
Por: Mafalda Moncada
Primeira Leitura: Genesis 14:18-20
Salmo: 109:1-4
Segunda Leitura: 1 Coríntios 11:23-26
Evangelho: Lucas 91:1-17
O dia do Corpo de Deus, Corpus Christi! Uma solenidade que nos recorda o grande milagre da Eucaristia – um milagre que a Igreja revive todos os dias e que, pelo seu carácter habitual, corre o risco de nos passar despercebido.
Conhecemos bem a Última Ceia, e seria natural que o Evangelho deste dia nos levasse directamente a esse momento. No entanto, a Igreja propõe-nos uma outra passagem do que nos aponta com grande profundidade para o imenso mistério da Eucaristia. Acima de tudo, relembra-nos que esta se insere num fio condutor que começou a ser construído muitos anos antes desta ser instituída. Quanto mais compreendemos esse fio, mais rica se torna a nossa participação neste mistério e melhor compreendemos o que para um judeu do séc. I seria claro.
Um só pão consagrado a Deus, partido e distribuído pelos discípulos, associado a grande abundância, a uma abundância no coração do homem que o toma. Onde é que já ouvimos esta história? Esta história de conversão do que era extremamente pouco e se tornou no bastante, no transbordante.
Mas as multidões, que tal souberam, seguiram-no. Jesus acolheu-as e pôs-se a falar-lhes do Reino de Deus, curando os que necessitavam. Ora, o dia começava a declinar. Os Doze aproximaram-se e disseram-Lhe: «Despede a multidão, para que, indo pelas aldeias e campos em redor, encontre alimento e onde pernoitar, pois aqui estamos num lugar deserto.» Disse-lhes Ele: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» Retorquiram: «Só temos cinco pães e dois peixes; a não ser que vamos nós mesmos comprar comida para todo este povo!» Eram cerca de cinco mil homens. Jesus disse aos discípulos: «Mandai-os sentar por grupos de cinquenta.» Assim procederam e mandaram-nos sentar a todos. Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão. Todos comeram e ficaram saciados; e, do que lhes tinha sobrado, ainda recolheram doze cestos cheios.
Lucas 9:11-17
A multiplicação dos pães para alimentar cinco mil pessoas. Um milagre descrito por todos os evangelistas, e que é narrado por S. Lucas com pormenores que vale a pena notar. No meio do deserto, do erēmos, brota a abundância milagrosa do pão de Deus. Erēmos é a palavra grega que S. Lucas escolhe para descrever o local onde o milagre ocorre: um lugar inóspito, árido, deserto. Esta mesma palavra é também utilizada para descrever o lugar por onde o povo judeu peregrinou durante longos anos no Êxodo do Egipto, a caminho da Terra Prometida. Ora, não há palavras ao acaso na Sagrada Escritura, e esta é uma referência que seria imediatamente reconhecida por um judeu do século I. Foi nesse mesmo lugar que Deus enviou o maná do Céu, o pão milagroso para conceder força e sustentar o Seu povo, liderado por Moisés, até chegar à Terra Prometida. O milagre da multiplicação dos pães surge, então, como um novo maná oferecido por Jesus.
No lugar deserto, o erēmos, Lucas descreve as instruções que Jesus dá aos doze apóstolos. De facto, se pensarmos bem, organizar e alimentar uma multidão de cinco mil pessoas com apenas doze homens não seria uma tarefa fácil. Lucas regista uma instrução que pode passar despercebida na narração deste milagre: Jesus pede aos apóstolos para sentarem as pessoas em grupos de cinquenta. Porquê cinquenta? É um pedido curioso e certamente exigente em termos logísticos. Exigiria tempo e organização. Esta imagem tem, no entanto, um precedente claro nas Escrituras, no livro do Êxodo (18:25-26) quando Moisés organiza as doze tribos de Israel em grupos de cinquenta e escolhe os chamados juízes, que viriam a governar as diferentes tribos:
Moisés escolheu de todo o Israel homens capazes e colocou-os à cabeça do povo, como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez. Eles julgavam o povo em todo o tempo: as questões difíceis levavam-nas a Moisés, mas todas as questões menores julgavam-nas eles mesmos.
Jesus surge como um novo Moisés com um novo Êxodo, oferecendo o pão abençoado ao seu povo como verdadeiro Deus; e em última instância ao transfigurar este pão no Seu corpo e oferecê-lo na Cruz como Filho enviado por Deus. Jesus entrega o Seu corpo e sangue ao novo Israel dos Apóstolos: a Igreja. Assim sendo, no milagre de alimentação dos cinco mil, Jesus realiza um gesto que remete não apenas ao passado – à constituição do povo de Israel –, como também ao futuro, à Última Ceia. S. Lucas relata: “Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão”. Os verbos aqui utilizados são exactamente os mesmos utilizados na Última Ceia, onde Jesus toma o pão, abençoa-o e parte-o, dando-o como sacrifício.
Assim fica explicada a escolha da leitura do Evangelho na solenidade do Corpo de Cristo. Ou seja, a Igreja escolhe este Evangelho para a solenidade do Corpo de Deus, pois nele a partilha do pão revela já o mistério do dom total de Cristo na Eucaristia.
Com base no Evangelho deste dia e na explicação anterior, seria de esperar que a primeira leitura narrasse o milagre do maná. Contudo, tal não é o caso. A Igreja escolhe uma outra antecipação da Eucaristia: a figura de Melquisedec. Esta enigmática personagem surge no livro da Génesis 14:18-20:
Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho e, como era sacerdote do Deus Altíssimo, abençoou Abrão, dizendo:
«Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo que criou os céus e a Terra!
Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos!»
E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.
Melquisedec, rei de Salém – o antigo nome de Jerusalém, a Nova Salém – surge logo após Abraão vencer uma batalha contra os reis de Sodoma e Gomorra a fim de resgatar o seu sobrinho Lot, que tinha sido capturado. Quando Abraão regressa vitorioso, Melquisedec vem ao seu encontro em acção de graças pela sua vitória e oferece um sacrifício.
Estamos habituados a associar os sacrifícios do Antigo Testamento a oferendas de animais, i.e., sacrifícios de animais. No entanto, existiam vários tipos de sacrifícios, incluindo os de acção de graças, que muitas vezes assumiam a forma de uma refeição partilhada com familiares, amigos e com Deus, para expressar a comunhão com Ele e para Lhe dar graças pelas bênçãos recebidas. É precisamente este tipo de sacrifício que Melquisedec aqui realiza: oferece pão e vinho em sinal de gratidão pela vitória de Abraão.
Note-se, ainda, como Melquisedec pode realizar este sacrifício porque é não apenas rei, como também sacerdote. É, na verdade, a primeira vez que a palavra “sacerdote” surge no livro da Génesis, quer dizer, em toda a Sagrada Escritura. Como se sabe, essência do sacerdócio é precisamente a oferta de sacrifícios a Deus, como mediação entre Deus e a humanidade.
Assim, o primeiro sacrifício oferecido por um sacerdote, explicitamente descrito na Bíblia, é de pão e de vinho, tem lugar em Jerusalém, e é oferecido em acção de graças pela vitória sobre os inimigos. Isto parece muito familiar!
Outro acto sacerdotal que Melquisedec realiza é uma colecta, que corresponde a outro tipo de sacrifício: a oferenda de bens materiais. Abraão oferece a Deus, através do sacerdote Melquisedec, um dízimo, entregando um décimo dos seus despojos de guerra. Demonstrando desprendimento e que o seu coração não está apegado àqueles bens terrenos.
Com isto em mente, não nos surpreende, então, que o salmo da festa do Corpo de Deus seja o Salmo 110, atribuído a David:
“O Senhor jurou e não voltará atrás: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.”
Este salmo é entendido de forma mais clara quando se recorda o episódio do bezerro de ouro em Êxodo 32. Até então, os patriarcas de cada família eram aqueles que exerciam o sacerdócio, a mediação entre Deus e os homens. Após o grave pecado de idolatria, de adoração do bezerro dourado, Deus retira-lhes esse direito e apenas alguns da tribo de Levi passam a poder exercer o sacerdócio.
Cerca de mil anos mais tarde, David, que era da tribo de Judá, torna-se rei de Sião (Sião e Salem são ambos Jerusalém), e ao trazer a Arca da Aliança para Jerusalém, age como sacerdote e restaura o sacerdócio. Agora segundo a ordem de Melquisedec e não de Levi, dado que David não era da tribo de Levi, mas sim da de Judá.
Melquisedec prefigura assim David, que por sua vez antecipa um outro Rei-Sacerdote de Jerusalém: Jesus Cristo. No final da Sua vida terrena, Jesus irá a Jerusalém, como verdadeiro Rei da Justiça, e reunirá e consagrará os doze apóstolos que representam as doze tribos de Israel. Dá-lhes ordem para oferecerem o sacrifício do Seu corpo e do Seu sangue, constituindo-os, assim, sacerdotes. Tal como Melquisedec, Jesus oferece pão e vinho em acção de graças pela vitória sobre o inimigo—satanás.
Por fim, temos a segunda leitura, o capítulo 11 da Primeira Carta aos Coríntios, que culmina esta sequência com a instituição da Eucaristia. Com esta leitura, compõe-se um retrato completo do mistério eucarístico.




