XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano A). O Milagre que Anuncia a Eucaristia

Por: Catarina Cid

Primeira Leitura: Isaías 55, 1-3
Salmo: 145 (144), 8-9, 15-16, 17-18
Segunda Leitura: Romanos 8, 35, 37-39
Evangelho: Mateus 14, 13-21



No XVIII Domingo do Tempo Comum a Igreja convida-nos a revisitar um dos mais conhecidos milagres de Jesus, que, por ser tão extraordinário e de tão grande relevância, é o único relatado pelos quatro Evangelistas. Falamos do milagre da «multiplicação dos pães».

 

Deus alimenta o Seu povo

Vejamos o que nos diz hoje o Evangelho de S. Mateus:

Naquele tempo, quando Jesus ouviu dizer que João Batista tinha sido morto, retirou-Se num barco para um local deserto e afastado. Mas logo que as multidões o souberam, deixando as suas cidades, seguiram-n’O por terra. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de compaixão, curou os seus doentes. Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Este local é deserto e a hora avançada. Manda embora toda esta gente, para que vá às aldeias comprar alimento”. Mas Jesus respondeu-lhes: “Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer». Disseram-Lhe eles: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes». Disse Jesus: «Trazei-mos cá». Ordenou então à multidão que se sentasse na relva. Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção. Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos, e os discípulos deram-nos à multidão. Todos comeram e ficaram saciados. E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos. Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

Neste episódio, começamos por ver Jesus a querer recolher-se, triste pela morte de João Baptista. Sai num barco, mas, mesmo assim, as multidões continuam a segui-l’O. No entanto, Jesus não se fecha na Sua tristeza e continua a servir. Na Sua infinita bondade, sabe o que aquela gente precisa. Cura os doentes e, no fim do dia, provavelmente exausto, chegando a hora do regresso a casa daquelas pessoas que vinham de longe, Jesus tem compaixão e insiste em distribuir o «pouco» que os discípulos conseguiram recolher. A compaixão de Jesus converte-se em cuidado real e concreto. Jesus abençoou o pouco e multiplicou-o, transformou-o em muito, em abundância, que foi partilhada e chegou para alimentar cinco mil homens (fora mulheres e crianças). Jesus alimentou a todos com tanta abundância que ainda sobrou.

O Senhor desafia-nos a desinstalarmo-nos e a, também nós, darmos o nosso pouco para que o Senhor o multiplique e o faça chegar a quem precisa de alimento, aos que têm fome, não só de pão, mas de cuidado, de atenção.

Relacionado com este Evangelho, há no Antigo Testamento um paralelo muito interessante, o episódio descrito em 2 Reis 4, 42-44, um primeiro milagre de multiplicação de pães para alimentar um grande grupo de pessoas, no qual o Profeta Eliseu alimenta 100 pessoas com apenas 20 pães:

Noutra ocasião, apresentou-se um homem de Baal-Salisa, que levava a Eliseu vinte pães de farinha nova de cevada e espigas de trigo novas no seu bornal. Eliseu disse ao seu criado para dar de comer ao grupo de profetas com o que aquele homem lhe tinha trazido. Mas o criado respondeu: «Achas que isto chega para cem homens?» Eliseu insistiu: «Dá-lhes isso para comer, porque o Senhor diz que dá para comer e ainda sobrará.» O criado então pôs a comida diante deles e, tal como o Senhor tinha dito, todos comeram e ainda sobrou.

Nestes dois episódios de multiplicação dos pães, facilmente encontramos elementos comuns: uma multidão com fome; algum pão, manifestamente insuficiente; uma ordem para que, mesmo assim, seja distribuído; a multiplicação milagrosa que alimenta todos; o poder de Deus manifestado num acontecimento sobrenatural; e, por fim, o alimento superabundante que a todos alimenta e que ainda sobra. Jesus faz o que Eliseu fez, mas com uma dimensão e uma profundidade infinitamente maiores. O Senhor, na Sua infinita bondade e generosidade, chama todos os necessitados, os que têm fome, sede ou não têm recursos, para que se aproximem e possam desfrutar de uma refeição abundante, garantindo-lhes o alimento, a subsistência, sem que para isso tenham de pagar. Jesus revela-se como fonte de vida e de alimento.

 

Um Banquete espiritual

Na Primeira Leitura, Isaías revela a palavra do Senhor que convida a todos a aproximarem-se para comer e beber de maneira totalmente gratuita e promete firmar com todos uma aliança eterna com todos os direitos concedidos pela aliança estabelecida com David, direitos inerentes ao dom da filiação divina. Trata-se de um banquete espiritual que proverá todas as necessidades.

Eis o que diz o Senhor: «Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas. Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei. Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite. Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta e o vosso trabalho naquilo que não sacia? [...] Prestai-Me ouvidos e vinde a Mim; escutai-Me e vivereis. Firmarei convosco uma aliança eterna, com as graças prometidas a David.»

Naturalmente, olhamos para este banquete milagroso como uma prefiguração do Banquete Celeste, no qual o Senhor alimenta a todos os necessitados e lhes oferece a recompensa pelos sofrimentos da vida terrena e a vida abundante e eterna. Como todas as promessas do Senhor, também a promessa de que nada nos faltará deve alentar as nossas almas.

Dar de comer aos que têm fome e de beber aos que têm sede, também nos remete para o Sermão das Bem-Aventuranças que S. Mateus também descreve: «Bem-aventurados os pobres […] bem-aventurados os que têm fome e sede […] porque serão saciados.»

Recuando no livro de Isaías (25, 6-8), a palavra do Senhor promete um grande banquete futuro, «um banquete de carnes gordas, acompanhadas de vinhos finos, carnes gordas e bem defumadas, vinhos finos e bem tratados» e no qual «[o] Senhor Deus aniquilará a morte para sempre, enxugará as lágrimas em todas as faces». Para este banquete serão convidados todos os povos, num banquete que prefigura a felicidade e a abundância de vida no Reino Celeste.

A Igreja escolheu esta passagem do Antigo Testamento para confirmar a raiz do Milagre da Multiplicação operado por Jesus e «anunciando» o milagre da Última Ceia em que Nosso Senhor, o Pão da Vida, Se oferece gratuitamente como alimento abundante e fonte de vida eterna para todos os que O procuram e amam.

Também os gestos de Jesus no Evangelho antecipam claramente os gestos da Última Ceia: Jesus «tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção. Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos». O banquete prometido por Isaías começa a revelar aqui o seu sentido mais profundo: Deus não oferece apenas alimento para o corpo, mas entrega-Se a Si mesmo como alimento para a vida do mundo. Na Eucaristia, Cristo continua a convidar todos os que têm fome e sede a aproximarem-se gratuitamente da mesa da Sua graça. O Pão repartido no deserto prepara o Pão vivo descido do Céu; a abundância do milagre anuncia a superabundância do amor de Deus, que, em cada Missa, renova a Nova e Eterna Aliança e sacia a fome mais profunda do coração humano.

 

Continuidade descontinuada

Ao refletirmos sobre os milagres de Jesus, as Suas intervenções e manifestações públicas, constatamos que existia em todos os seus gestos um cuidado de nunca confrontar ou contrariar a tradição religiosa nem os costumes enraizados nas Sagradas Escrituras e nos Profetas. Antes pelo contrário, Jesus assume a Sua missão partindo das raízes judaicas que formam a identidade do Povo de Israel como base para a Sua própria revelação como Messias, enviado por Deus, dando continuidade à tradição e aos costumes, cumprindo os preceitos e as leis, replicando eventos extraordinários relatados nas Escrituras mas, invariavelmente, ultrapassando, aperfeiçoando, renovando e conferindo a todas as Suas acções um grau de profundidade, um sentido moral e espiritual, até então desconhecido. Há uma linha que mantém a ligação à tradição e ao passado, dando-lhe continuidade, mas, ao mesmo tempo, uma ruptura que dá um novo sentido e relevância a todas as coisas.

Repare-se que Jesus celebrou a Páscoa obedecendo a todos os preceitos estabelecidos, celebrou-a como a celebrava todo o Povo Judeu desde Moisés, mas atribuiu-lhe um novo e muitíssimo mais profundo sentido. Jesus, ao alimentar os Seus discípulos, renovou com eles e com toda a Humanidade, a aliança que Deus havia estabelecido com David, selada não com o sangue de animais, como era o costume, mas com o Seu próprio sangue, o sangue do Cordeiro sem mancha, que Se sacrifica para restabelecer com os Homens, e pela derradeira vez, uma Nova e Eterna Aliança. O alimento que Jesus distribui no relato de S. Mateus, é a prefiguração do Seu próprio Corpo e Sangue dado em alimento, que confere vida em abundância.

 

Alimento para o corpo e para a alma

Os milagres de Jesus em geral, e este em particular, têm sempre, além do sentido literal, um sentido moral e espiritual. Com este milagre, aquelas pessoas, além de terem sido literalmente alimentadas, receberam um ensinamento valioso sobre a humildade, a temperança e o amor, como S. João Crisóstomo, refere numa das suas homilias sobre esta passagem do Evangelho:

O Senhor […] desejou não só que os seus corpos fossem alimentados, mas também que as suas almas fossem instruídas... Dando apenas pão e peixe, oferecendo a todos o mesmo alimento e partilhando-o, oferecendo o que tinha em igual medida, o Senhor ensinou a humildade, a temperança e o amor. Também os ensinou a serem alegres e bem dispostos uns para com os outros, e a possuírem todos os bens em comum [...] Fez com que os pães fossem ainda em maior número; não como pães inteiros, mas como fragmentos; para que os restos desses pães ainda alimentassem os ausentes, de modo a que pudessem ter conhecimento do que ali tinha acontecido. [...] Permitiu que as multidões passassem fome, para que ninguém viesse a julgar que aquele acontecimento tivesse sido uma ilusão.

 

A Ponte

Com o Salmo 145, a Igreja estabelece a ponte perfeita entre a Primeira Leitura e o Evangelho. Deus, cheio de amor e compaixão pelo Seu povo, cuida dele e alimenta-o nas suas necessidades concretas.

«Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome.» Com este Salmo somos inspirados a confiar em Deus e a dar-Lhe graças porque, na Sua infinita bondade, pela Sua generosidade e abundância de dons, está presente quando invocamos o Seu nome e vem em nosso auxílio, provendo sempre todas as nossas necessidades, mesmo as mais profundas, as do fundo da nossa alma, que Ele tão bem conhece e cuida.

Maravilhados, contemplamos como é, já por si, um milagre que Deus nos concede, o facto de podermos ver com clareza a unidade e absoluta coerência com que o Senhor nos quis «escrever» a História da Salvação, como os Profetas de há tantos séculos, de lugares tão díspares e épocas tão distintas, inspirados por Ele, nos foram anunciando com detalhe, a Sua vontade, a profundidade insondável do Seu amor por nós, as promessas de graças infinitas, a vida abundante para os que invocam o Seu Santo nome e para os que O amam. Demos graças a Deus, que se faz presente em tantos detalhes no decurso da nossa própria história e na nossa alma ao permitir que «vejamos» nesses detalhes o quanto Ele nos ama e quer. Passado longínquo que se faz Presente, milagres e ensinamentos que foram, são e serão alimento para a nossa alma, inspiração que nos conduz a um amor cada vez mais perfeito e, se quisermos, nos fará, a cada dia, um pouco mais semelhantes a Jesus.

Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 18th Sunday Ordinary time» de Brant Pitre e em «18th Sunday in Ordinary Time» em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsma.

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