XXV Domingo do Tempo Comum (Ano A). Serão maus os teus olhos porque sou bom?

Por: Mafalda Moncada Cordeiro

XXV Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Serão maus os teus olhos porque sou bom?

 

Primeira leitura: Isaías 55, 6-9

Salmo: 145 (144), 2-3, 8-9, 17-18

Segunda leitura: Filipenses 1, 20c-24, 27a

Evangelho: Mateus 20, 1-16a

 

Neste Domingo, Jesus continua a falar-nos no reino dos Céus e, mais concretamente, da generosidade de Deus e da recompensa de viver uma vida a Ele dedicada. A passagem que escutamos neste Evangelho surge no seguimento de uma inquietação de Pedro: «Nós deixámos tudo e seguimos-Te. Qual será a nossa recompensa?». Lemos o seguinte:

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: “Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?. Eles responderam-lhe: Ninguém nos contratou. Ele disse-lhes: Ide vós também para a minha vinha. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor. Mas o proprietário respondeu a um deles: Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.»

Um proprietário que procura trabalhadores para a sua vinha. Neste tempo seria frequente encontrar trabalhadores à jornada. Quando recrutados, só terminavam de trabalhar quando o Sol se punha, devido à ausência de luz. Durante o dia, este proprietário visita a praça em busca de trabalhadores cinco vezes, sendo a primeira ao romper da manhã e a última por volta das cinco da tarde. 

Tal como este proprietário, Deus não se cansa de chamar. Sai repetidamente ao encontro dos homens e oferece a cada um uma missão. Ninguém é inútil aos Seus olhos e nunca é tarde para responder ao Seu convite. A vinha pode ser aqui interpretada como símbolo da Igreja, do reino dos Céus na terra. Nesta linha, os trabalhadores representam todos os que Deus chama, em diferentes momentos, a colaborar na Sua obra. 

Como diz São Gregório Magno: «Para instruir o seu povo, como que para cultivar sua vinha, o Senhor em tempo algum deixou de enviar operários; pois tanto primeiro pelos patriarcas, e depois pelos doutores da Lei, em seguida pelos profetas, e por fim pelos apóstolos, como que por operários, trabalhou no cultivo da vinha; embora em qualquer modo ou medida, todo aquele que agiu com fé recta foi operário desta vinha.» (1)

  1. Um redireccionar de olhos

Tal como em todas as parábolas que Jesus conta, há sempre algo de inesperado. Neste caso, no fim do dia de trabalho, o senhor da vinha paga um denário a cada trabalhador. Um denário tanto ao trabalhador que fez um turno de doze horas, muitas delas ao calor tórrido, como ao trabalhador que fez um turno de apenas uma hora ao entardecer. Como seria de esperar, os primeiros trabalhadores sentem-se lesados. Aos seus olhos, parece injusto que aqueles que trabalharam apenas uma hora recebam o mesmo que eles. 

A resposta do proprietário da vinha é desconcertante. Este responde que não é injusto para os primeiros trabalhadores por três razões. Primeiro, o preço foi acertado no momento em que tinham sido chamados. Depois, o dinheiro é seu e pode usá-lo como quiser. Por fim, o proprietário responde com uma pergunta: «ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?». 

Neste último ponto, Jesus utiliza uma imagem bíblica para denunciar a inveja. O trabalhador não sofreu qualquer prejuízo; entristece-se, porém, porque outro recebeu um bem com menor esforço. A inveja espiritual nasce precisamente quando o bem concedido ao próximo é vivido como se fosse uma perda pessoal. E é precisamente neste ponto que Jesus põe o dedo na ferida. Se, em vez de adoptarmos o ponto de vista dos primeiros trabalhadores, nos colocarmos no lugar daqueles homens que passaram todo o dia à espera de trabalho e que, quando achavam que não o conseguiriam, foram finalmente chamados, a nossa resposta muda totalmente.  Começamos a ver que, na verdade, o senhor da vinha não foi injusto, mas tremendamente generoso e caridoso. Os primeiros trabalhadores, em vez de se alegrarem com o bem concedido aos outros, focam-se na sua recompensa, que não lhes parece à altura. Ser chamado para trabalhar é um privilégio que estes homens não compreendem, tal como o propósito do seu trabalho. 

Jesus revela-nos que a relação com Deus não deve ser vivida como uma contabilidade de méritos: porque trabalhei mais, recebo mais. Quem recebeu a graça primeiro não perde nada porque o outro também a recebe. 

  1. Os últimos serão os primeiros

A lógica dos primeiros trabalhadores relaciona-se também com o facto dos últimos serem os primeiros a receber. Recebem primeiro simplesmente porque o que conta para receber a recompensa é, sobretudo, a humildade, a fé e o amor. São João Crisóstomo explica que os primeiros se tornam os últimos quando deixam entrar a inveja do bem dos outros no seu coração (3). Os trabalhadores da vinha do Senhor tanto podem ser aqueles que no início corresponderam e depois desprezaram a virtude, como os que mais tarde se afastaram da maldade. A parábola serve também, portanto, para avivar o zelo pela graça recebida. 

É muito fácil ter inveja espiritual, inveja das recompensas que Deus dá aos outros. Quando olhamos para o outro e nos entristecermos pelo seu bem, por aparentemente Deus o ter abençoado em maior medida, estamos a ser como os primeiros trabalhadores. 

O que esta parábola nos mostra é, não a injustiça de um senhor, mas a radicalidade da generosidade de Deus. Deus é tão generoso que nos pode parecer injusto em alguns casos. Só precisamos de um olhar diferente para romper com esta primeira vista, um olhar guiado por Deus. O facto de os últimos permanecerem na praça porque «ninguém os contratou» também nos recorda a dignidade daqueles que procuram trabalho e não o encontram. 

A parábola recorda-nos que a pessoa humana vale mais do que a sua produtividade. A sua dignidade não depende simplesmente do trabalho que consegue realizar. O denário simboliza a salvação, dom gratuito de Deus, oferecido tanto aos que chegam cedo como aos que se convertem no final da vida. Não há maior recompensa do que o Reino dos Céus e quem trabalha para Ele recebê-la-á. 

A generosidade de Deus é também evidenciada quer na primeira leitura quer no salmo deste Domingo. Os nossos pensamentos não são os de Deus; o Seu Reino inverte completamente as nossas expectativas sobre o que nos é devido. Na primeira leitura ouvimos isso mesmo: «Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus […]. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos.» A primeira leitura chama à conversão do nosso olhar e o salmo une esse novo olhar à grande misericórdia de Deus: «O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.»

O Papa Francisco, meditando sobre esta passagem do Evangelho, diz: «Com esta parábola, Jesus quer abrir o nosso coração à lógica do amor do Pai, que é gratuito e generoso. Trata-se de nos deixarmos surpreender e fascinar pelos “pensamentos” e pelos “caminhos” de Deus que, como recorda o profeta Isaías, não são os nossos pensamentos, não são os nossos caminhos (cf. Is 55, 8). Os pensamentos humanos são muitas vezes marcados por egoísmos e interesses pessoais, e as nossas veredas estreitas e tortuosas não são comparáveis com os caminhos largos e rectos do Senhor. Ele é misericordioso – não nos esqueçamos disto: Ele é misericordioso – perdoa amplamente, está cheio de generosidade e de bondade, que derrama sobre cada um de nós, abrindo a todos os territórios ilimitados do seu amor e da sua graça, os únicos que podem conferir ao coração humano a plenitude da alegria.» (4)

  1. E a minha recompensa?

Olhando para outras parábolas, surge uma dúvida pertinente, pois parecem existir diferentes recompensas na vida eterna, como na parábola dos talentos. Santo Agostinho explica que a grande recompensa será igual para todos, mas que os mais virtuosos poderão tirar mais proveito (5). Embora todos participem da mesma bem-aventurança, essa participação pode ser diversa, segundo a medida do amor e da caridade de cada um. A salvação não é um prémio reservado aos que começaram mais cedo, mas um dom da graça acolhido na fé, no amor e na perseverança. Há sempre lugar para aqueles que vêm ao Senhor com um coração contrito. 

São Josemaria Escrivá pregou: «Então, quando vos sentirdes chamados a corresponder, mesmo que seja à última hora, podereis continuar na praça pública a apanhar sol, como muitos daqueles operários, porque lhes sobrava tempo?» (6)

Portanto aceitemos o convite de Deus, seja qual for a hora da vida. O dono da vinha sai continuamente ao encontro das pessoas. A pergunta decisiva não é «a que horas fui chamado?», mas sim «estou disposto a entrar hoje na vinha do Senhor?». Deus continua a sair ao nosso encontro e a chamar-nos a servir com amor, sem comparações, e não apenas para receber reconhecimento. A comparação é inimiga da felicidade. Que saibamos agradecer a graça que recebemos, alegrar-nos com a graça concedida aos outros e confiar na generosidade daquele que é sempre justo e infinitamente bom.

 

(1) São Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, cap. 20, v. 1-16 (citando São Gregório Magno, Homiliae in Evangelia, Hom. 19).

(2) São Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, cap. 20, v. 1–16 (citando [Pseudo-]São João Crisóstomo, Opus Imperfectum, Hom. 34).

(3) São Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, cap. 20, v. 16 (citando São João Crisóstomo, In Matthaeum, Homilia 64/65).

(4) Papa Francisco, Angelus, 24 de setembro de 2017.

(5) São Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, cap. 20, v. 9 (citando Santo Agostinho, De Sancta Virginitate, cap. 26)

(6) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n.º 42.


Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 25th Sunday Ordinary time de Brant Pitre.

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