XXIII Domingo do Tempo Comum (Ano A). Onde deixaste o teu irmão?

Por: Isabel Horta Correia

XXIII Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Onde deixaste o teu irmão?

 

Primeira Leitura: Ezequiel 33,7-9

Salmo: 95(94),1-2, 6-7, 8-9

Segunda Leitura: Romanos 13, 8-10

Evangelho: Mateus 18,15-20

 

Nas leituras de hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Deus pede-nos para sermos guardiães dos nossos irmãos, estabelecendo relações marcadas pela solicitude, pela responsabilidade e pela procura do verdadeiro bem de cada pessoa.

A primeira leitura, do livro de Ezequiel, fala-nos da correção fraterna, ou seja, da indicação de nos corrigirmos uns aos outros. Lemos assim:

«Eis o que diz o Senhor: “Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte. Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte. Se tu, porém, avisares o ímpio, para que se converta do seu caminho, e ele não se converter, morrerá nos seus pecados, mas tu salvarás a tua vida”»

Ezequiel, profeta e sacerdote, foi chamado por Deus para proclamar uma mensagem de conversão ao povo de Israel no século VI a.C., numa época em que o pecado se tinha generalizado em Jerusalém, que viria a ser destruída pelos Babilónios. Deus fala a Ezequiel, e constitui-o «…como sentinela na casa de Israel.», aquele que vigia e avisa do perigo. Como profeta, Ezequiel tem uma vocação especial de pregar a Palavra de Deus em tempo oportuno e inoportuno. A responsabilidade do profeta não consiste em garantir a conversão dos seus irmãos, esta pertence à liberdade de cada um, mas em nunca deixar de anunciar a verdade.

Esta leitura torna claro que além de sermos sempre responsáveis pela nossa resposta a Deus, também o somos pelos que vivem ao nosso lado. São Gregório Magno comenta: «Aquele que recebeu o ministério da palavra torna-se sentinela. Se vê aproximar-se o perigo e se cala, é como um vigia que dorme enquanto a cidade é atacada.»

S. Mateus, imediatamente a seguir às palavras de Jesus sobre a importância de não deixarmos ninguém para trás, expressas na parábola da ovelha perdida, vem no Evangelho de hoje, falar-nos de correção fraterna. Esta sequência não é acidental: indica que Jesus apresenta a correção dos nossos irmãos não como um processo jurídico, mas como um acto pastoral. Lemos em S. Mateus:

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganhado o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles»

Nesta passagem do Evangelho podemos dizer que a frase mais relevante é «…terás ganhado o teu irmão». Ou seja, terás encontrado a ovelha perdida. A caridade fraterna nasce do amor pelo outro, pelo reconhecimento de que ele é chamado à vida eterna e de que, para isso, o reconhecimento e o arrependimento das suas faltas são muito importantes. A correção é, por isso, sempre um acto de caridade e nunca julgamento.

Esta passagem do Evangelho insere-se num discurso de Jesus aos seus discípulos em que Jesus fala aos seus alunos, aos seus discípulos, aos homens que deixaram para trás a sua vida anterior para o seguir e aprender com ele. Quando Jesus diz: «Se o teu irmão te ofender…» não está a falar de dois irmãos numa família qualquer, mas sim de irmãos que pertencem à comunidade dos seus discípulos.

Os discípulos do Senhor, e todos nós, cristãos, estamos unidos a Cristo pela Eucaristia e vivemos numa comunhão que nos liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence. A      sua vida, a sua salvação, dizem respeito também à minha vida e à minha salvação. Este é um aspecto muito profundo da comunhão cristã: a nossa existência está ligada à dos outros, quer no bem, quer no mal. Por isso, a correção fraterna diz respeito ao cuidado pelo destino último de cada pessoa. É um serviço para que o nosso irmão possa crescer e caminhar com mais retidão diante do Senhor, reconhecendo a própria fragilidade.

Jesus apresenta um processo em três etapas, que visa levar quem errou ao caminho de comunhão com Deus e com os outros.

A primeira etapa é o que poderíamos chamar de correção fraterna individual: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós». Jesus deixa claro que a autêntica correção fraterna tem como objetivo não o dar a conhecer o erro, mas alimentar a esperança de que quem errou se arrependa. Por isso é um      acto de amor e cuidado pelo irmão.  Jesus aponta, a seguir, o segundo passo neste processo: «Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas». Jesus aqui usa uma linguagem jurídica, e faz uma clara alusão ao Antigo Testamento. Com efeito, no livro do Deuteronómio 19 lemos: «Um testemunho isolado não será suficiente contra uma pessoa, seja qual for o seu crime, a sua culpa ou o pecado de que for acusado; só com o depoimento de duas ou três testemunhas é que o caso será tomado em conta”. Jesus está a tornar normativo para o seio da Igreja um princípio já presente na vida de Israel. Se a tentativa do pequeno círculo da Igreja for ignorada e a pessoa permanecer recalcitrante ou impenitente, Jesus diz por fim: «comunica o caso à Igreja» e «se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano».

O que Jesus indica é que este eventual afastamento da comunidade deve ser provisório e que estes irmãos devem ser tratados como os gentios e os cobradores de impostos. Lembremos que no tempo de Jesus estes eram dois grupos excluídos da plena comunhão do povo de Deus: os gentios, que não podiam entrar no Templo porque eram considerados impuros, e os cobradores de impostos, que não podiam entrar no Templo por serem vistos como pecadores por extorquirem o povo judeu.

Contudo, Jesus relacionou-se com eles de forma muito diferente Em vez de os rejeitar, foi ao seu encontro para os trazer de novo para a comunhão. É desta forma que Jesus recomenda que sejam tratados aqueles que ainda não se arrependeram e que precisam de ser evangelizados e chamados à conversão.  Lembremo-nos de que Jesus foi ao encontro do cobrador de impostos, Zaqueu, e disse «Hoje tenho de ficar em tua casa». A identificação daqueles que estão em falta e afastados não é o fim do caminho, mas apenas o seu começo.

Neste contexto, podemos compreender o que Jesus diz a seguir: «Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.”. Jesus usou esta mesma expressão quando deu a Pedro, e só a Pedro, as chaves do reino dos céus, conferindo-lhe a primazia de Pedro entre os apóstolos (Mt 16:19). Essa primazia permanece e distingue o ministério de Pedro do dos restantes Apóstolos. Agora, neste discurso sobre a Igreja, Jesus concede também aos outros discípulos a autoridade de «ligar e desligar», tornando-os participantes da sua missão de ensinar, governar e santificar o povo de Deus.

Que autoridade está a ser concedida por Jesus aos discípulos? O Catecismo da Igreja Católica, no n.º 553, ajuda-nos a compreender que o poder de «ligar e desligar» concedido por Jesus aos Apóstolos se manifesta em três dimensões: Em primeiro lugar, refere-se à autoridade para reconciliar os homens com Deus através do sacramento da confissão, isto é, ao poder de      perdoar os pecados. Em segundo lugar, refere-se à sua autoridade doutrinal. A imagem de «ligar e desligar» mostra que têm a autoridade de Cristo para ensinar autenticamente e formular juízos em matéria de fé e de moral. E, por fim, inclui também o poder disciplinar. A linguagem de «ligar e desligar» também se refere a decisões disciplinares, como no caso extremo de excomunhão. Se aquela pessoa já não está em plena comunhão com a Igreja, pode, por isso, ser impedida de receber sacramentos, ou de exercer determinadas ações eclesiais no seio da Igreja, até que a comunhão seja restaurada.

Nos dois últimos versículos do evangelho de hoje lemos: «Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» A palavra que o evangelista usa para «se unirem na terra» é symphōnēsōsin, da qual deriva a nossa palavra «sinfonia». Como dizia o Papa Bento XVI, trata-se de uma verdadeira «sinfonia» de corações. A harmonia, a concordância e a unidade que existem entre as três Pessoas da Santíssima Trindade tornam-se, de algum modo, um modelo para a nossa oração comum. Quando nos unimos para rezar com o mesmo espírito e em nome de Cristo, Ele próprio prometeu estar presente no meio de nós. É essa presença de Cristo que torna tão eficaz a oração feita em comunhão.

 

O Salmo de hoje, o Salmo 95 tem o célebre refrão: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.». A advertência só cumpre o seu fim quando é recebida como um apelo à conversão, o que implica escutar a voz de Deus e não endurecer o coração. Como vimos tanto no Evangelho como em Ezequiel, o foco é o arrependimento,      chamar o outro para a graça e à conversão. Muitas vezes, o maior impedimento à conversão não é o pecado em si, mas a dureza de coração. Todos erramos e pecamos ao longo da vida, mas Jesus vem-nos repetir vezes sem conta que o importante é      reconhecer a culpa e arrepender-se. Desde Adão e Eva que «A voz do Senhor percorre o jardim» à procura do homem, convidando-o a reconhecer o seu pecado e a regressar à comunhão com Deus. É esta a mensagem repetida neste salmo.

Por fim, na segunda leitura, S. Paulo diz-nos «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros». A verdade de Deus é inseparável do amor. Deus não nos ama porque somos amáveis e dignos desse amor, nem porque o merecemos. O Seu amor é tão grande que abraça a nossa fragilidade e a nossa imperfeição. Por isso, para podermos corrigir o nosso irmão, precisamos sempre de ter um olhar que ama e por isso corrige, que conhece e perdoa, como Deus faz com cada um de nós. A correção é, assim, como nos diz Santo Agostinho, «um amor à pessoa e um ódio ao vício».


Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 23nd Sunday Ordinary time» de Brant Pitre

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