Sexta Feira Santa. Paixão do Senhor

Por: Padre David Palatino

Primeira Leitura: Isaías 52:13-53:12
Salmo: 31 (30):2, 6, 12-13, 15-16, 17, 25
Segunda Leitura: Hebreus 4:14-16, 5:7-9
Evangelho: João 18:1-19:42


A morte de Jesus continua a ser, até hoje, um dos grandes enigmas da humanidade. Porquê, perguntam muitos? Se calhar, perguntamos nós!!! Mas na fé, não se pergunta pela causa (o porquê), mas pela finalidade (o para quê). Resposta essa que será dada “apenas” no Domingo de Páscoa.

Muitos de nós continuamos a viver uma Quaresma sem Páscoa (outros, uma Páscoa sem Quaresma), uma Sexta-Feira Santa sem Domingo da Ressurreição, fazendo com que para muitos a afirmação de Nietzsche de que Deus morreu continue a ser uma realidade. Muitos continuam a querer dar a Igreja como acabada, morta. Outros acham que a religião é uma realidade do passado, que nada tem a dar ao mundo e à sociedade, que vive do obscurantismo balofo que já não tem lugar na modernidade. E que uma celebração aparentemente tenebrosa como a de hoje já não tem lugar nos dias de hoje.

Porém, a Sexta-Feira Santa não existe para chorar um morto, um inocente... nem sequer serve para testemunhar a maior injustiça da história da humanidade. Nós fazemos jejum, mas não fazemos luto, porque celebramos a esperança. Quem acredita sabe que a morte não tem a última palavra. Quem acredita sabe que não há túmulos que não possam ser preenchidos de palavras ressuscitadoras, que não possam ser aromatizados pelo perfume da graça divina que regenera e recria. Cristo não Se deixará ficar muito tempo amarrado à cruz e bloqueado pela pedra sepulcral; ontem como hoje, a Igreja continuará aí, apoiada no Espírito do Ressuscitado e no testemunho do Crucificado que apresenta uma poderosa credencial: mais de 2000 anos de garantia.

Jesus, ao morrer, não nos deixou muito. Deixou-nos TUDO. «A Cruz é o sentido maior do maior amor, daquele amor com que Jesus quer abraçar a nossa vida.» Dizia um teólogo de nome Balthasar que «só o amor é digno de fé». Por isso, como disse o Papa Francisco na Via Sacra da JMJ, «quando contemplamos o Crucificado, naquela condição tão dolorosa, tão dura, vemos a beleza do Amor que dá a sua vida por cada um de nós.» Pela inefável agonia de Jesus, podemos crer no amor. O seu legado e a sua herança são intemporais.

Deus não morreu... É verdade que pode já ter morrido ou adormecido no coração daqueles que não vão à missa porque não têm tempo, ou porque tem outras «prioridades», outros programas... Pode ter morrido no coração daqueles que preferem uma lei pessoal à lei de Deus, no coração daqueles que abdicaram de olhar para o irmão como um rosto do próprio Senhor, no coração daqueles que já abdicaram de batizar os seus filhos, no coração daqueles que vivem o Natal, a Páscoa e os dias santos como se se tratassem de outros dias quaisquer, no coração de quem arranja tempo para tudo menos para alimentar a fé e servir a Igreja. Alguns, porque não conseguem matar Deus, tentam matar a Igreja. Jesus morreu por ser uma voz incómoda, contracorrente, revolucionária, exigente. Até usaram testemunhas falsas, denúncias anónimas para o condenarem. Ontem como hoje, nada de novo debaixo do sol. Muitos querem a Igreja morta por ser uma voz incómoda, que não envereda por facilitismos, que faz da exigência evangélica o seu modo de vida. Muitos quiseram Cristo morto... muitos querem a Igreja morta! Mas Deus não deixa, porque Cristo e a Igreja são de Deus. Já S. Paulo nos diz: «Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados.» (2 Cor 4, 8-9)

Que sentido faz celebrarmos a Sexta-feira Santa? Porque não podemos deixar que nos roubem a esperança. A história da humanidade só conhece uma pessoa que venceu a morte: Jesus Cristo. É n’Ele que continuamos a esperar. É espantoso como em tão pouco tempo da cruz nos sai um verdadeiro testamento espiritual. Visto como um filme por parte de um não crente, a paixão de Cristo seria um filme de terror, para nós é um drama de amor. Quando olhamos para a cruz e acompanhamos os seus detalhes, vamos ouvir falar de perdão face aos agressores, vamos ouvir falar de uma eternidade prometida a um malfeitor, vamos ouvir falar de uma vida que salta de si e se reorienta para o Pai, vamos ouvir falar de sede (a de Jesus por nós e a de nós por Jesus), vamos ouvir falar de uma maternidade entregue e acolhida para além dos meros laços biológicos, vamos ouvir falar de uma consciência apaziguada que sabe que n’Ele (em Jesus) tudo se cumpre e nada fica por fazer. Hoje somos chamados a sentirmo-nos um pouco como o Bom ladrão que, num golpe de misericórdia, vê a luz abrir-se onde só via trevas; como o Discípulo Amado, que testemunha in loco a infinitude de um amor que ultrapassa a sua racionalidade; como o Centurião, que reconhece em Jesus o Filho de Deus; como a Mãe de Jesus, fiel nos momentos dramáticos da sua existência.

O Evangelho que a Igreja nos propõe para este dia olha a paixão de Jesus na perspetiva de S. João. E isso é uma verdadeira bússola para olharmos a paixão de Jesus com as lentes corretas. Jesus fala pouco, mas diz muito. As suas palavras são breves, mas densamente profundas. A cruz é o altar, a cátedra e o púlpito, onde Jesus é simultaneamente sacerdote, rei e profeta. É o verdadeiro «Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo», como apontava João Batista e que a cronologia joanina da morte de Jesus confirma ao fazendo-a coincidir com o momento em que os cordeiros eram imolados para o sacrifício. Mas a Sua entrega é pacífica e silenciosa, cumprindo a voz profética de Isaías no canto do servo da primeira leitura: «como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca».

Para o quarto evangelista, a morte de Jesus é exaltação e elevação, caminho para o Pai, quase que fazendo ecoar a frase de Isaías: «Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado». Na cruz, João não acentua o dramatismo, mas a soberania serena de Jesus. Os elementos simbólicos multiplicam-se: a túnica inconsútil evoca a dignidade real e sacerdotal; a cruz assume-se como árvore da vida, situada no centro da história da salvação; o letreiro trilingue manifesta a universalidade da realeza de Cristo. A presença da Mãe de Jesus inaugura a Hora da Igreja e do Novo Templo, instaurando uma nova maternidade espiritual. O sangue e a água que brotam do lado do Crucificado confirmam o realismo da morte e apontam para os sacramentos, sinais eficazes da vida que nasce da cruz. Esta é a Hora de Jesus anunciada em Caná e adiada em alguns dos momentos narrativos do Evangelho. É o télos da Sua vida, a sua finalidade, onde Jesus nos lega o melhor de si: a Sua mãe, a Sua vida, o Seu Espírito.

Assim se compreende a última palavra de Jesus: «Tudo está consumado», isto é, tudo está feito, chegou ao seu fim, acabou. A vida de Jesus esteve marcada por uma única preocupação: fazer a vontade do Pai. Esse foi o seu alimento e a sua sede. Jesus foi sempre um sim total e pleno à vontade de Deus. No entanto, Jesus não se limita a cumprir a vontade do Pai, mas Ele próprio é o cumprimento de todas as profecias. O grito de Jesus não significa apenas que tudo terminou e que Ele agora vai morrer. É um grito de triunfo. Significa que tudo está completo, que tudo é perfeito. O seu trabalho chegou ao cumprimento. O Senhor cumpre o que nos ensina na oração do Pai-nosso: «seja feita a vossa vontade assim na Terra como no céu». Não será sincera a nossa oração se, ao mesmo tempo, tratarmos de organizar a nossa vida e a da sociedade em contradição com a vontade de Deus. A vontade de Deus não é a vontade arbitrária de um déspota, mas a de um pai que não se limita a querer o bem, mas a querer o melhor para os seus filhos. A vontade de Deus é sempre o melhor que nos pode acontecer, a escolha mais inteligente, e é sempre possível. A vontade de Deus é o amor. E a medida do amor é dar sem medida. Na verdade, a verdadeira forma do amor não é um Coração, mas a Cruz de Cristo. Na Cruz nós vemos a perfeição do amor. Um amor que não se divide, que não se fragmenta, que se mantém intacto. Porque o que prende Jesus à cruz não são os pregos, mas o amor. Um amor a contemplar, como diz João: «Hão-de olhar para Aquele a quem trespassaram». Mas também um amor a imitar. Como nos diz Sebastião da Gama, «nós não temos muito que fazer, temos muito que amar».

O nosso Deus é um Deus ferido, como afirma Tomas Halik, e a nossa religião não abdica destas chagas. Porque «pelas suas chagas fomos curados». Por isso, é importante permanecermos e não saltarmos da Quinta-Feira Santa para o Domingo de Páscoa. É importante passar pelo Gólgota. E aí percebermos o quanto valemos para Deus.

Elias Couto disse um dia: «não sei o que têm estes dias, que me deixa desconfortável e inquieto. Mas sei que o Amor não desiste de amar até ao fim – e é na esperança desse Amor que continuo». E nós também.

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