XXII Domingo do Tempo Comum (Ano A). O Mistério da Cruz

Por: Francisca Corrêa Henriques

XXII Domingo do Tempo Comum (Ano A)

O Mistério da Cruz

 

Primeira Leitura: Jeremias 20, 7-9

Salmo: 62 (63), 2.3-4.5-6.8-9

Segunda Leitura: Romanos 12, 1-2

Evangelho: Mateus 16, 21-27

 

Neste Domingo, a relação entre o discipulado, seguir Jesus, e o mistério do sofrimento ou mistério da cruz é o tema central. O Evangelho leva-nos diretamente a algo que nos incomoda, que não faz sentido aos olhos do mundo e que tantas vezes nos esquivamos de referir. Sofrimento e morte são evitados a todo o custo, mas estão aí, bem presentes na vida de todos nós. E não há vida nenhuma com meios para os evitar. Enquanto cristãos, como devemos encarar este facto?

No seguimento da leitura do Evangelho do último domingo — o episódio da profissão de fé de Pedro em Cesareia de Filipe (Mt 16, 13-20) —, Jesus começa a explicar a cruz aos discípulos. Na pedagogia de Jesus, acrescenta-se à identidade gloriosa de Messias a indissociável identidade dolorosa do Servo sofredor. Começa com o primeiro anúncio da Paixão e Ressurreição e com a reação de Pedro:

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».

Mt 16, 21-23

A Cruz, escândalo para Pedro e caminho da Redenção

Repare-se que até os discípulos — e logo aquele que acabara de O confessar como «o Messias, o Filho do Deus vivo» (Mt 16, 16) —, reagem contra o sofrimento de Cristo. Na sua ânsia de O proteger, Pedro contesta o Mestre porque, no século I, a Cruz tinha uma conotação totalmente diferente da atual. Longe de ser o supremo símbolo de amor que hoje veneramos, ser crucificado era a forma mais cruel e humilhante de se morrer; um método de execução do Império Romano reservado apenas a escravos e aos piores criminosos. A par disso, o suplício e o fim trágico na cruz equivaleriam, na mentalidade do mundo, ao fracasso absoluto do Messias que vinha para reinar. Portanto, não é     desprovida de razão que a incompreensão frente aos planos divinos surge.

É deste modo que Pedro, a rocha sobre a qual Cristo edificou a Sua Igreja (cf. Mt 16, 18), se torna um obstáculo à missão de Jesus, uma “pedra de tropeço”. Pretendendo desviar o Mestre do Seu caminho, para O poupar à paixão e morte, o apóstolo transforma-se em instrumento da tentação. Contestar Jesus é opor-se ao modo escolhido por Deus para redimir a humanidade, libertando-a do pecado e da destruição. Por conseguinte, negar a entrega do Calvário significa impedir a Ressurreição, que é a consequência final e vitoriosa desse sacrifício de amor. Assim, o discípulo está, na realidade, a objectar contra a Redenção da criação. Pois o modo como o divino Filho de Deus veio à terra para nos resgatar foi precisamente através do sofrimento libertador da Sua Cruz.

Explica-se assim o modo severo como Jesus reage diante de Pedro. O que o apóstolo pôs em causa, representando o pensamento de todos os discípulos, foi a Salvação — missão do Filho.

Este episódio não é apenas um acontecimento do passado: interpela também cada um de nós. Somos chamados a reconhecer a importância da nossa conversão e da aceitação da vontade de Deus na nossa vida e na nossa relação com Ele — uma relação que deve ser sempre de confiança, obediência e fidelidade absolutas, mesmo frente aos maiores obstáculos e tentações.

Passamos agora à segunda parte do Evangelho e vemos como Deus, que tem o poder de converter o mal em bem, utiliza o erro de Pedro como oportunidade de aprendizagem para todos nós.

Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».

Mt 16, 24-27

A Cruz, o caminho do discípulo

Jesus inicia esclarecendo-nos como proceder para sermos Seus discípulos. Discípulo, em grego mathitís, significa estudante. Um estudante segue o Mestre não apenas compreendendo e aceitando o conhecimento teórico que este transmite, mas imitando-O na totalidade da sua vida.

Nas palavras de Jesus, as duas condições do discipulado são: a primeira, «renuncie a si mesmo» e, a segunda, «tome a sua cruz e siga-Me». A primeira exige a renúncia      a comportamentos egocêntricos e interesses pessoais, pondo primeiro e antes de tudo, entrega e doação da vida por amor. A segunda exige que sigamos atrás de Jesus carregando a nossa própria cruz, imitando-O na radicalidade do Seu amor.

Jesus, sem nunca recuar perante a Sua missão, dirige-Se para o Calvário, onde vai enfrentar a morte e entregar a Sua vida por todos nós. Contudo, a exigência de carregar a cruz não evoca o género de morte do discípulo, mas define o seu programa de vida, em qualquer circunstância e mesmo perante o mal. Um caminho voluntário, participando do Seu espírito e vivendo uma relação pessoal com Jesus, que nos acompanha sempre, mesmo na angústia.

O sofrimento e o mal humano não correspondem à vontade original de Deus. A própria existência terrena de Cristo revela esta verdade, sendo marcada não apenas pela dor, mas também por momentos de júbilo, convivialidade e banquetes festivos. Neste sentido, no Seu caminho de amor reside uma constante inabalável: a comunhão íntima com o Pai. É nesta união divina que se fundamenta a nossa verdadeira felicidade e salvação, sendo ela o garante de vida abundante e eterna.

O trecho prossegue com o paradoxo do discipulado afirmando que quem tenta salvar a sua vida, pondo-se a si mesmo primeiro, a perderá, mas quem a perder por causa d’Ele, a encontrará. Perder a vida por causa de Jesus é o mesmo que doar a vida terrena por Jesus e pelo Evangelho. Quem o faz não a perde, a vida eterna, mas salva-a. Afinal só Deus tem o poder de dar a vida.

Segue questionando a utilidade de ganhar todo o mundo material se for a custo da vida, referência clara à vida eterna. Perseguir prioritariamente os bens materiais ou tentar salvar obsessivamente a vida natural coloca em risco a vida sobrenatural no Reino e na eternidade. Não existe riqueza, dinheiro ou ouro no mundo que sejam suficientemente valiosos para comprar ou recuperar uma única alma humana. Seguir Jesus é gratuito no sentido da graça, mas exige tudo a nível espiritual: a entrega total do coração, da alma, da mente e das forças, até à morte.

O versículo final da passagem, reafirma o contexto escatológico: direciona o ensinamento para o Juízo Final, quando o Filho do Homem (2) vier na glória do Pai com os Seus Anjos. Nesse momento de justiça divina, Jesus recompensará e julgará cada um de nós em conformidade com as suas ações e com o que tiver feito em vida. A esperança na ressurreição e o foco no julgamento final são as razões pelas quais o discípulo não deve temer o sofrimento nem tentar reter a sua vida natural. Conservar a alma permite a participação na ressurreição dos mortos e na vida eterna do mundo vindouro.

O fogo da Palavra e o caminho da Cruz

A Igreja associa esta passagem do Evangelho ao lamento de Jeremias que lemos na primeira leitura      para reforçar a centralidade do sofrimento na resposta ao chamamento de Deus.

Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me dominastes e vencestes. Em todo o tempo sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim; porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.

Jr 20, 7-9

Jeremias exerceu o seu ministério num período de grande iniquidade, pouco antes da destruição de Jerusalém e da demolição do Templo. Ao cumprir a tarefa assustadora de denunciar os pecados do povo e anunciar a destruição da cidade, o profeta enfrentou perseguição, prisão, escárnio e tentativas de assassinato por parte dos líderes.

No seu sofrimento, Jeremias desabafa com Deus, confessando sentir-se enganado, ridicularizado e transformado num motivo de troça diária. Apesar de desejar abandonar a sua missão e não voltar a falar no nome de Deus, o profeta sente a Palavra divina como um «fogo ardente» encerrado nos seus ossos, sendo incapaz de a conter. Jeremias personifica a aceitação do sofrimento inerente à sua vocação (sua cruz), mostrando que o verdadeiro serviço a Deus exige sacrifício.

O percurso de Jeremias antecipa a própria trajetória de Jesus, que também entrará em Jerusalém, profetizará a sua queda e será morto pelos líderes que O rejeitaram. O paralelismo explica por que razão, em passagens anteriores (Mt 16, 14), o povo supunha que Jesus era o próprio Jeremias que tinha regressado. Jesus assume o papel de um "novo Jeremias", cruzando voluntariamente o caminho da dor para entregar de forma definitiva a verdade de Deus à humanidade.

Que a Santíssima Virgem Maria, Mãe do Salvador, modelo perfeito de docilidade à vontade divina, nos acompanhe como fez com o Seu Filho Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário. Que nos conceda a coragem de assumir a cruz por amor a Deus e ao próximo, cientes de que este sofrimento, redimido pela graça de Cristo, gera a vida nova da Ressurreição.

Nota:

(1) A palavra «escândalo», em grego skandalon, significa “pedra de tropeço”.

(2) Filho do Homem é expressão que Jesus utiliza para se referir a si mesmo. Originalmente significa simplesmente “homem”, “ser humano”. Aparece no Antigo Testamento em Dn 7,13-14 designando um ser celeste ao qual é dado o Reino de Deus.

Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 22nd Sunday Ordinary time» de Brant Pitre e em «22nd Sunday in Ordinary Time» em «The Word of The Lord - Reflections on the Sunday Mass Readings for Year A» de John Bergsma

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