
Primeira leitura: Act 2:14, 22-23
Salmo: Sl 15 (16), 1-2a, 5, 7-8, 9-10, 11
Segunda leitura: 1 Pd 1:17-21
Evangelho: Lc 24:13-35
No Evangelho deste Domingo, regressamos ao Domingo de Páscoa, mais concretamente à tarde desse mesmo dia, acompanhando dois discípulos que deixam Jerusalém e se dirigem a uma aldeia próxima, chamada Emaús. Trata-se de um dos relatos mais profundos do Evangelho de São Lucas.
A chama que acende.
Jesus aproxima-Se destes discípulos e põe-Se a caminho com eles. Eles não O reconhecem, não por ignorarem o Seu aspecto, mas porque estavam impedidos de O reconhecer. Como observa São Gregório Magno, o Senhor realizou exteriormente, nos olhos do corpo, aquilo que neles se passava interiormente, nos olhos do coração.
Enquanto caminham, os discípulos discutem os acontecimentos dos últimos dias em Jerusalém. Quando Jesus mostra interesse, param, entristecidos: o choque torna transparentes os seus corações. A palavra grega usada para caracterizar esta tristeza exprime uma dor avassaladora: nos seus rostos é visível uma verdadeira paralisia da alma (1).
«Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias». Jesus, o único que sabe realmente o que se passou: que redimiu o mundo através da Sua paixão, morte e ressurreição. Poderia ter-Se simplesmente revelado e dissipado todas as dúvidas; mas escolhe continuar a caminhar com eles, abrindo-lhes o Seu coração e entrando no deles com curiosidade e amor. Como verdadeiro pedagogo, não oferece respostas prontas: caminha com eles, compreende o coração ferido e prepara a revelação.
Os corações abrem-se, de facto, porque se torna claro que estes dois homens, mergulhados em tristeza e decepção, perderam a fé em Jesus como Messias e O tomam agora apenas como «Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo». O caminho que fazem é um caminho de derrota depois de uma batalha perdida. Só vêem o fracasso da cruz e, apesar de saberem que o sepulcro foi encontrado vazio e que houve visões angélicas, abandonam Jerusalém ao terceiro dia, afastando-se dos outros discípulos.
O fogo que arde.
Estes homens já tinham formado uma ideia acerca do que tinham testemunhado e tirado as suas próprias conclusões, isolando-se e partindo de Jerusalém. Jesus confronta-os com a verdade e repreende-os porque, apesar de até poderem conhecer as Escrituras, não acreditam verdadeiramente nelas, como o demonstram as suas próprias acções.
Portanto, começa por corrigi-los, para depois lhes inflamar o coração e lhes despertar novamente a Fé. Encontra-Se com eles na sua fragilidade e na sua falta de fé, iniciando um verdadeiro curso bíblico do qual, infelizmente, não temos muita informação. Sabemos, contudo, que começa pelo Antigo Testamento, pelo livro da Génesis.
Aqui está, também, a receita para nós, quando somos estes discípulos: voltar ao princípio. Ler as Escrituras à procura de sinais que apontem para aquilo que Deus realiza em Jesus Cristo. É assim que o próprio Jesus interpreta a Bíblia. Actualmente, muitos católicos conhecem pouco o Antigo Testamento e, por isso, não reconhecem as profundas ligações com o Novo; não vêem como o Novo Testamento está escondido no Antigo, nem como o Antigo se revela plenamente no Novo. Este é, aliás, um dos pilares do projecto «Saboreai e vede».
Jesus distingue-Se de qualquer outro fundador religioso porque não só veio à terra, como também ressuscitou, cumprindo as profecias. A Sua vinda, o Seu sofrimento e a Sua ressurreição estavam já anunciados. Prestamos atenção ao Antigo Testamento porque foi assim que Jesus reacendeu a fé dos discípulos de Emaús.
Apesar de não sabermos exactamente quais as passagens de que Jesus falou, conhecemos a reacção dos discípulos a esta nova luz lançada sobre as Escrituras. Não querem que o caminho termine, como seria de esperar, por não estarem alheios ao amor de Jesus, e convidam-No a entrar. Jesus volta a arder nos seus corações.
O clarão.
«Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: “Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”»
À mesa, Jesus «tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho». Estes gestos são familiares a qualquer cristão, realizados exactamente por esta ordem na Última Ceia. O que Jesus ressuscitado faz aqui é, precisamente, celebrar a Missa. Nesse instante, os discípulos reconhecem-No, e Ele desaparece. Daqui surgem duas perguntas: i. porque é que os discípulos só reconheceram Jesus neste momento, e ii. porque é que Jesus desapareceu precisamente quando O reconheceram?
Ambas estas perguntas encontram a sua resposta na Eucaristia. Ao longo desta passagem, Jesus comunica com os discípulos de duas maneiras: primeiro fala-lhes sobre as Escrituras; depois, toma o pão, abençoa-o, parte-o e dá-o. São dois lugares privilegiados de encontro com o Ressuscitado, inseparáveis entre si, que correspondem a nada menos do que às duas partes principais da Missa: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística.
O Catecismo da Igreja Católica ensina no ponto 1346: «A liturgia da Palavra comporta “os escritos dos Profetas”, quer dizer, o Antigo Testamento, e “as Memórias dos Apóstolos”, ou seja, as suas epístolas e os evangelhos.» Na Liturgia da Palavra fazemos exactamente o que Jesus fez em Emaús, no Domingo de Páscoa: voltamos ao Antigo Testamento lendo de seguida o Novo, descobrindo como um prefigura e o outro cumpre.
Há, por vezes, uma certa tendência para desligar durante esta parte inicial da Missa; no entanto, trata-se de uma parte fundamental. Os discípulos só foram capazes de reconhecer Jesus no partir do pão porque Ele já tinha preparado os seus corações através das Escrituras, guiando-os novamente para a fé. «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?», dizem os discípulos no fim do episódio.
Os discípulos reconhecem Jesus «e então tudo se torna claro: o caminho percorrido em comum, a palavra terna e poderosa, a luz da verdade… Imediatamente, a alegria reacende-se, a energia volta a percorrer os seus membros cansados, e a gratidão regressa à sua memória.» (idem)
Mas porque é que Jesus desaparece quando O reconhecem? Talvez para redireccionar o olhar dos discípulos para a forma como passará a estar com eles a partir de então: na Eucaristia, sob a forma aparente de pão. A Sua presença já não será limitada pelo espaço, mas tornar-se-á real na Eucaristia, para que possa estar sempre com eles. O desaparecimento de Jesus no partir do pão e, na verdade, toda a passagem, é uma revelação da Eucaristia. Jesus vem até nós, mas esconde-Se sob a aparência de pão e vinho.
Logo após este acontecimento, os discípulos regressam a Jerusalém, apesar de já ser noite, para partilhar a experiência que tiveram e como o Senhor ressuscitou verdadeiramente. O encontro com Jesus impulsiona a comunhão fraterna e o testemunho missionário: passam da solidão e isolamento à comunhão. O Papa Leão XIV enfatiza: «Que a alegria inesperada dos discípulos de Emaús seja para nós um suave lembrete quando o caminho se torna difícil. É o Ressuscitado quem muda radicalmente a nossa perspectiva, infundindo a esperança que vem preencher o vazio da tristeza.» (idem).
Emaús torna-se, assim, um ícone da jornada da fé. Todos os Domingos, na Eucaristia, revivemos e participamos no mistério de Emaús. Jesus caminha connosco na dúvida, ilumina-nos pela Palavra, revela-Se na Eucaristia e impulsiona o testemunho. Este Domingo é um convite a regressar às Escrituras, a lê-las com Cristo no centro, de modo a reincendiar o coração e reconhecer o Senhor na Eucaristia.
«Com Ele a meu lado não vacilarei».
A primeira leitura apresenta excertos da primeira homilia de Pedro, no dia de Pentecostes, logo após a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Trata-se de um verdadeiro resumo do Evangelho: proclama o cumprimento das profecias, chama à conversão e anuncia o Baptismo. É também um óptimo modelo de evangelização: começar por Jesus; começar por falar da Sua vida, dos milagres, da paixão, morte, ressurreição e ascensão. Tudo aquilo que professamos no Credo dos Apóstolos.
O Salmo 16 reforça esta Boa Nova e é igualmente mencionado nesta homília:
«O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes-me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença»
Pedro explica que este salmo, atribuído a David, profetiza a ressurreição de Cristo. David morreu e foi sepultado; Jesus, porém, não foi abandonado ao reino dos mortos, e o Seu corpo não conheceu a corrupção. A Igreja sempre acreditou que, apesar de Jesus ter morrido, o Seu corpo permaneceu incorrupto no túmulo e que a Sua alma desceu até ao reino dos mortos para libertar os justos e conduzi-los aos Céus.
Os episódios proclamados neste Domingo ensinam-nos que Cristo não nos deixa no túmulo, nem em tempos de tristeza: caminha connosco, ilumina-nos pela Escritura, revela-Se na Eucaristia e conduz-nos à vida nova em comunhão, transformando a desilusão em alegria. Essa é a boa notícia para este Domingo!
(1) Papa Leão XIV. (2025, 22 de Outubro). General Audience: Cycle of Catechesis – Jubilee 2025. Jesus Christ our Hope. IV. The Resurrection of Christ, the Response to Human Sadness. The Holy See. Disponível em https://www.vatican.va/content/leo-xiv/en/audiences/2025/documents/20251022-udienza-generale.html
Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 3rd Sunday of Easter» por Brant Pitre




