
Por: Salvador Rafael Cavaco
Solenidade de Santíssima Virgem Maria, a Mãe de Deus
Primeira Leitura: Números 6:22–27
Salmo: 67 (66): 2
Segunda Leitura: Gálatas 4:4–7
Evangelho: Lucas 2:16–21
Todos os anos, no primeiro dia de Janeiro, a Igreja celebra a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Com esta festa, que marca a abertura do novo ano, a liturgia coloca diante dos fiéis a verdade central da Encarnação do Filho de Deus e a singular maternidade de Maria. Nesta celebração, somos chamados a meditar o Evangelho proclamado, a reconhecer a sabedoria das leituras escolhidas e a contemplar, à luz da Sagrada Escritura e da fé da Igreja, o título com que veneramos a Virgem: Mãe de Deus. Este mistério, colocado no início do ano, torna-se orientação e sustento para todo o caminho cristão.
Como acontece todos os anos neste dia, a liturgia proclama sempre o mesmo Evangelho: Lucas 2:16–21. Este excerto apresenta-nos o relato do nascimento de Cristo em Belém, mas com um enfoque particular: a reacção dos pastores à mensagem que lhes foi anunciada. É através do olhar destes homens simples que o evangelista nos introduz no mistério do Menino, permitindo reconhecer no acontecimento de Belém não apenas um facto histórico, mas o sinal da presença de Deus no meio do Seu povo, do Emanuel.
“Naquele tempo, os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam. Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração. Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado. Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-Lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno.” (Lc 2:16–21)
À primeira leitura, pode-nos causar estranheza que seja este o Evangelho escolhido para a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Seria natural esperar um texto mais directamente centrado na figura da Virgem: o relato da Anunciação, onde o Anjo Gabriel anuncia que Maria será Mãe do Filho do Altíssimo; ou a cena da Visitação, em que Isabel proclama: “Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?” (Lc 1:43). A liturgia, contudo, propõe-nos o testemunho dos pastores e a reacção de Maria às suas palavras. A razão desta escolha não é arbitrária: corresponde a critérios teológicos e litúrgicos que a Igreja, ao longo dos séculos, foi discernindo.
A primeira razão encontra-se no próprio texto proclamado: “Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-Lhe o nome de Jesus” (Lc 2:21). O dia um de Janeiro corresponde precisamente ao oitavo dia após o nascimento de Cristo. É o encerramento daquilo que a Igreja chama de oitava do Natal. Durante séculos, esta data foi celebrada como a festa da Circuncisão e do Santíssimo Nome de Jesus. Após o Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI transferiu para este dia a festa de Santa Maria, Mãe de Deus, que era celebrada em Outubro. A liturgia conserva assim a memória da antiga celebração, mas, ao mesmo tempo, realça o sentido profundo do oitavo dia: o Filho de Maria, circuncidado segundo a Lei, é reconhecido com o Nome que revela a Sua missão, e nesse mesmo dia a Igreja proclama a maternidade divina d’Aquela que O trouxe ao mundo.
Há, porém, outro aspecto que podemos considerar. O Evangelho inicia-se pelo anúncio dos pastores a Maria e a José (Lc 2:16–18). Recordando o versículo anterior, lemos: “Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2:11). Esta foi a palavra que o Anjo confiara aos pastores e que estes, por sua vez, transmitiram à Sagrada Família. O Menino é apresentado como Salvador, como Cristo — o Messias esperado —, e ainda como Senhor (Kyrios), título que no Antigo Testamento designava o próprio Deus. Assim, o Evangelho não refere apenas um Messias humano, mas proclama já o Messias divino, o Filho de Deus feito homem, o Salvador do mundo.
Neste quadro, Maria vem ocupar um lugar singular. É um dos poucos momentos em que São Lucas nos abre uma janela para o interior do seu coração. Diante da palavra transmitida pelos pastores acerca do Menino — reconhecido como Cristo, Salvador e Senhor —, o evangelista observa: “Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração” (Lc 2:19). Não se trata apenas de uma atitude de recordação, mas de uma verdadeira contemplação do mistério, de se deter ponderando, conferindo-lhes lugar no Seu Coração.
O texto original grego ajuda-nos a compreender melhor esta atitude de Maria. O verbo syntēréō, traduzido por “guardar”, significa literalmente “acumular num tesouro”. Assim, Maria recolhe as palavras dos pastores e encerra-as no Coração como um bem precioso. O segundo verbo, symbállō, traduzido por “meditar”, quer dizer “juntar, confrontar”. Sugere a imagem de Maria a unir interiormente os acontecimentos, a confrontar os sinais recebidos, a procurar o sentido mais profundo do mistério que se Lhe revela diante de Si: Quem é verdadeiramente este Filho, o pequeno Menino deitado e, como a tradição refere, “enfaixado” na manjedoura.
Este pormenor torna-se ainda mais significativo se pensarmos na origem desta informação. Como poderia Lucas conhecer o que Maria guardava e meditava no Seu Coração? Muitos estudiosos sustentam que os relatos da infância em Lucas se baseiam no testemunho directo da própria Virgem Maria. O evangelista afirma no prólogo ter investigado cuidadosamente os factos “segundo o que nos transmitiram os que foram testemunhas oculares desde o princípio” (Lc 1:2). Ora, a testemunha por excelência desde o início é precisamente Nossa Senhora. Além disso, sabemos pelos Actos dos Apóstolos (18–19) que Lucas passou alguns anos em Éfeso, entre 54 e 57, a mesma cidade onde, segundo a tradição, a Mãe do Senhor viveu após a Morte e Ressurreição de Cristo.
Seja qual for a origem imediata destes dados, o certo é que, na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, este Evangelho abre-nos uma janela para adentrarmos no Coração da Virgem. Contemplamos a Mãe que, em silêncio e fé, resguarda no Seu íntimo o mistério do nascimento do Seu Filho, reconhecido como Salvador. O texto conduz-nos assim ao núcleo da festa: a maternidade de Maria não se trata apenas de um facto biológico, mas um acontecimento de fé, no qual o mistério de Deus feito homem se torna objecto da Sua contemplação e do Seu amor materno.
Os pastores, depois de verem o Menino, regressam glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e contemplado. O Evangelho conclui recordando que, ao oitavo dia, o Menino foi circuncidado e recebeu o Nome de Jesus. Este pormenor tem grande significado: na tradição judaica, o nome não era atribuído no nascimento, mas solenemente no oitavo dia, com a circuncisão. “Jesus” provém do hebraico Yehoshua ou Yeshua e significa “O Senhor salva” (cf. Mt 1:21). Assim, no momento em que recebe o Nome, revela-se também a Sua identidade e a Sua missão: Ele é o Senhor, e a Sua vinda ao mundo tem como fim a salvação de todos. Maria, presente neste acontecimento, guarda no Coração este mistério, consciente de ser a Mãe do Salvador, do Cristo, do Senhor.
A primeira leitura (Nm 6:22–27) traz-nos a bênção sacerdotal:
“«O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz». Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei”
Não deixa de ser importante que o novo ano se inaugure com a bênção de Deus, tal como a ouvimos na primeira leitura. Existe aqui uma profunda ligação com o Evangelho: no Antigo Testamento, o Nome do Senhor era invocado sobre o povo como sinal de protecção e de graça; no Novo Testamento, ao oitavo dia, o Menino recebe o Nome de Jesus, que significa “O Senhor salva”. Já não se trata apenas de um Nome pronunciado em oração, mas de um Nome que Se fez carne, de uma presença real: Deus habita no meio de nós, e esse Deus tem um nome - Jesus.
O Salmo 67 retoma de forma poética o mesmo motivo: “Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.” (Sl 67:2). No contexto do Antigo Testamento, esta expressão evocava o olhar benevolente de Deus sobre o Seu povo. À luz do Novo Testamento, porém, esta súplica encontra cumprimento literal: Deus fez-Se homem e mostrou-nos o Seu Rosto em Cristo. Maria, como toda a mãe diante do filho recém-nascido, contempla esse Rosto com ternura. Mas, no Seu caso, o olhar materno penetra também o mistério: naquele semblante humano resplandece a luz do próprio Deus.
A segunda leitura (Gl 4:4–7) recorda-nos:
“Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adoptivos.” (Gl 4:4–5)
São Paulo menciona aqui, discretamente, Maria: “nascido de Mulher”. Estas palavras condensam em si toda a realidade da Encarnação: o Filho eterno de Deus assume a nossa humanidade, vindo ao mundo por meio de Maria. A Igreja reconheceu desde cedo a densidade desta expressão e, no Concílio de Éfeso, em 431, proclamou solenemente Maria como Theotókos, isto é, “Mãe de Deus”. Com este título, afirma-se que Maria não é apenas Mãe do Messias enquanto homem, mas a verdadeira Mãe do Verbo feito carne, do Filho divino que penetrou a história.
O título de Mãe de Deus salvaguarda a verdade essencial da fé: Jesus é verdadeiro Deus desde o instante da Sua concepção. Não Se tornou divino apenas na Ressurreição ou na Ascensão; nasceu já como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Convém, porém, evitar equívocos. Ao confessar Maria como “Mãe de Deus”, a Igreja não afirma que Maria seja maior do que Deus, nem a apresenta como Mãe da Santíssima Trindade. Ela é Mãe unicamente da segunda Pessoa da Trindade, o Filho eterno, que, pelo Espírito Santo, Se encarnou no Seu seio virginal.
O Catecismo da Igreja Católica exprime-o com clareza: “Aquele que Ela concebeu como homem por obra do Espírito Santo, e que Se tornou verdadeiramente Seu Filho segundo a carne, não é outro senão o Filho eterno do Pai, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos).” (CIC, 495)
Assim, sempre que a Igreja fala de Maria, fá-lo em ordem a Cristo, ou seja, apontando em direcção a Jesus. A Sua maternidade divina resguarda a integridade do mistério da Encarnação contra todo o erro que procure negar a plena humanidade ou a plena divindade do Senhor. É isso que celebramos a um de Janeiro: Maria, Mãe de Deus, sinal luminoso e garantia segura da fé da Igreja em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, único Salvador do mundo.
Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year C – Solemnity of Mary, Mother of God” por Brant Pitre.




