V Domingo da Quaresma (Ano A). Os amigos de Jesus

Por: Isabel Horta Correia

Primeira leitura: Ezequiel 37:12-14
Salmo: 129 (130):1-2. 3-4ab. 4c-6. 7-8
Segunda leitura: Romanos 8:8-11
Evangelho: João 11:1-45


No quinto domingo da Quaresma, a Igreja oferece-nos a história da ressurreição de Lázaro, milagre que só se encontra descrito no Evangelho de São João. Nesta história vemos Jesus verdadeiramente Deus e verdadeiro homem e voltamos a encontrar as personagens de Maria e Marta, irmãs de Lázaro. O evangelista começa por contar que Jesus recebe o recado enviado por Marta e Maria, irmãs de Lázaro, dizendo que este está doente. Jesus não se apressa, apesar de São João sublinhar que Jesus era muito amigo dos três irmãos. Jesus diz: «Esta doença não é de morte, mas sim para a glória de Deus, manifestando-se por ela a glória do Filho de Deus.»

 São João continua a descrição deste episódio:

«Betânia ficava perto de Jerusalém, a quase uma légua, e muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria para lhes darem os pêsames pelo seu irmão. Logo que Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, saiu a recebê-lo, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse, então, a Jesus: “Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido. Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá.” Disse-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará.” Marta respondeu-lhe: “Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.” Disse-lhe Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?” Ela respondeu-lhe: “Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.”

Dito isto, voltou a casa e foi chamar sua irmã, Maria, dizendo-lhe em voz baixa: “Está cá o Mestre e chama por ti.” Assim que ela ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele. Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas permanecia no lugar onde Marta lhe viera ao encontro. Então, os judeus que estavam com Maria, em casa, para lhe darem os pêsames, ao verem-na levantar-se e sair à pressa, seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para aí chorar. Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu caiu-lhe aos pés e disse-lhe: “Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido.”»

É muito clara nesta passagem do evangelho a fé de Marta e Maria. As duas acreditam que Jesus é muito mais do que um amigo. No meio do sofrimento causado pela morte de Lázaro, Marta assim que sabe que Jesus está próximo, sai ao seu encontro. Este impulso de Marta era previsível, dada as características já conhecidas desta amiga de Jesus. Mas agora também Maria, ao aperceber-se da presença de Jesus, se levanta rapidamente e vai ter com Ele. No meio do drama que estão a viver, as duas irmãs sabem que já só Jesus lhes pode valer. Deixam tudo quando percebem que podem estar com Ele. Tanto em Marta como em Maria reconhecemos esta fé e confiança na presença do Senhor. E as duas têm a mesma expressão de lamento, ou mesmo de desapontamento, ao verem o Senhor: «se Tu cá estivesses o meu irmão não teria morrido.» Como pode o nosso Amigo não ter estado connosco neste momento tão difícil? Não só para nos acompanhar, mas porque acreditamos que só Ele poderia ter interrompido o fio da história pessoal que estamos a viver e impedido o nosso sofrimento. São João quer que não haja qualquer dúvida sobre a fé destas amigas de Jesus. Assim, o evangelista revela a resposta que Marta faz à pergunta de Jesus: «Crês nisto?» Marta faz uma confissão de fé tão grande como a de Pedro no Evangelho de S. Mateus, e responde: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.» Marta não hesita, a sua fé não vacila perante o sofrimento.

Marta e Maria, no meio do seu sofrimento e apesar de acreditarem sem quaisquer dúvidas em Jesus, tiveram uma reacção semelhante aos judeus que estão presentes e que tinham vindo a seguir Jesus e sido testemunhas de outros milagres. Eles não compreendem a atitude de Jesus neste milagre, não compreendem como pode Jesus amar Lázaro e, ainda assim, permitir que permaneça no seu sofrimento, que permaneça na sua doença e até que morra.

Esta passagem mostra-nos que a nossa confiança humana deve ir muito para além da nossa compreensão. Que o «seja feita a Vossa vontade» do Pai Nosso deve ser um «faça-se em mim segundo a Vossa vontade» do fiat de Maria. Que confiar e ter fé é acreditar que o plano de Deus para a humanidade e para cada um de nós existe e resulta do Seu amor por todos e por cada homem. É acreditar que o plano de Deus para cada um de nós e para a humanidade não passa necessariamente por defender-nos de males terrenos. Mas também acreditar que Deus, ao permitir o sofrimento do Homem, não lhe é indiferente. Jesus está com cada um de nós sempre e faz-se muito presente nos momentos em que mais precisamos dele. Assim, conseguimos sair da nossa história e dor e ir ter com Ele, como fizeram Marta e Maria.

Continuando a leitura do evangelho: «Ao vê-la a chorar e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-se. Depois, perguntou: “Onde o pusestes?” Responderam-lhe: “Senhor, vem e verás.” Então Jesus começou a chorar. Diziam os judeus: “Vede como era seu amigo!” Mas alguns deles murmuravam: “Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?”
Jesus, suspirando de novo intimamente, foi até ao túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra. Disse Jesus: “Tirai a pedra.” Marta, a irmã do defunto, disse-lhe: “Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia.” Jesus replicou-lhe: “Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos ao céu, disse: “Pai, dou-te graças por me teres atendido. Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me enviaste.”»

São João torna muito explícito o sentimento humano de Jesus quando nos diz que Ele, ao aproximar-se, perturbou-se pela morte do amigo, mas também pelo sofrimento das duas irmãs: «Então Jesus começou a chorar.» As emoções humanas de Jesus, como este pranto, não contradizem a sua divindade mas revelam-nos a sua encarnação. Quando Jesus chora na tumba de Lázaro demonstra um sinal distintivo do homem. Que não restem dúvidas de que Jesus é homem em todos os sentidos. Deus faz-se homem para chegar ao pé de nós, para que o possamos sentir próximo. E que proximidade maior do que a de um Amigo que chora connosco nas alturas de maior desespero, solidão e abandono? Desta forma, Jesus manifesta não só um mero sentimento humano, mas a Sua divindade face ao sofrimento humano. Jesus chora connosco não só nos nossos sofrimentos do corpo, mas também nos sofrimentos da alma. Está connosco não só nos acontecimentos que levam à morte física, como também quando estamos longe d’Ele nos acontecimentos que levam à morte espiritual.

Temos um Deus que chora connosco para ressuscitar connosco. Santo Agostinho diz-nos: «Por que razão chorou Cristo, senão para nos ensinar a chorar?» Por outras palavras, Cristo não diminui a realidade e o horror do sofrimento ao redimi-lo. Ele participa plenamente na nossa história e mostra-nos que chorar e lamentar o sofrimento e a morte do mundo é natural, e é uma coisa boa. Ele próprio o faz. Reconhece que o sofrimento e a morte são males. E sente a dor daquela perda no Seu próprio coração humano. No entanto, permite que isso aconteça porque há uma glória maior a ser revelada. Como nos conta a passagem do evangelho de hoje, Jesus permite que tal aconteça para demonstrar com a ressurreição de Lázaro o Seu poder sobre o pecado e a morte. Jesus quer mostrar que tem poder sobre a sepultura, que pode ressuscitar Lázaro dos mortos mesmo depois do túmulo ter estado fechado durante quatro dias e o corpo de Lázaro ter começado a apodrecer e a decompor-se. Isto não é obstáculo para o poder de Jesus, para lhe dar vida. É esse o significado deste milagre. Trata-se, também, de um sinal que aponta para a ressurreição de Cristo que vamos celebrar no Domingo de Páscoa.

São Pedro Crisólogo disse-o na sua homilia sobre a ressurreição de Lázaro: a razão pela qual Jesus permitiu que Lázaro sofresse e morresse é porque, para Cristo, era mais importante vencer a morte do que curar a doença. Ele mostrou o Seu amor pelo Seu amigo não o curando, mas chamando-o de volta da sepultura. Em vez de um remédio para a sua doença, ofereceu-lhe a glória de ressuscitar dos mortos. Por isso, não esteve lá antes de Lázaro morrer. Por isso, espera próximo de Betânia mais 2 dias até entrar.

O evangelho centra-se, claramente, no sofrimento e na morte, e Jesus explica logo no início que a doença de Lázaro não é para a morte, mas para a glória de Deus. Então, Jesus usa a morte do seu amigo Lázaro como uma oportunidade para mostrar a glória de Deus, para mostrar o poder de Deus, para mostrar que o poder de Jesus não é só sobre o sofrimento, mas sobre a morte e mesmo a própria decomposição, a decomposição do corpo. Trata-se de um dos Seus maiores milagres em todos os evangelhos.

Este poder já tinha sido revelado no Antigo Testamento. A primeira leitura é extraída de Ezequiel 37, ou da visão do vale dos ossos ressequidos, que é uma profecia da ressurreição dos mortos. Aí, Deus pega nos ossos dos mortos e volta a montar os corpos, e depois coloca pele e carne sobre os ossos, sopra e dá-lhes vida. Na leitura desta semana são apenas dois versículos de Ezequiel (37:12-14) que lemos:

«Assim fala o Senhor Deus: “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, digo e faço.”»

Vemos assim que já no Antigo Testamento Deus promete que um dia abrirá os túmulos e que dará vida, não apenas a vida natural, mas a vida sobrenatural do Espírito Santo ao seu povo.

Ainda no evangelho podemos ler: «Dito isto, bradou com voz forte: “Lázaro, vem cá para fora!” O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Jesus disse-lhes: “Desligai-o e deixai-o andar.”»

Jesus tem poder sobre a morte porque também tem poder sobre o pecado, que, no fundo, é a sua causa. De certa forma, os tecidos que prendem e envolvem Lázaro representam não apenas os laços do sheol — o lugar dos mortos na tradição bíblica hebraica um reino sombrio e subterrâneo onde as almas dos justos e ímpios aguardavam o Redentor, privadas da visão de Deus —, mas também os do pecado. Reparemos que Jesus não age directamente sobre Lázaro, mas conta com a mediação de outros para desamarrá-lo. Se ressuscitar da morte é um milagre muito maior do que retirar a pedra, porque não usou Jesus o seu poder para remover aquela pedra? Jesus quer-nos colaboradores no Seu encontro com o outro. Na missão de aliviar o sofrimento da humanidade, mas também na de aumentar a compreensão de que aquele faz parte do plano de Deus, Ele conta connosco. Como contou com os seus amigos, Lázaro, Marta e Maria, na preparação da Sua ressurreição.

Jesus, tal como a Lázaro, chama-nos pelo nosso nome, e diz-nos: «Lázaro, sai!… Como amigo, eu te chamo; como Senhor, eu te ordeno… Sai!» (André de Creta, Homilia 8 sobre Lázaro)

Esta chamada à conversão, aqui já muito perto da entrada em Jerusalém, é sempre acompanhada pela certeza da misericórdia de Deus. Hoje, no Salmo, lemos o Cântico da Esperança: «A minha alma volta-se para o Senhor, mais do que a sentinela para a aurora. Mais do que a sentinela espera pela aurora, Israel espera pelo Senhor; porque nele há misericórdia e com ele é abundante a redenção. Ele há-de livrar Israel de todos os seus pecados.»

Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 5th Sunday of Lent por Brant Pitre

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