Exaltação da Santa Cruz (Ano A)

Por: Padre Paulo Araújo

Festa da Exaltação da Santa Cruz

A Exaltação da Santa Cruz é celebrar a Loucura do Amor de Deus

 

Primeira leitura: Num 21, 4b-9 OU Filip 2, 6-11

Salmo: 78 (77), 1-2, 34-35, 36-37, 38

Evangelho: Jo 3, 13-17

 

Porque é que exaltamos uma cruz?

Hoje a Igreja celebra uma festa que, vista de fora, parece uma contradição. Vamos levantar bem alto um instrumento de morte e dizer: este é o nosso orgulho, a nossa glória.

Se alguém pendurasse ao pescoço uma forca, uma guilhotina ou uma cadeira elétrica, diríamos que é mórbido. Ninguém enfeita um instrumento de tortura. E, no entanto, não estranhamos a cruz nas igrejas, nas casas, ao pescoço.

É que a cruz foi um dos suplícios mais cruéis da história, abolida só em 315 d.C. porque até os romanos a achavam desumana. E é exatamente aí que está o coração da fé: para nós, a cruz não é só morte. É o trono onde o Rei venceu. É o altar do Cordeiro. É o abraço mais apertado que Deus deu à humanidade.

A partir do século IV, a cruz tornou-se o símbolo dos cristãos, porque o que é especificamente cristão é o amor levado até ao extremo. E é isso que Jesus diz a Nicodemos: "Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito. Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do Homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n'Ele a vida eterna" - Jo 3,14-16.

Essa serpente elevada é a primeira leitura de hoje: Nm 21, 4b-9.

 

I - Números 21: O Povo cansado e a Cura pelo Olhar

O povo tinha saído do Egito, atravessado o Mar Vermelho, visto milagres, comido o maná do céu, bebido água da rocha. E mesmo assim, o texto diz: «o povo perdeu a coragem pelo caminho».

É tão humano. Começas cheio de fé e, no deserto, no cansaço, no calor, na solidão, esmoreces. E começas a queixar-te. A queixa é perigosa porque faz-te esquecer tudo o que Deus já fez e olhar só para o problema.

Eles dizem: «Porque nos fizeste sair do Egito para morrermos no deserto? Já nos causa fastio este alimento miserável.» Chamam ao maná, pão do céu, alimento miserável. A ingratidão tomou conta do coração. Preferiam a escravidão conhecida à liberdade prometida.

Como Deus é um Senhor, um gentleman, não impõe o amor. O amor só pode ser dado e recebido livremente. Quando o povo se fecha, Deus, por assim dizer, sai de cena. E o povo fica entregue à sua fragilidade. O texto diz que «o Senhor mandou serpentes venenosas». Não leias isto como crueldade. Naquela região havia muitas víboras. O que o texto ensina é que quando nos afastamos de Deus, expomo-nos ao veneno. O pecado é como serpente: injeta veneno, mata aos poucos.

Mordidos, eles fazem o primeiro passo da cura: «Pecámos, ao falar contra o Senhor e contra ti. Intercede por nós.» Enquanto não reconheces que estás doente, não procuras o médico.

Moisés intercede. Não diz «eu avisei». Reza. Leva o povo até Deus.

E Deus responde de forma surpreendente. Não tira as serpentes. Diz: «Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido e olhar para ela ficará curado.»

Repara: Deus transforma o instrumento de morte em instrumento de cura. O veneno é vencido pelo símbolo do veneno.

E o que era preciso fazer? Só olhar. Não era preciso grande penitência nem subir montanha. Olhar era um ato de fé. No meio da dor, com o veneno a correr, tinhas de escolher: ou ficavas a olhar para a ferida ou levantavas os olhos para a serpente e confiavas na palavra de Deus.

Quantos de nós ficamos a olhar para as feridas, a remoer problemas, em vez de levantar os olhos? A cura começa quando mudas o olhar: deixas de olhar para a tua miséria e levantas os olhos para a misericórdia.

E atenção a um detalhe precioso: em hebraico, na língua de Jesus, curar e salvar é a mesma palavra. Por isso lemos: «quem olhar ficará curado/salvo». A serpente de bronze era só figura, sinal que apontava para alguém maior. Esse alguém é Jesus.

 

II - João 3, 13-17: O Filho do Homem Elevado

Vamos agora ao Evangelho. Jesus explica a Nicodemos:

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos:
Ninguém subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem.
Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado,
para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna.
Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele».

Primeiro: «Ninguém subiu ao céu a não ser Aquele que desceu». Jesus diz que pode falar do céu com autoridade porque vem de lá. Não dá palpites. Ele conhece o Pai. É o Filho. A nossa fé não é teoria inventada por homens. É encontro com quem desceu.

E chama-se Filho do Homem. Fez-se um de nós. Assumiu a tua humanidade, as tuas dores, lágrimas.

Depois: «Como Moisés levantou a serpente». Jesus diz: aquilo era figura de Mim. Eu também vou ser levantado. E quem olhar para Mim com fé será salvo.

A palavra «levantado» em João tem duplo sentido: levantado na cruz, na ressurreição e na ascensão. Mas aqui aponta para a cruz. Ele sabe o que O espera e aceita livremente.

A serpente curava o veneno físico. Jesus cura o veneno espiritual, o pecado. Como a serpente, símbolo de maldição, se tornou cura, a cruz, instrumento de maldição – Deuteronómio diz «maldito quem é pendurado no madeiro» – torna-se bênção. Jesus assume a tua maldição para te libertar. O madeiro da morte torna-se árvore da vida.

E qual é o objetivo? «Para que todo aquele que n'Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.» Vida eterna não é só vida que não acaba. É vida cheia de Deus, que começa aqui e dura para sempre. Como se recebe? Pela fé. Fé é o olhar da alma. Como os olhos do corpo olhavam a serpente, os olhos da alma olham Jesus crucificado.

 

III - A LOUCURA DO AMOR

E chegamos ao coração: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito».

A palavra «tanto» indica intensidade imensa. E a quem amou? O mundo. Não os perfeitos. O mundo envenenado, mordido, perdido. Foi esse mundo que Deus amou. E como? Dando o Filho. Não deu uma coisa, deu-Se a Si mesmo.

O que há de mais precioso para um pai? O filho. E Deus entregou o único por ti, não porque merecias, mas porque Ele é amor. Gratuito. Dom. Foi quando ainda eras pecador, como diz Romanos 5,8.

E Deus não enviou o Filho para condenar, mas para salvar. Muita gente tem medo de Deus como juiz severo à espera de castigar. Este texto desmonta isso. A condenação não vem de Deus. Vem da recusa do amor. Deus oferece salvação. Se não aceitas, és tu que te fechas.

Porque é que isto é loucura?

  1. Loucura de um Deus que Se rebaixa. O Criador vem como criança pobre, servo, e chega ao ponto máximo na cruz: o que sustenta o universo deixa-Se pregar, a Vida experimenta a morte, a Luz mergulha nas trevas. Na lógica do mundo, o forte domina. Deus escolhe a fraqueza. S. Paulo: «Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para judeus, loucura para pagãos» (1 Cor 1, 23).
  2. Loucura de um Deus que Se entrega. Não Se defendeu, não chamou legiões de anjos. Entregou-Se.
  3. Loucura de um Deus que transforma maldição em bênção. A tua cruz, que parece derrota, Deus pode transformar em vitória.
  4. Loucura de um Deus que ama sem medida, sem condições, primeiro.

 

IV - Exaltar a Cruz Hoje

O que significa exaltar a cruz?

Não é só pendurar cruz na parede ou usar crucifixo.

É mais:

Exaltar a cruz é acreditar que és amado. Que tens valor. Que não és acaso. Deus deu o Filho por ti. Quantos vivem sem saber que são amados, em desânimo, depressão, achando que a vida não tem sentido? A cruz diz: és precioso.

Exaltar a cruz é confiar. Como no deserto, precisas de olhar para Jesus e confiar, mesmo quando não entendes, mesmo quando a cruz pesa. Quem confia, é salvo.

Exaltar a cruz é seguir. Jesus disse: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.» (Mt 16,24) Cada um tem a sua: doença, dor na família, filho afastado, casamento difícil, solidão, medo. A tua cruz não é castigo. É caminho.

Exaltar a cruz é amar. «Amai-vos como Eu vos amei.»(Jo 15,12) Como Ele amou? Até ao fim, sem medida. És chamado a viver essa loucura: perdoar quem não merece, dar-te sem esperar retorno. Quando perdoas, vives a loucura de Deus. A maior exaltação é quando a tua vida se torna cruz de amor.

No deserto, Deus levantou a serpente e quem olhava ficava curado. Na cruz, Deus levantou o Filho e quem acredita tem vida eterna. O que era sombra tornou-se luz.

Hoje, olha para a cruz. Vê os braços de Jesus abertos a dizer: vem, meu filho, Eu amo-te, espero-te. Deixa esse amor curar-te.

E que a cruz seja para ti o sinal da vitória, o trono do amor, a fonte da vida e a esperança da ressurreição.

Ámen.

 


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