
Por: Miguel Simões
Primeira Leitura: Samuel 16:1b, 6-7, 10-13a
Salmo: 22(23):1-3a, 3b-4, 5, 6
Segunda Leitura: Efésios 5:8-14
Evangelho: João 9:1-41
Evangelho.
Aproximamo-nos a passos largos da Vigília Pascal. Os catecúmenos crescem em antecipação, pois a hora do seu renascimento é iminente. O Evangelho de hoje fala-nos precisamente disso: do sacramento do Baptismo. Inteiremo-nos do trecho.
Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Os discípulos perguntaram-Lhe: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?». Jesus respondeu-lhes: «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus. É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo». Dito isto, cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver. Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?». Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». Perguntaram-lhe então: «Como foi que se abriram os teus olhos?». Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver». Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?». O homem respondeu: «Não sei». Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?». E havia desacordo entre eles. Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?». O homem respondeu: «É um profeta». Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver. Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?». Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Foi por medo que eles deram esta resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem reconhecesse que Jesus era o Messias. Por isso é que disseram: «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido cego e disseram-lhe: «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é pecador». Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo». Perguntaram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?». O homem replicou: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?». Então insultaram-no e disseram-lhe: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, nem sabemos de onde é». O homem respondeu-lhes: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer». Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?». E expulsaram-no. Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?». Ele respondeu-Lhe: «Quem é, Senhor, para que eu acredite n'Ele?». Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é quem está a falar contigo». O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». Então Jesus disse: «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não vêem ficarão a ver; os que vêem ficarão cegos». Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe: «Nós também somos cegos?». Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: “Nós vemos”, o vosso pecado permanece».
Pecado e sofrimento.
Uma das principais lições de Jesus neste Evangelho prende-se com a relação entre o pecado e o sofrimento, nomeadamente, entre o pecado e a cegueira deste homem em particular. De facto, apesar do livro de Job, tanto os discípulos como os fariseus assumem que a cegueira foi consequência ou do seu próprio pecado ou do pecado dos pais: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?» Jesus, porém, responde que nenhuma das opções é o caso, mas antes que a cegueira se deu para que nele se manifestassem as obras de Deus, i.e., que a cegueira – leia-se: o sofrimento – não é, neste caso, punitiva. Este é um primeiro ponto que importa desde já ter presente, e que se tornará claro mais adiante, pois, neste momento, encontramo-nos ainda cegos no que diz respeito à própria cegueira.
Pó e saliva.
Debrucemo-nos, então, sobre o modo como Jesus realiza o milagre. Se repararmos, Jesus, neste milagre, não se fica apenas por palavras, como acontece, e.g., com o servo do centurião, «diz uma só palavra e o meu servo será curado» (Lc 7) ; para não referir o caso da cura da mulher com fluxo de sangue (Lc 8:40-48), que dispensa quaisquer palavras para que a cura se opere. Aqui, Jesus cospe no chão, mistura a saliva com o pó e faz lodo. Prima facie, tal gesto pode parecer estranho, ou mesmo repulsivo, contudo, é claramente intencional. Jesus, o Criador, volta a moldar com o pó da terra, precisamente como Deus havia feito com Adão. De facto, se recorrermos aos Manuscritos do Mar Morto, deparamo-nos com uma antiga tradição, que, ao descrever a criação de Adão, refere tanto o uso do pó da terra como de saliva. Como sabemos, não dá para formar nada apenas com pó – ou terra –; é necessário algo líquido para que a terra se una e ganhe forma. (1) Assim, Jesus age do mesmo modo que Deus agiu no Antigo Testamento.
Um outro aspecto que remonta igualmente ao livro da Génesis prende-se com o sábado. Como lemos, entre as mais variadas reacções ao milagre, desde a confusão à incredulidade, vemos os fariseus a usar como argumento para a sua incredulidade a violação do sábado por parte de Jesus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado.» Deixando de parte a violação do sábado – pois, como sabemos, «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. O Filho do Homem até do sábado é Senhor.» (Mc 2:27-28) –, mais adiante lemos «Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver.» Aqui, importa brevemente notar como o termo grego usado para «judeus», Ἰουδαῖοι (Ioudaioi) (2) significa, ao pé da letra, «judeus da Judeia» ou «judeanos», ou seja, não o que correntemente entendemos por «judeus». Assim sendo, quando o Evangelista escreve que os judeus não quiseram acreditar, não está a nomear o que entendemos imediatamente por judeus, i.e., judeus no sentido religioso, mas sim os habitantes da Judeia, especialmente os de Jerusalém, que – pressupondo a evidente generalização – rejeitaram e não acreditaram que Jesus fosse o Messias. De facto, tanto o homem cego como os seus pais e os discípulos eram judeus, no sentido religioso, e não o rejeitaram.
Portanto, alguns ficaram confusos, outros acusaram-no e alguns dos «judeanos» – particularmente os de Jerusalém – reagiram com incredulidade e rejeição. Não aceitaram o milagre e acusaram Jesus de violar o sábado.
A verdadeira cegueira, o verdadeiro sofrimento.
No fim do episódio, Jesus diz: «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não vêem ficarão a ver; os que vêem ficarão cegos.» Nestas palavras, testemunhamos um dos ensinamentos «mais» fundamentais de Jesus. De facto, recuperando o início deste texto, compreendemos que a verdadeira cegueira – sofrimento – não é física, como se toma por mais do que evidente no início, mas espiritual; que, no pior cenário, como é descrito pelo Evangelista, corresponde à incapacidade de reconhecer que Jesus é o enviado de Deus e Salvador do mundo ao mesmo tempo que, n.b., se crê estar na verdade, i.e., ver Jesus como um falso profeta, um mentiroso, um herege. Ou seja, o pior cego é aquele que julga que vê. De facto, a visão que o cego ganha não é fundamentalmente a física, mas a espiritual: a visão clara de Jesus como profeta, enviado de Deus e, por fim, o próprio Senhor. Quer dizer, a cegueira que devemos verdadeiramente temer é a interior: a incapacidade de ver e reconhecer a presença e as acções de Deus na nossa vida.
O Baptismo.
Ora, como foi inicialmente dito, o Evangelho de hoje fala-nos do sacramento do Baptismo. Apliquemos, então, o sentido baptismal ao episódio para que tal se torne claro. Quando os discípulos perguntam «quem pecou? este homem ou os seus pais?», a resposta de Jesus é «nenhum deles». A cegueira do homem simboliza o pecado original, pois, à semelhança do cego de nascença, corresponde ao estado em que nascemos, i.e., não como consequência de um pecado pessoal ou dos nossos pais, mas da queda de Adão e Eva. Tal como a cegueira corresponde à ausência de visão, o pecado original corresponde à ausência da santidade e da graça original que os nossos primeiros pais possuíam quando foram criados por Deus em comunhão com Ele. Assim, o homem nascido cego representa-nos a todos, que nascemos num estado de pecado original. Mas depois vem Jesus, para restaurar a visão do cego – e a nossa visão. No entanto, a visão que Jesus nos restaura não é a física, mas a sobrenatural.
É precisamente isso que acontece no Baptismo: recebemos o dom da fé, que nos permite ver. Neste sentido, podemos lembrar e destacar o simbolismo da ordem de Jesus ao mandar o cego lavar-se com água na piscina do enviado. A Igreja vai, assim, preparando os catecúmenos para receber a graça da visão que lhes será concedida na água do Baptismo. Santo Ambrósio, em referência a este mesmo Evangelho, pregava: «Num instante, vemos o poder da divindade de Jesus e a força da Sua santidade. Como luz divina, tocou este homem e iluminou-o; como sacerdote, por uma acção que simboliza o Baptismo, realizou nele a obra da redenção. A única razão de Jesus misturar barro com saliva e aplicá-lo nos olhos do homem nascido cego era para vos lembrar que Ele, Aquele que restaurou a saúde do homem, ungindo-lhe os olhos com barro, é o mesmo que moldou o primeiro homem a partir do barro. E este barro é a nossa carne, que pode receber a luz da vida eterna através do sacramento do Baptismo. Também tu deves ir a Siloé. Que Cristo te lave e então verás. Vem e sê baptizado; chegou o momento. Vem depressa, e tu também poderás dizer: “Eu era cego e agora vejo.”» (3) De facto, a experiência de conversão pode-se resumir nas palavras do cego: «[…] o que sei é isto: eu era cego e agora vejo.» Demos graças ao Senhor pela graça do Baptismo e rezemos pelos nossos catecúmenos.
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Como, aliás, o Pe. Thiago de Oliveira o salientou no artigo sobre as cinzas de quarta-feira.
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Que deriva de Ἰουδαία (Ioudaía), i.e., «Judeia».
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Santo Ambrósio, Carta 80: 1-5: PL 16: 1326-1327
Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 4th Sunday of Lent de Brant Pitre.




