Quero o teu coração. VI Domingo Tempo Comum

Por: Isabel Horta Correia

Quero o teu coração.
VI Domingo Tempo Comum


Primeira Leitura:
Eclesiástico 15:15-20
Salmo: 119;1-2,4-5,17-18,33-34
Segunda Leitura: 1 Coríntios 2:6-10
Evangelho: Mateus 5:17-37


No Sexto Domingo do Tempo Comum é-nos apresentado por S. Mateus a secção do Sermão da Montanha conhecida como asantíteses. Nestas, Jesus eleva o cumprimento da lei à conversão do coração. As antíteses são as seis passagens em que Jesus confronta ensinamentos do Antigo Testamento com a sua própria interpretação radical, usando a fórmula
“Ouvistes o que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos”.

Esta forma, que valida o nome de antítese, não significa necessariamente uma abolição da lei de Moisés no Antigo Testamento, a antiga lei, mas sim o aprofundamento daquela com o ensinamento de uma nova lei do Evangelho.

Vamos ler Mateus 5:17-37, o Evangelho deste domingo:

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. Porque em verdade vos digo: Até que passem o céu e a terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra.

Portanto, se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu. Mas aquele que os praticar e ensinar, esse será grande no Reino do Céu. Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.»

«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar 'imbecil' será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar 'louco' será réu da Geena do fogo.

Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.»

«Ouvistes o que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração.
Portanto, se a tua vista direita for para ti origem de pecado, arranca-a e lança-a fora, pois é melhor perder-se um dos teus órgãos do que todo o teu corpo ser lançado à Geena. E se a tua mão direita for para ti origem de pecado, corta-a e lança-a fora, porque é melhor perder-se um só dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.»

«Também foi dito: Aquele que se divorciar da sua mulher, dê-lhe documento de divórcio. Eu, porém, digo-vos: Aquele que se divorciar da sua mulher - excepto em caso de união ilegal - expõe-na a adultério, e quem casar com a divorciada comete adultério.»

«Do mesmo modo, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás diante do Senhor os teus juramentos. Eu, porém, digo-vos: Não jureis de maneira nenhuma: nem pelo Céu, que é o trono de Deus, nem pela Terra, que é o estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. Não jures pela tua cabeça, porque não tens poder de tornar um só dos teus cabelos brancos ou preto. Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal.»


Mas eu quero o teu coração

Como ponto prévio à apresentação da novidade que nos traz em leis concretas, Jesus faz questão em esclarecer que “…não vim para revogar a Lei e os Profetas, não vim revogá-los, mas chamá-los à perfeição." Primeiro, reparemos que Jesus utiliza o nome judaico para as Escrituras. Naquela época, usava-se a expressão “A Lei e Os Profetas” – era assim que se referiam às duas principais partes do Antigo Testamento, visto não ser usada ainda naquele tempo a palavra Bíblia. Por isso, o que Jesus explica é que tudo o que vai dizer, quando coloca os seus ensinamentos em oposição aos de Moisés, não é para abolir a lei de Moisés, mas sim para cumprir esta lei. Cumprir e levá-las à perfeição, porque, com a sua vinda, o Messias devia trazer também a revelação definitiva da Lei. Aquele “Eu vos digo” equivale a reivindicar para si a mesma autoridade de Deus, fonte da Lei. A novidade de Jesus consiste, essencialmente, no facto de que Ele mesmo “completa” os mandamentos.

Jesus quer aperfeiçoar esta lei de justiça e levar os discípulos ao cimo do monte, onde lhes dará a nova lei, o Evangelho, que não quebra a lei antiga, mas a transforma: transfigura-a, transcende-a e eleva-a ao nível do Reino dos Céus. Jesus não quer apenas a ordem externa da sociedade que resulta do cumprimento das normas que Deus promulgou como fazendo parte da natureza humana. Jesus diz-nos aqui: eu quero o teu coração. Jesus fez-se um de nós, como nós, para, nesta proximidade, nos poder fazer esta pergunta: Onde deixaste o teu coração?

Lemos na segunda leitura que o Espírito Santo penetra todas as coisas até no que há de mais profundo em Deus. É este Espírito, que nos deu a conhecer o que há de mais profundo em Deus, que se coloca diante de nós pedindo, não só o exterior e superficial, mas o que há de mais profundo em nós.


A morte do irmão

A primeira antítese aponta o irmão como alguém que nos responsabiliza. Lembra-nos a pergunta de Deus a Caim (Gn 4:9): “Onde está o teu irmão Abel?”. Se, nesta passagem, Deus pede contas por uma transgressão literal do mandamento “Não matarás”, podemos já intuir aquilo que Jesus nos diz agora em Mateus. No Antigo Testamento, em Êxodo 20 – os Dez Mandamentos – Moisés fixa a proibição de tirar a vida a qualquer ser humano. Agora, Jesus proíbe a ira e os insultos. Jesus torna claro que chamar imbecil ou tolo ao outro é pecado. Ou seja, que a rejeição ou o abandono do nosso semelhante nos torna culpados. Se acreditamos que Deus é o Criador, então todo o homem é nosso irmão, porque partilhamos o mesmo Pai. Independentemente de o outro o reconhecer ou não. Se o outro não é alguém que nos responsabiliza, não o tratamos como irmão e isso significa que não acolhemos Deus como Pai no nosso coração. A morte física é só o limite do processo que se inicia com o não reconhecimento do outro como irmão. Jesus vem substituir a punição deste limite pela penalização de todos os pequenos passos que nos afastam e que fazem o outro sofrer. Vem apontar o valor da protecção da vida contra toda a injustiça e prepotência, reconhecendo o valor de cada pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. Assim Jesus vem dizer-nos que não basta não matar. Não podemos querer mal no coração, querer mal ao nosso irmão.

Jesus ensina ainda que devemos ser consistentes nos nossos atos. Se queremos participar num sacrifício e oferta a Deus – participar na Eucaristia – devemos fazê-lo com alegria e paz. Por isso rezamos a Confissão no início de cada missa, mas Jesus pede ações mais concretas de cada um de nós. Pede-nos o coração.


Pureza de coração

A segunda antítese lida com o adultério. O adultério é um pecado exterior, mas Jesus convoca-nos à pureza do coração. Que nenhuma pessoa, nem sequer no seu pensamento, seja reduzida a um objecto. Jesus sublinha que, nos Dez Mandamentos, Moisés proíbe o adultério, que seria ter relações com o cônjuge de outra pessoa e quebrar a aliança do casamento. Jesus, no entanto, vai mais além e proíbe até olhares lascivos. Então, diz: “…olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”.

Santo Agostinho explica claramente que Jesus não condena a experiência natural de sentir atração pelo sexo oposto. Não é uma questão do que se experimenta, da paixão em si, mas sim do que se faz com esse desejo. Ele é cultivado interiormente? Agiria eu de acordo com este desejo se pudesse? Jesus condena o pecado, não só exterior, o adultério propriamente dito, mas o pecado no coração. Na Bíblia, o coração não é apenas a sede das nossas emoções, mas é ainda mais a sede da nossa vontade. É onde escolhemos. É como a parte mais profunda de uma pessoa, é onde escolhemos a favor ou contra Deus, escolhemos o bem ou escolhemos o mal. É onde consentimos, é onde damos consentimento. É isto que Jesus quer dizer com cometer adultério no coração. Convida-nos à pureza do coração. Jesus quer que quando estivermos frente à nossa irmã, ou ao nosso irmão, estejamos com um coração transparente.

Na terceira antítese, Jesus torna claro que o que foi escrito por Moisés, que permite que um marido se despeça da sua mulher – que a mande para fora da sua casa –, desde que este lhe passe uma carta formal de despedimento por escrito, ou uma carta de divórcio, deve ser purificado. Agora, Jesus diz: “Aquele que se divorciar da sua mulher – excepto em caso de união ilegal – expõe-na a adultério, e quem casar com a divorciada comete adultério.

Na situação económica do primeiro século d.C., se um homem se divorciasse da sua mulher, se a mandasse para fora de sua casa, esta acabaria com duas opções: teria de se casar novamente ou entraria numa vida de prostituição. Ou seja, em qualquer uma destas opções o divórcio levaria a um estado de adultério, porque estar-se-ia a ter relações com um novo marido, enquanto ainda se estava casada com o seu antigo, ou estar-se-ia a envolver com outros homens no âmbito da prostituição. Jesus, assim, diz-nos que quem repudia a sua mulher peca porque a está a forçar a um estado de adultério, tal como quem se casa com uma mulher despedida comete adultério. Em qualquer uma destas situações, Jesus quer tornar claro que o matrimónio é indissolúvel, que um casamento válido não pode ser quebrado. Por outras palavras, nenhum ser humano tem o poder de romper um casamento, porque o casamento é feito por Deus, é estabelecido por Deus, é um laço que é feito por Deus e não pelo Homem.


Amar a Verdade

A quarta e última antítese apresentada no Evangelho deste Domingo diz respeito aos juramentos. Não podemos abrir a hipótese de que o outro duvide do que lhe digo e, por isso, o sim não chegue para o convencer.

Jesus volta ao Antigo Testamento e diz: "Ouvistes que foi dito: «Não jurarás falsamente.»" Esta é uma referência a Moisés, ordenando o povo para que não desse falso testemunho (Êxodo 20 – os Dez Mandamentos), mas também que não jurasse falsamente (Levítico 19). Em contraste, Jesus diz: "Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não." Jurar é invocar Deus como testemunha do que estamos a dizer.
Jesus convida-nos a amar a verdade como critério fundamental da relação com o que à nossa volta existe.

Os antigos cristãos interpretaram Jesus como proibindo absolutamente todos os juramentos usando o nome de Deus? Ou estava a proibir o uso frequente de juramentos, especialmente aqueles juramentos leves que usam outras coisas menores como o céu, a terra, Jerusalém ou algo do género? A resposta a esta questão é-nos dado no Catecismo da Igreja Católica, no ponto 2154, onde lemos o seguinte:

Seguindo o exemplo de São Paulo, a Tradição da Igreja entendeu a palavra de Jesus como não se opondo ao juramento, quando feito por uma causa grave e justa (por exemplo, diante do tribunal). «O juramento, isto é, a invocação do nome de Deus como testemunha da verdade, não se pode prestar senão com verdade, discernimento e justiça.»

Os Dez Mandamentos têm que ver com a natureza das coisas. Foram escritos na pedra, mas mais importante foram impressos no coração do Homem, como Lei moral universal, válida em todos os tempos e lugares. Jesus, neste Evangelho, pede-nos mais: que à inscrição natural se junte a nossa liberdade de escolher e que saibamos seguir o Seu pedido e dar-Lhe o nosso coração.

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A – 6th Sunday in Ordinary Time” por Brant Pitre

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