
Primeira leitura: Ex 19, 2-6a
Salmo: 100, 1-2, 3, 5
Segunda leitura: Rm 5, 6-11
Evangelho: Mt 9,36-10,8
As leituras deste Domingo convidam-nos a refletir sobre o chamamento e a missão dos Doze Apóstolos, ou seja, sobre as origens da Igreja. No Evangelho lemos;
Naquele tempo, Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus disse então aos seus discípulos: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara». Depois chamou a Si os seus doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades. São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou. Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções: «Não sigais o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça».
O Evangelho começa por relatar um olhar de Jesus. O Senhor olha as multidões e tem compaixão, porque são «como ovelhas sem pastor.» Assim, Jesus mostra-nos que a missão não nasce de uma técnica, mas de um olhar cheio de misericórdia. Ou seja, de uma forma de amar. É deste Amor de Deus por nós que as leituras deste Domingo nos falam.
Os eleitos
Na primeira leitura, do livro do Êxodo, é-nos relatado o seguinte:
Naqueles dias, os filhos de Israel partiram de Refidim e chegaram ao deserto do Sinai, onde acamparam, em frente da montanha. Moisés subiu à presença de Deus. O Senhor chamou-o da montanha e disse-lhe: «Assim falarás à casa de Jacob, isto dirás aos filhos de Israel: “Vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos transportei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim. Agora, se ouvirdes a minha voz, se guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos. Porque toda a terra Me pertence; mas vós sereis para Mim um reino de sacerdotes, uma nação santa”».
O autor sagrado descreve-nos a aliança firmada, no monte Sinai, entre Deus, Moisés e todo o Israel. Torna-se muito claro o desejo de Deus de salvar todos os Homens mediante a santificação de um povo. Esta pedagogia, ou estratégia, de salvação pode parecer-nos estranha. Deus propõe a este povo que se torne «minha propriedade especial entre todos os povos.» Povo escolhido e povo predilecto. Israel é chamado a ser, perante os povos, testemunha do Deus único. Esta eleição traz uma responsabilidade ao povo, que é chamado a ser santo como Deus é santo. As doze tribos não são eleitas apenas para constituírem o povo eleito de Deus, mas para serem uma nação santa, um povo consagrado ao Senhor, um reino de sacerdotes. A sua missão principal é prestar culto a Deus.
No Antigo Testamento, Israel é chamado a exercer uma missão universal: tornar-se referência espiritual para todos os povos. Tal como é apresentado como o filho primogénito de Deus, enquanto os restantes são vistos como filhos mais novos, também Israel recebe a vocação de guiar os outros povos, conduzindo-os ao conhecimento e ao culto do único Deus verdadeiro. Dessa forma, a eleição não é privilégio fechado sobre si mesmo, mas serviço oferecido para a salvação de todos.
Ao longo da História da Salvação, Deus vai revelando o papel desta escolha. Começando no Antigo Testamento, revela-se plenamente com a vinda de Jesus Cristo. No Evangelho deste Domingo, São Mateus mostra-nos um momento decisivo. Com efeito, quando Jesus chama os Doze, evoca simbolicamente as tribos de Israel, que remontam aos doze filhos de Jacob. Por isso, pondo os Doze no centro da Sua nova comunidade, Ele revela que veio completar o desígnio do Pai.
Jesus toma, então, a iniciativa de enviar os Doze Apóstolos em missão. O nome apóstolo significa exatamente mensageiro ou enviado. Jesus não só os chamou para o acompanharem na sua caminhada terrena como agora quer que assumam por si mesmos a missão recebida. Jesus prepara-os para a grande responsabilidade que terão após a Sua morte e Ressurreição. É como um tempo de amadurecimento e aprendizagem em que as regras são apresentadas e o Mestre ainda está por perto e pode ir corrigindo e apoiando. Mais uma vez, o Senhor sabe bem as limitações e fraquezas dos seus discípulos, mas isso não o impede de lhes pedir grandes coisas. Jesus confere-lhes a dignidade de serem seus enviados.
Enquanto o pacto do Sinai é acompanhado por trovões e relâmpagos que aterrorizam os israelitas, o início da Igreja na Galileia é desprovido destas manifestações, e reflecte a mansidão e a compaixão do Coração de Cristo. A solenidade das narrações da aliança no livro do Êxodo dá, nos Evangelhos, lugar a estes gestos humildes e discretos, como o do episódio deste Domingo.
Vemos como Jesus ao chamar a Si os Doze, os separa dos outros seguidores e lhes dá autoridade. A autoridade que Jesus possui quando proclama o Sermão da Montanha é-lhes aqui transmitida, sendo escolhidos para ser seus emissários, para agir como pastores em Seu nome, conduzindo o povo para o Reino de Deus.
Porquê proclamar? Porque nos foi dado gratuitamente
Jesus diz aos Doze: «Recebestes de graça, dai de graça.» A indicação dada não começa em nós, mas naquilo que recebemos sem qualquer mérito. A graça que recebemos, a graça da fé, o encontro com Jesus, a descoberta de que somos amados e a salvação estão ao nosso alcance. Fomos eleitos.
Tal como na eleição de Israel, na qual Deus escolhe este povo «…não por ser mais numeroso… mas porque Ele o ama» (Dt 7, 7-8), assim aconteceu com os Doze apóstolos e também acontece com cada um de nós. Todos os baptizados somos eleitos, «linhagem escolhida», como nos diz São Pedro (1 Pe 2, 9). Deus conhece-nos desde sempre, antes ainda do nosso nascimento ou da nossa concepção.
Deus pensou em mim, procurou-me entre muitos, viu-me e elegeu-me, não pelos meus merecimentos (que não existem), mas por Sua vontade. Deus quis que fosse portador da Sua eleição, que é também missão e responsabilidade pelo próximo. Esta é a razão do anúncio. Ir e anunciar a alegria daquilo que recebemos. Tal como os Doze Apóstolos não eram homens perfeitos, assim também não o somos nós. Jesus não os chamou porque já eram santos, completos, perfeitos, mas para que tal se tornassem, para que fossem transformados, para mudar desse modo também a História. O mesmo acontece connosco. O mesmo sucede com todos os cristãos. Na segunda leitura, ouvimos a São Paulo: «Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.» Tal como na sua origem, a Igreja é hoje a comunidade dos pecadores que acreditam no amor de Deus e se deixam transformar por Ele e, assim, se tornam santos e santificam o mundo.
Mas, o que anunciar? A proximidade de Deus
Uma vez escolhidos, os Doze são enviados em missão. Jesus diz-lhes: «proclamai que está perto o reino dos Céus.» Assim, os Apóstolos são emissários de Cristo na medida em que transmitem a mesma mensagem de Jesus e fazem tal qual Ele fez. Não são enviados para dizer ou fazer algo que o próprio Jesus não tenha já dito ou feito, mas para levar a Boa Nova, tanto a proclamada por palavras como a proclamada pelos milagres que realizam. Proclamam-na, em primeiro lugar, ao povo de Israel para que a palavra dos Profetas se cumpra, antes de mais, nos próprios israelitas. Antes de tudo, e em tudo, vão anunciar que Deus está próximo. Não se fez próximo apenas agora: desde sempre caminha com o seu povo, habita no meio dele, fiel às suas promessas e incessante no seu amor.
Em São Mateus, no Evangelho deste Domingo, vemos como Jesus chamou cada um dos Apóstolos pelo seu nome, chamou-os porque os conhecia bem. Ele olhou-os e eles não deixaram de O olhar, de O escutar e de observar os Seus milagres. Este encontro pessoal com o Senhor preparou-os para a missão.
Também hoje Jesus continua a passar e a chamar cada um de nós. Conhece-nos pelo nome, espera por nós, deseja encontrar-se connosco e renovar a nossa vida. Envia-nos a anunciar que o Reino de Deus está próximo, que Deus não está distante, mas vivo e presente no meio do seu povo.
Mas o Senhor mostra-nos que este anúncio não se faz apenas com palavras. Tal como Ele fez, também nós somos enviados a tornar visível a Boa Nova através das obras: gestos de bondade, mãos estendidas ao necessitado, perdão oferecido, serviço humilde, presença junto de quem sofre. A missão cristã começa quando deixamos Cristo transformar o coração e continua quando, por meio da nossa vida, outros podem reconhecer que Deus está perto.
A Igreja, como Cristo e juntamente com Ele, é chamada e enviada a instaurar o Reino de Deus, que é Amor. Esta obra de Cristo é sempre silenciosa, na humildade de viver o Evangelho todos os dias. É no desapego, simplicidade e confiança que a missão pode ser cumprida. Na Igreja, a voz de Deus continua a dizer-nos: «Agora, se ouvirdes a minha voz, se guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos.»
Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 11th Sunday Ordinary time de Brant Pitre e em “11th Sunday in Ordinary Time” em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsma




