Vítor exprime-a numa fórmula de grande densidade teológica: «toda a Escritura divina forma um só livro, e esse único livro é Cristo, pois toda a Escritura divina fala de Cristo e toda ela se realiza em Cristo» (Hugo de São Vítor, De Arca Noe morali 2,8). Esta afirmação permite compreender a unidade profunda da Bíblia. A escritura não é uma simples colecção de textos independentes, mas uma história única de salvação que encontra em Cristo a sua chave interpretativa. O antigo testamento prepara, anuncia e prefigura aquilo que se realiza no novo; e o novo testamento manifesta o cumprimento daquilo que fora prometido e preparado no antigo. Por isso, não é possível compreender adequadamente Cristo sem conhecer as escrituras. São Jerónimo insiste precisamente neste ponto: «se, como diz o apóstolo Paulo, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, e aquele que não conhece as Escrituras não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria, daí se segue que ignorar as Escrituras é ignorar Cristo» (São Jerónimo, Commentarii in Isaiam, prol. 1).
O centro da transfiguração encontra-se, porém, na voz que vem da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O» (Mt 17, 5). A voz do Pai confirma a identidade de Jesus e, simultaneamente, indica aos discípulos qual deve ser a sua atitude fundamental. Não lhes é dito apenas quem Jesus é; é-lhes dito o que devem fazer diante d’Ele: escutá-l’O (cf. Mt 17, 5). Jesus é o Filho amado, aquele em quem o Pai põe a sua complacência (cf. Mt 17, 5). Nele se unem as grandes linhas da revelação bíblica. Ele é o verdadeiro Servo anunciado por Isaías, o Messias esperado por Israel, o Filho que o Pai envia e a Palavra definitiva através da qual Deus se comunica com a humanidade (cf. Is 42, 1-9). A ordem «Escutai-O» (Mt 17, 5) adquire, por isso, um alcance mais profundo. Depois de Moisés e Elias terem aparecido ao lado de Jesus, a voz do Pai dirige os olhos dos discípulos exclusivamente para o Filho. A Lei e os Profetas têm a sua importância fundamental, mas não constituem a palavra última. A Palavra definitiva é Cristo. É precisamente esta verdade que São João da Cruz desenvolve ao falar da plenitude da revelação em Jesus Cristo:
«Por isso, quem agora quisesse perguntar alguma coisa a Deus, ou desejasse alguma visão ou revelação, não só cometeria uma insensatez, como faria uma ofensa a Deus, não fixando totalmente os olhos em Cristo, sem querer outra coisa ou novidade alguma. Porque Deus poderia responder-lhe deste modo, dizendo: “Se já te falei de todas as coisas na minha Palavra, que é meu Filho, e não tenho outra, que te posso Eu agora responder ou revelar que seja mais do que isso? Fixa os olhos somente n’Ele, porque n’Ele te tenho dito e revelado tudo, e encontrarás n’Ele ainda mais do que aquilo que pedes e desejas (…); escuta-O, porque Eu não tenho mais fé para revelar, nem mais coisas para manifestar”» (São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo 2,22,5).
Esta passagem de São João da Cruz ajuda a perceber a profundidade da palavra do Pai. A fé cristã não vive da procura incessante de novidades espirituais, de sinais extraordinários ou de revelações que acrescentem algo àquilo que Deus já revelou definitivamente no Seu Filho. O centro da vida cristã é Cristo. A questão fundamental do discípulo não é, portanto, «que novidade procurarei?», mas «como poderei escutar melhor Cristo?». A transfiguração convida-nos a passar da curiosidade religiosa para a escuta obediente; da procura de experiências extraordinárias para a contemplação perseverante do Filho.
A transfiguração contém em si uma dimensão profundamente pascal. Jesus revela a Sua glória antes de entrar definitivamente no caminho da paixão. Esta ordem é essencial para compreender o episódio. A glória aparece antes da Cruz para que os discípulos possam compreender que a Cruz não será o fracasso de Jesus. O sofrimento que se aproxima não significa que Deus tenha abandonado o seu Filho. Pelo contrário, o caminho da obediência até à morte será o caminho da glorificação. A transfiguração é, assim, uma pedagogia divina. Jesus sabe que os seus discípulos terão dificuldade em aceitar um Messias sofredor. Pedro acabara de rejeitar interiormente o anúncio da paixão. Por isso, antes que o escândalo da cruz aconteça, Jesus concede aos três discípulos uma antecipação da glória. A contemplação no monte deverá ajudá-los a permanecer fiéis quando chegarem ao vale da paixão.
Esta pedagogia continua a ser válida para a vida cristã. Também nós somos frequentemente tentados a separar a glória da cruz, a querer a ressurreição sem a paixão, a vitória sem a entrega, a consolação sem a fidelidade. A transfiguração recorda-nos que a verdadeira glória de Cristo não pode ser separada da sua obediência ao Pai. O discípulo é chamado a aprender a reconhecer o Senhor tanto no esplendor do monte como na obscuridade do calvário.
A experiência culminante do monte, contudo, não termina na latitude mais alta dado Jesus e os discípulos descem. A contemplação da glória não é uma fuga da realidade, mas uma preparação para regressar a ela com um olhar novo. O desejo de Pedro, «Senhor, é bom estarmos aqui» (Mt 17, 4), exprime algo profundamente humano: gostaríamos de permanecer nos momentos de luz, de consolação e de proximidade de Deus, mas o caminho de Jesus continua sendo necessário descer do monte e caminhar em direcção à cruz. A verdadeira experiência de Deus não nos fecha em nós próprios, pelo que nos leva de novo ao caminho, à missão, ao serviço e à entrega.
É significativo que, ao descerem do monte, Jesus esclareça aos discípulos a relação entre Elias e João Batista (cf. Mt 17, 10-13). João Batista aparece como aquele que realiza a missão anunciada pela figura de Elias e prepara a manifestação do Messias. Assim, também neste aspecto, a transfiguração confirma a continuidade da história da salvação. Moisés, Elias, João Batista e todos os profetas não constituem caminhos paralelos a Cristo participando cada um da única história que conduz ao Filho.
A transfiguração oferece, deste modo, uma síntese extraordinária da fé cristã. Jesus é o Filho amado do Pai; nele se cumprem a Lei e os Profetas; nele Deus revelou plenamente o Seu rosto; e é a Ele que somos chamados a escutar. A cena do monte revela aquilo que a cruz poderia fazer esquecer aos olhos humanos: o Crucificado é o Filho glorioso. A paixão não contradiz a filiação divina de Jesus; manifesta a profundidade do Seu amor obediente. Por isso, a transfiguração não é apenas uma recordação de um acontecimento extraordinário vivido pelos primeiros discípulos. É também uma escola para nós ao ensinar-nos a olhar para Cristo quando a realidade parece contradizer a fé; a permanecer fiéis quando o caminho passa pela dor; a compreender que a glória cristã não consiste em fugir da cruz, mas em atravessá-la, unidos ao Filho.
O essencial permanece naquela palavra do Pai: «Escutai-O» (Mt 17, 5). Escutar Cristo significa deixar que Ele seja o critério último da nossa vida, da nossa esperança e das nossas escolhas; voltar continuamente ao evangelho para aprender a reconhecer a sua voz; deixar que a escritura nos conduza até Ele e que, uma vez encontrados n’Ele a verdade e o amor de Deus, permaneçamos com os olhos fixos no Filho.
A transfiguração revela-nos, finalmente, que a luz de Cristo não é uma luz destinada apenas ao monte, mas para o caminho. É dada aos discípulos para que possam enfrentar a paixão sem perder a esperança e para que, depois de descerem do monte, continuem a caminhar com Jesus. Aquele que se manifesta em glória é o mesmo que caminha para a cruz e o mesmo que o Pai proclama como seu Filho amado. Por isso, diante de todas as sombras da existência, permanece a certeza fundamental da fé: Cristo é a palavra definitiva do Pai; n’Ele se cumpre toda a Escritura, n’Ele Deus se revela plenamente e a Ele somos chamados a escutar.
(1) Catecismo da Igreja Católica, §2583




