
Primeira Leitura: Actos dos Apóstolos 2:14a, 36-41
Salmo: 23 (22):1-3a, 3b-4, 5, 6
Segunda Leitura: 1 Pedro 2:20b-25
Evangelho: João 10:1-10
Antiga e Nova Aliança: circuncisão e Baptismo
A primeira leitura deste IV Domingo da Páscoa relata a reacção ao discurso de São Pedro após a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos que ouvimos na passada semana. A multidão que escutou Pedro e os Apóstolos era composta por homens das mais variadas nações, que tinham ouvido os Doze falar nas suas línguas maternas. Entre eles encontravam-se «tanto judeus como prosélitos» (Act 2, 11), ou seja, não apenas homens judeus, mas também gentios convertidos ao Deus de Israel.
Eis o que São Lucas relata nos Actos dos Apóstolos:
No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?». Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus». E com muitas outras palavras os persuadia e exortava, dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa». Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o Baptismo e naquele dia juntaram-se aos discípulos cerca de três mil pessoas.
«sentiram todos o coração trespassado»: a descrição que São Lucas faz da reacção daquela multidão ao anúncio de Jesus morto e ressuscitado não é um mero sentimentalismo. Mais do que isso, Lucas pretende recordar as palavras de Moisés no livro do Deuteronómio (30, 6):
Então o SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração da tua descendência, para amardes o SENHOR, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para que possas viver.
No seu terceiro e último discurso, Moisés anuncia ao Povo que serão de novo reunidos todos os que estavam dispersos entre os povos da terra e promete-lhes uma nova circuncisão, a do coração.
Ora, a circuncisão era, desde Abraão, o sinal da Aliança firmada entre Deus e o Seu povo. Uma nova circuncisão é, então, sinal de uma Nova Aliança, a firmada entre Deus e o Homem por meio da morte e ressurreição de Jesus, mas que terá também um sinal concreto, através do qual o homem entra em relação com Deus.
Como se concretiza, então, este novo sinal da Aliança? A resposta é a mesma que Pedro deu naquele dia em Jerusalém à multidão: o Baptismo e a recepção do Espírito Santo. Os sinais concretos da Nova Aliança são, portanto, os Sacramentos da Igreja que Cristo nos legou. Assim os perceberam também os que ouviram os Apóstolos em Jerusalém, entrando, então, para Nova Aliança judeus e gentios «procedentes de todas as nações que há debaixo do céu.» (Act 2, 5)
O Evangelho
O IV Domingo da Páscoa é, no entanto, mais conhecido como o Domingo do Bom Pastor, uma vez que, todos os anos, a Igreja nos convida a escutar o Discurso do Bom Pastor. Neste ano A, escutamos a primeira parte, em que o Apóstolo João nos relata o seguinte:
Naquele tempo, disse Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».
O Divino e Humano Pastor
A imagem do pastor é de uma grande riqueza. Em primeiro lugar, a tradição no Antigo Próximo Oriente há muito identificava esta imagem com os reis e, na História da Salvação, o Rei David era identificado como Pastor do Reino de Israel. Aliás, o Profeta Samuel havia chamado David quando este estava a apascentar o rebanho de seu pai e o Salmo 78 termina cantando (Sl 78:70-72):
Escolheu o seu servo David,
e foi buscá-lo ao meio do redil.
Retirou-o de andar atrás das ovelhas,
para ser pastor de Jacob, seu povo,
e de Israel, sua herança.
E ele apascentou-os com a retidão do seu coração
e com a prudência das suas mãos os conduziu.
Esta imagem tem, no entanto, no livro do profeta Ezequiel a sua expressão mais significativa. O profeta escreve a propósito da liderança corrompida dos Israelitas, confrontando-os com as sua falhas com Deus e a Aliança com Ele firmada. Proclama, então, que dias virão em que, afastando aqueles que comandavam e instruíam o Povo Eleito (Ez 34, 2-11), o próprio Senhor apascentaria as Suas ovelhas (Ez 34, 15), a par de um novo rei davídico (Ez 34, 23). Em Jesus estas passagens têm, assim, pleno cumprimento: Jesus é, simultaneamente, Deus e Homem, Divino Pastor e Rei na linhagem de David.
A voz do Pastor
Neste discurso, Jesus contrapõe dois tipos de figura: por um lado, o ladrão/salteador/estranho e, por outro, o pastor legítimo. À voz dos primeiros, as ovelhas dispersam-se; à do segundo, encontram pastagem.
Aqui, importa esclarecer um ponto sobre o quotidiano dos pastores ao tempo de Jesus. Cada ovelha era criada a conhecer o chamamento próprio do seu pastor. Por vezes, uma aldeia tinha apenas um redil para todos os rebanhos e a cada manhã os pastores separavam as ovelhas através do seu chamamento particular. Assim, o pastor não seguia as ovelhas, esforçando-se para que não se dispersassem; são as ovelhas que, ao invés, o seguem ao mero som da sua voz.
Ora, ao tempo de Jesus, os chefes dos Judeus ocupavam os seus postos ilegitimamente: Herodes ocupava o trono de David, mas não era da sua descendência, e a linha legítima dos sumo-sacerdotes havia sido quebrada. É a estes que Jesus se refere em primeiro lugar. Cumpriam-se, assim, as palavras de Ezequiel quanto à corrupção da liderança de Israel e, com esta, Israel dispersara-se, não apenas fisicamente, mas também no seguimento da Lei, expressão da Aliança com Deus.
O contraponto será, por isso, Jesus, que se afirmará como o bom pastor (Jo 10, 11), passagem que escutaremos no Domingo do Bom Pastor do próximo ano.
A Porta
No entanto, na passagem que nos é este ano proposta, Jesus identifica-se ainda com um outro elemento: «Eu sou a porta das ovelhas». A porta representa aqui o caminho salvífico que nos é proposto para podermos encontrar pastagem, ou seja, alcançar a vida eterna.
Mas esta é a porta de quê? O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, responde com estas palavras:
…a Igreja é o redil, cuja única porta e necessário pastor é Cristo (Jo. 10, 1-10). E também o rebanho do qual o próprio Deus predisse que seria o pastor (cfr. Is. 40,11; Ez. 34,11 ss.), e cujas ovelhas, ainda que governadas por pastores humanos, são contudo guiadas e alimentadas sem cessar pelo próprio Cristo, bom pastor e príncipe dos pastores (cfr. Jo. 10,11; 1 Ped. 5,4), o qual deu a vida pelas suas ovelhas (cfr. Jo. 10, 11-15).
Assim, queiramos nós permanecer nesta Nova Aliança, na qual, pelo nosso Baptismo, fomos chamados a fazer parte do rebanho de Cristo. Sigamo-Lo com confiança, reconhecendo a Sua voz que guia, consola e salva. E, permanecendo fiéis a essa voz, encontraremos o descanso dos verdes prados da graça e a paz de quem sabe que pertence ao Amor que o chama pelo nome.
Texto baseado em “4th Sunday of Easter” em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsma e “Mass Readings Explained – Year A – 4th Sunday of Easter” por Brant Pitre.




