III Domingo Tempo Comum. O início de um novo Reino

Por: Duarte Azevedo Mendes

III Domingo do Tempo Comum
O início de um novo Reino


Primeira Leitura:
Isaías 8:23-9:3
Salmo: 27 (26):1-4, 13-14
Segunda Leitura: 1 Coríntios 1:10-13, 17
Evangelho: Mateus 4:12-23


Neste III Domingo do Tempo Comum, a Igreja convida-nos a reflectir sobre o início da vida pública de Jesus, no seu relato no Evangelho de São Mateus. Esta passagem situa-se no seguimento do Baptismo de Jesus no Jordão e do episódio das tentações de Jesus no deserto. Trata-se, assim, do primeiro relato que São Mateus nos faz da pregação de Jesus, da Sua manifestação pública.

(Mt 4: 12-23)

"Quando Jesus ouviu dizer que João Batista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.”


Por quê começar na “Terra de Zabulão e terra de Neftali”?

Em primeiro lugar, dada a situação de tensão que se vivia ao sul, na Judeia, Jesus resguarda-se. Como nos diz São Mateus, João Baptista acabava de ser preso e, por isso, Jesus refugia-se da turbulência política longe dos centros de poder da região, no norte de Israel, a Galileia.

Em segundo lugar, o início da vida pública de Jesus naquela terra tem um forte sentido simbólico e profético. O Evangelista, aliás, cita o profeta Isaías numa passagem referente a este lugar. Exactamente por isso a Igreja coloca como primeira leitura deste Domingo esta profecia:

(Is 8:23-9:3)

“Assim como no tempo passado foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali, também no futuro será coberto de glória o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor.”

Ora, quem eram, então, Zabulão e Neftali? Estes dois homens haviam sido dois dos doze filhos de Jacob e, por isso, davam o nome a duas das doze tribos de Israel. Depois da morte do rei Salomão e da divisão do reino de Israel, um reino estrangeiro, a Assíria, conquista 10 das tribos de Israel – e as primeiras duas a sofrer o impacto da expansão assíria e a sofrer deportações são, exactamente, as tribos que Isaías e, depois, São Mateus referem.

Esta é, portanto, a segunda razão para a retirada de Jesus para a Galileia. Jesus cumpre a profecia presente no Livro de Isaías iniciando a sua vida pública nas terras de Zabulão e Neftali, local do princípio do fim do Reino de Israel. Daí a dualidade trevas/luz presente nestas duas passagens. Jesus é representado pela luz que vem afastar as trevas do passado que marcavam a história daquele lugar.


Um novo Reino com doze tribos

Regressando ao Evangelho, notemos que as primeiras palavras de Jesus na sua vida pública são “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus”. E quais são as primeiras acções que São Mateus imputa a Jesus na sua vida pública? O chamamento de quatro discípulos.

Simão Pedro, André, Tiago e João são os primeiros dos doze apóstolos que Jesus reúne. São símbolo das doze tribos de Israel que haviam sido destruídas. As doze tribos haviam constituído o antigo Reino de Israel. Agora, Jesus prega a chegada de um novo Reino e os Apóstolos que reúne à sua volta seriam a imagem clara disso para qualquer judeu seu contemporâneo.

No entanto, para estes seus contemporâneos haveria uma óbvia impossibilidade prática deste projecto. A destruição do antigo Reino de Israel havia sido alcançada com os repetidos exílios e conquistas das suas tribos por povos estrangeiros. Aliás, dez destas tribos nunca haviam regressado à Terra Prometida. Assim, o povo de Israel encontrava-se, em grande medida, disperso entre povos estrangeiros, os gentios.

Ora, dito isto, repare-se: Jesus decide convocar os primeiros quatro dos doze apóstolos numa terra a que o profeta Isaías se havia referido como “terra de gentios” (ainda que ao tempo de Jesus fosse povoada tanto por judeus como por gentios). Esta atitude é, por isso, simbólica da abertura da salvação a todos os povos, não só ao povo israelita. Todos os Homens são, assim, chamados à santidade de vida para alcançar este novo Reino. Daí a primeira palavra de Jesus “Arrependei-vos”. Esta é a chave para a entrada no Reino de Deus.

Este Reino não é, porém, neste mundo. E essa é uma realidade que não foi inteiramente compreendida pelos judeus contemporâneos de Jesus. Aguardava-se um Messias político, mas o Reino estabelecido por Jesus situa-se depois desta vida terrena.

Esta é a razão por detrás da passagem dos Salmos escolhida para este Domingo:

(Sl 27 (26):1, 4, 13-14)

O Senhor é minha luz e salvação:
a quem hei de temer?
O Senhor é protector da minha vida:
de quem hei de ter medo?

Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor
todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor

Espero vir a contemplar a bondade do Senhor
na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem confiança e confia no Senhor.


Note-se a ânsia do salmista: habitar na casa do Senhor […] contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos. Esta é, também, a ânsia que deve pautar as nossas vidas. Entrar no novo Reino proclamado por Jesus e aí permanecer “todos os dias da minha vida”.

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A – 3rd Sunday in Ordinary Time” por Brant Pitre

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