II Domingo da Quaresma (Ano A). A certeza de Deus

Por: Isabel Horta Correia

Primeira leitura: Génesis 12:1-4a
Salmo: 33 (32):4-5, 18-19, 20, 22
Segunda leitura: 2 Timóteo 1:8b-10
Evangelho: Mateus: 17:1-9


No II Domingo da Quaresma, a Igreja convida-nos a subir com Jesus ao monte da Transfiguração para que, contemplando a sua glória, possamos preparar o coração para o mistério da Sua Paixão, fazendo nós também o caminho dos discípulos de então. No Evangelho de São Mateus lemos:

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

Iniciado o caminho quaresmal, somos chamados a parar, a subir ao monte do silêncio e da oração, para deixar que Deus nos revele a verdade mais profunda da nossa vida. Jesus leva consigo apenas três discípulos, os mais próximos, recordando-nos que a intimidade com Deus nasce da proximidade, da escuta e da confiança.

No alto do monte, tudo se transforma. Jesus transfigura-Se. A origem grega do verbo transfigurar verbo é metamorphoō, de onde vem o termo “metamorfose”, que significa uma mudança radical. A luz que brota do rosto de Cristo não vem de fora, mas do Seu próprio ser: é a glória do Filho amado, que deixa entrever, por um instante, a beleza do Céu escondida na humanidade de Jesus. Antes da escuridão da Cruz, os discípulos recebem esta luz como promessa: o sofrimento não terá a última palavra.

No alto do monte, os discípulos contemplam Jesus envolto na luz divina e, nessa mesma luz, reconhecem-No na voz do Pai que proclama: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência.» Esta revelação grava no coração dos discípulos um instante de certeza, uma íntima experiência da presença de Deus, que os preparará para atravessar a escuridão da Paixão que se aproxima. Mais tarde, poderão recordar, quando se sentirem perdidos, que já tinham visto com clareza a Verdade e que essa certeza será mais forte do que as dificuldades que enfrentarão, o pecado e até a própria negação do que tinha visto.

Também na nossa vida Deus concede momentos de luz, silenciosos mas firmes, nos quais a fé se torna confiança sem limites. Mesmo quando não compreendemos o que vivemos ou vemos no mundo, permanece a certeza de que Ele está connosco. A luz de Cristo, luminosa como o sol, recebida nesses instantes de graça, não pode ser vencida pela dureza da vida ou pelas sombras do pecado, próprio ou alheio; permanece acesa no íntimo do coração e sustenta-nos na noite.

Por isso, tocados, ainda que apenas por um instante, pela glória divina, os discípulos reconhecem que ali se cumpre o desejo mais profundo da alma e dizem: «Senhor, como é bom estarmos aqui!» No Céu, cada instante é bom!

Será interessante interrogarmo-nos sobre a razão que leva Jesus, ao revelar a sua divindade no momento da Transfiguração, o fazer na companhia de Moisés e de Elias. Estes, como vemos no Antigo Testamento, nos livros do Êxodo e dos Reis, respetivamente, tiveram um encontro singular com Deus no monte Sinai e vislumbraram, ainda que por um instante apenas, a Sua glória.

A presença destas duas figuras na Transfiguração é particularmente significativa, pois ambas apontam para o mistério da Ressurreição. Elias foi arrebatado vivo para o Céu, tornando-se sinal de esperança eterna; a sua aparição reforça a fé na vida após a morte. Quanto a Moisés, não encontramos na História sagrada um relato semelhante, mas, ao contrário do que sucede com os restantes os patriarcas, a localização da sua sepultura permanece desconhecida. Este facto remete, simbolicamente, para a ideia de um “não-túmulo”, evocando já o mistério do túmulo vazio de Jesus.

Assim compreendemos melhor a presença destas duas personagens no momento decisivo da Transfiguração: as suas experiências próximas da glória de Deus e o modo como terminaram a sua passagem por esta terra apontam profeticamente para a Ressurreição de Jesus.

À luz da tradição bíblica de Israel, tornam-se claros vários paralelos entre a Transfiguração de Jesus no Monte Tabor e os relatos do Antigo Testamento sobre Moisés no Sinai. O livro do Êxodo narra que Moisés sobe ao monte e, ao sétimo dia, leva consigo três dos seus mais próximos companheiros: Aarão, Nadabe e Abiú. De modo semelhante, Jesus, seis dias depois de anunciar aos discípulos as exigências da sua missão, sobe ao Monte Tabor levando Pedro, Tiago e João.

Quando Moisés desce do Sinai, trazendo as tábuas da Lei, o Êxodo afirma: «Moisés não sabia que da pele do seu rosto saíam raios de luz por ter falado com Deus.» (Gen 34:29) No Evangelho, porém, é o próprio rosto de Jesus que se ilumina na Sua glória – «o seu rosto ficou resplandecente como o sol».

Também a nuvem da glória divina acompanha ambos os acontecimentos. No Sinai, a nuvem da glória do Senhor desce sobre a montanha. Na Transfiguração, «uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra» e para os discípulos, formados na tradição de Israel, o descer da nuvem da glória revelava que estariam na presença do próprio Deus e, por isso, «caíram de rosto por terra e assustaram-se muito».

Tal como Deus falou a Moisés a partir da nuvem, assim agora a voz do Pai se faz ouvir: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O!»

Na Transfiguração contempla-se também a revelação do mistério da Trindade. O Catecismo da Igreja Católica, no ponto 555, ensina que este é um dos momentos mais luminosos dessa manifestação divina: o Pai faz ouvir a sua voz, o Filho revela a Sua glória no rosto transfigurado e o Espírito Santo torna-se presente na nuvem luminosa que envolve o monte, como outrora nas imagens bíblicas da nuvem e do fogo.

No entanto, a visão da glória não é ainda o termo do caminho. É preciso descer do monte, porque ainda não chegou o tempo de permanecer plenamente na luz da Trindade. A Transfiguração é apenas prenúncio da glória futura; antes dela, Jesus terá de subir outra montanha, a do Calvário. Por isso conduz os discípulos na descida e ordena-lhes: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
Ainda não podiam compreender o mistério da Ressurreição, vitória definitiva sobre a morte, que daria pleno sentido à luz contemplada no monte.

Por sua vez, na primeira leitura (Génesis 12:1-3) escutamos:

Naqueles dias, o Senhor disse a Abraão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra». Abraão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.

O chamamento de Abraão inaugura o caminho da fé que confia na promessa de Deus sem ver ainda o seu cumprimento. Ora, essa mesma fé é confirmada no Evangelho da Transfiguração, onde os discípulos recebem a visão da glória de Cristo para aprenderem a confiar n’Ele mesmo quando o caminho os conduzir à Cruz.

Esta passagem do livro do Génesis marca uma mudança decisiva na História da Salvação: Deus manifesta-se pessoalmente um homem e a sua fidelidade será fonte de bênçãos para toda a Humanidade.

Vindo de Ur, terra pagã onde a identidade estava ligada ao grupo e aos deuses da cidade, o gesto de Abraão torna-se verdadeiramente novo: na liberdade de um só homem começa a História da Salvação. A sua resposta é um abandono confiante, semelhante ao que mais tarde expressará ao afirmar que Deus providenciará. Mesmo sem compreender o caminho, Abraão continua a acreditar. Abraão, nosso pai na fé, confia em Deus sem ter qualquer ideia do que vai acontecer, mesmo quando o plano de Deus parecia não ter qualquer significado. Confia, mesmo quando pareciam estar em causa todas as promessas anteriormente recebidas.

Nesta fé sem limites já se entrevêem as promessas da aliança feitas a Abraão no capítulo 12 do Génesis: uma terra que aponta para um destino eterno, uma descendência aberta a todos os povos e uma bênção que anuncia a redenção de toda a Humanidade. Essa promessa cumpre-se plenamente em Jesus Cristo, descendente de Abraão, que conduz todos os homens à vida eterna e à glória de Deus.

Assim, o caminho iniciado por Abraão ilumina o caminho dos discípulos no monte da Transfiguração – e também o nosso: confiar em Deus antes de O ver e caminhar sustentados apenas pela Sua promessa, até que a Sua glória se revele em plenitude.

Texto baseado em Mass Readings Explained – 2nd Sunday in Lent (Year A), Brant Pitre, e em homílias pregadas pelo Padre João Seabra.

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