Pai Nosso: Compreender a Paternidade de Deus 

Por: Scott Hahn

Primeira Leitura: Genesis 18:20-32
Salmo: 137 (138), 1-2, 2-3, 6-7, 7-8
Segunda Leitura: Colossenses 2:12-14
Evangelho: Lucas 11:1-13

Se queremos ser cristãos, não temos outra escolha senão rezar: "Pai Nosso". Quando os primeiros discípulos pediram a Jesus que os ensinasse a rezar, Ele ensinou-os com essas mesmas palavras. Rezar como cristão, como discípulo de Cristo, significa rezar como Ele mesmo nos ensinou: "Pai Nosso".

No entanto, como aprendi nos meus primeiros dias de ministério, a palavra "pai" tornou-se um obstáculo para algumas pessoas. O divórcio é comum, tal como o nascimento fora do casamento. Vivo num país em que um livro popular descreveu como “sem pai”. Quer dizer, para um número crescente de pessoas, "pai" nunca significou provedor, educador ou protector, mas antes e apenas uma ausência dolorosa ou uma presença abusiva.

Além disso, mesmo as crianças que cresceram com um bom pai estão demasiado conscientes dos seus defeitos, problemas e pecados. Como se sabe, por vezes até as melhores intenções dos pais mais virtuosos acabam por ser mal executadas. O que não daríamos nós, pais humanos, aos nossos filhos! Mas nem sempre temos o que eles querem ou precisam; e, quando temos, não sabemos como lho dar sem os mimar demasiado.

É por isso que a Tradição nos diz que devemos ir além das nossas experiências e memórias terrenas da paternidade quando rezamos: "Pai Nosso". Pois, embora Ele seja provedor, gerador e protector, Deus é mais diferente do que semelhante a qualquer pai, patriarca ou figura paternal humana. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) expressa-o no ponto 2779 desta forma: “É que Deus, nosso Pai, transcende as categorias do mundo criado. Transpor para Ele ou contra Ele, as nossas ideias neste domínio, seria fabricar ídolos, a adorar ou a derrubar. Orar ao Pai é entrar no seu mistério, tal como Ele é e tal como o Filho no-Lo revelou (…)”.

Como é que Jesus, o Filho de Deus, nos revelou o Pai? Como “Pai nosso que estais nos céus” (Mt 6:9). Ao acrescentar a oração subordinada “que estais nos céus”, Jesus sublinha a diferença da paternidade de Deus. O Pai a quem rezamos não é um pai terreno. Ele está “acima” de nós; é Aquele que professamos no Credo como “Pai todo-poderoso”, i.e., omnipotente. Embora sejamos fracos, limitados e propensos ao erro, nada é impossível para Deus (Lc 1:37).

O poder de Deus distingue, então, a Sua paternidade de qualquer outra que tenhamos conhecido ou imaginado. A Sua “paternidade e poder iluminam-se mutuamente” (CIC 270). Ao contrário dos pais terrenos, Ele sabe sempre o que é melhor para os Seus filhos, e tem sempre a capacidade de o concretizar. Jesus quis que soubéssemos disto, para que pudéssemos sempre aproximar-nos do nosso Pai do Céu com confiança e confiança de criança: “Tudo quanto pedirdes com fé, na oração, haveis de recebê-lo” (Mt 21:22).

O Catecismo ensina que “Deus revela a sua omnipotência paternal pela forma como cuida das nossas necessidades” (CIC 270). Conhecemos Deus como Pai porque, ao longo de uma vida de oração, experimentamos o Seu cuidado por nós. Passamos a ver por nós próprios que Ele é poderoso e que nada nos negará do que for verdadeiramente bom para nós.

A paternidade terrena, por vezes, reflecte estas características, bem como os ofícios que assumem papéis paternais na sociedade: o sacerdócio, por exemplo, e o governo. No entanto, os pais terrenos só podem aperfeiçoar a sua paternidade purificando-se de motivos terrenos, como a ganância, a inveja, o orgulho e o desejo de controlo. Ou seja, só se podem tornar verdadeiros pais ao conformarem-se com a imagem do Pai do Céu, e essa imagem é o Seu Filho primogénito, Jesus Cristo.

Ao governar, educar ou exercer o sacerdócio, exercemos um papel paternal mais perfeito à medida que “crescemos” na Família de Deus: “Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8:17). Este processo é uma correcção divina às noções distorcidas do mundo sobre patriarcado e hierarquia.

Um antigo escritor cristão, Dionísio, o Areopagita, descreveu a hierarquia como algo que tem origem no Céu, onde a luz divina passa através dos anjos e dos santos como se todos fossem transparentes. Assim, os dons de Deus são transmitidos de pessoa para pessoa, sem se diluírem. Aqueles que estão mais próximos de Deus – e, por isso, mais “altos” na hierarquia – servem aqueles que estão “abaixo”. Em cada etapa, dão como Deus dá, sem guardar nada para si.

Repare-se, aqui, como os bens espirituais diferem dos bens materiais. Se eu for o único proprietário de algo, e.g., um casaco ou uma gravata, não é possível que outra pessoa o possua e use ao mesmo tempo. Os bens superiores, porém, são espirituais; e os bens espirituais – como a fé, a esperança, a caridade, a liturgia, os méritos dos santos – podem ser partilhados e plenamente possuídos por todos. É assim que a hierarquia funciona entre os anjos e os santos no Céu.

Para que essa partilha aconteça “na terra como no Céu”, é necessária a perfeição da paternidade terrena, que só se pode realizar se rezarmos com sinceridade: “Pai nosso que estais nos céus”. Deus é o Pai primordial, “do qual toma o nome toda a paternidade no céu e na terra” (Ef 3:15). Ele é o modelo eterno segundo o qual todos os pais humanos devem ser medidos.

Ao longo dos séculos, os cépticos têm perguntado se rezar “Pai nosso que estais nos céus” é coerente com a crença de que Deus é omnipresente e que habita em nós (Jo 14:16-23).

Sim, Deus está em todo o lado, na terra como no Céu. Está sempre presente connosco, e vive em nós quando estamos em estado de graça, livres de pecado mortal. Contudo, Jesus ensina-nos a rezar “Pai nosso... que estais nos céus” porque quer que elevemos o nosso olhar do exílio terreno para a nossa verdadeira pátria: o Céu. São João Crisóstomo expressou-o muito bem: Jesus ensinou-nos a rezar assim não para “limitar Deus ao Céu”, mas para nos elevar da terra e colocar-nos “nas alturas e nas moradas celestes”.

Deus criou-nos para Si; criou-nos para o Céu. O Céu não está separado de nós por anos-luz de distância, mas sim pelos nossos pecados. No entanto, foi o próprio Deus que criou este lugar de exílio, e é um lugar bom. Por isso, é fácil acomodarmo-nos na vida terrena e esquecermo-nos do nosso destino eterno. Pensemos nos israelitas a vaguear pelo deserto; após alguns anos de dificuldades, começaram a sentir nostalgia dos tempos de escravidão no Egipto, onde pelo menos tinham o estômago cheio.

Também nós podemos pensar assim. Quando os problemas da vida se aproximam, as promessas do Céu parecem irreais e distantes. Quando fixamos o olhar no horizonte próximo, pensamentos invejosos, ressentimentos e impulsos de ganância começam a parecer razoáveis. Afinal, se seguirmos a lógica sedutora dessas ideias, talvez consigamos agarrar já aquilo que desejamos.

O remédio para isto é, naturalmente, elevar o nosso olhar para o alto, para o Céu, a nossa pátria prometida. Pela misericórdia e pelo poder de Deus – pela Sua paternidade! – Ele prometeu-nos grandes coisas. Agora vivemos em estado de graça, mas então, quando estivermos com o “Pai nosso que estais nos céus”, viveremos em estado de glória. Agora somos os Seus templos; mas então Ele será o nosso Templo (Ap 21:22). Agora Ele vive em nós; mas então nós viveremos n’Ele.

Embora ainda não estejamos em casa, Deus Pai está connosco, e tem o poder para nos guiar através do deserto e atravessar o Jordão. Ainda que o caminho seja longo, Ele está sempre no meio de nós.

Scott Hahn, tradução do artigo original.
Esta tradução foi autorizada pelo Saint Paul Centre for Biblical Theology, Steubenville, EUA, de que Scott Hahn é fundador e presidente.
Traduzido por Paula Rios

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