Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Por: Padre Mário José Sousa

Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Primeira Leitura:
Gn 3,9-15.20
Salmo: 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4
Segunda Leitura: Ef 1,3-6.11-12
Evangelho: Lc 1,26-38


O sonho de Deus

A linguagem informativa e descritiva, que marca a ciência e o nosso quotidiano, é manifestamente insuficiente para falar de sentimentos, de experiências intensas e, de modo particular, das realidades transcendentes, que ultrapassam a realidade empírica. Por isso, quando se refere a estas realidades, o homem tem necessidade de recorrer à linguagem evocativa, em que as palavras e as imagens remetem para um sentido que ultrapassa o seu significado primeiro, ou seja, para a profundidade de uma outra dimensão. É o que acontece, frequentemente, na Sagrada Escritura e, de modo particular, nas narrativas da criação.

Depois de ter formado o homem do pó da terra – imagem que evoca a fragilidade de que este é feito –, Deus insuflou-lhe o seu próprio hálito (Gn 2,7). Desta forma simples, mas tão significativa, a Bíblia afirma que a vida humana é um dom e uma participação na própria vida divina, na medida em que o sopro (o ruah hebraico ou o pneuma grego) é transportador e transmissor da vida interior. Por isso, o autor sagrado pode afirmar que o ser humano foi criado «à imagem e semelhança de Deus» (Gn 1,27). Mas não apresenta a razão.

Quando nos fala de Deus, S. João afirma «Deus é amor» (1Jo 4,8). Não se trata de uma característica de Deus, mas da sua essência. Deus não «tem» amor, mas «é» amor. Ora, por natureza, o amor não se pode enclausurar: transborda e é gerador de vida. Um amor fechado tornar-se-ia egoísmo e, portanto, a negação de si mesmo. A criação do ser humano é, pois, a consequência da própria natureza de Deus: o homem foi criado por amor e para o amor, para uma vida de plena comunhão com Deus, com princípio, mas sem fim.

Ser criado «à imagem e semelhança de Deus» significa, pois, não apenas ser criado para a eternidade, mas também para o amor. E o amor implica a liberdade, o livre arbítrio. Amar, sem dar liberdade, não seria amor, mas egoísmo. Por isso, Deus criou o ser humano livre, com a capacidade de aceitar ou rejeitar ser amado e amar. Disso depende a sua comunhão com Deus e, consequentemente, a sua participação na vida divina.

Tudo isto é dito de forma evocativa nas duas árvores que, no relato da criação, Deus colocou no meio do jardim: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,9). O acesso à primeira é condição para que o homem continue a alimentar a vida divina (eterna) recebida pelo «sopro» de Deus; o acesso à segunda (que o mesmo é dizer, querer usurpar a prerrogativa divina de estabelecer o que é bem e mal, ou seja, querer ser Deus) é-lhe peremptoriamente proibido.


O sonho de Deus destruído

É neste contexto que a primeira leitura de hoje nos apresenta a desgraça a que o mau uso da liberdade humana conduziu os nossos primeiros pais e, neles, toda a humanidade. O homem, que antes se apresentava nu, sem nada a encobrir, oculta-se agora nos arbustos do pecado, desorientado, interiormente perturbado, perdido de si mesmo e escondido de Deus. A harmonia e felicidade que caracterizavam as suas relações ficam feridas de morte: o homem atribui a responsabilidade à mulher pela situação em que se encontra e, veladamente, culpa Deus que criou «essa mulher» que lhe deu «por companheira»; a mulher, por sua vez, culpa a serpente... Todas as relações ficam fatalmente marcadas: a relação com Deus, com os outros, com a natureza. Perde-se de Deus e perde Deus e, com isso, perde a vida divina que só tal comunhão lhe permitia, perda representada no «caminho» para a árvore da vida, que, a partir de agora, fica guardado pelos querubins (Gn 3,24).


O sonho de Deus restaurado

Profundamente desgostado, o Senhor, no entanto, não desiste. O amor nunca desiste, porque a sua única preocupação é sempre o bem daquele a quem se ama. Por isso, não destrói «o caminho» da árvore da vida. Mas o homem fica impossibilitado de lhe ter acesso; o caminho ficará guardado até que ele esteja verdadeiramente preparado para de novo aceder à vida divina na sua plenitude.

De facto, o Senhor anuncia que refará o seu projeto original: tal como criou Eva, fará surgir uma outra mulher, que esmagará a cabeça da serpente, ou seja, o poder e a vitalidade do Mal e a sua influência sobre o ser humano. Assim como Eva, pelo seu pecado, deu origem a uma humanidade marcada pelo veneno do mistério da iniquidade, assim essa mulher anunciada manifestará em si mesma uma nova humanidade de acordo com o plano original de Deus.

É à casa desta Mulher prometida que S. Lucas nos conduz no Evangelho.

Noiva de José, Maria já tinha, naturalmente, os seus projetos e sonhos. Deus pede-lhe que alargue o coração para acolher um plano muito maior: ser mãe do Messias há tantos séculos esperado. Nossa Senhora tem dificuldade em entender; o que o anjo lhe diz não tem lógica humana. Mas confia. Aqui reside a sua grandeza. Como diz S. Ambrósio: «Maria concebeu pela fé antes de ter concebido no ventre» (De Mysteriis, 49). De facto, ainda antes de ter recebido Jesus no seio, já o tinha acolhido no coração; antes de ter sido envolvida pela presença fecunda do Espírito Santo, já Maria vivia completamente mergulhada em Deus. Por isso, S. Agostinho exclamava: «Mais bem-aventurada é Maria por ter recebido a fé de Cristo no coração do que por ter concebido a carne de Cristo no ventre» (Sermo 25,7). A desobediência de Eva foi destruída na obediência de Maria. Por isso, a graça perdida em Eva foi recuperada em Maria: «Encontraste graça diante de Deus», diz-lhe o anjo. Esta graça que a Virgem Santíssima encontrou aos olhos do Senhor é consequência, naturalmente, da forma íntegra e intensa como vive a sua relação com Ele. A sua é uma fé que Deus conhece desde toda a eternidade e que, por isso, o levou a fazer o anúncio que escutámos na primeira leitura.


Em Maria e por Maria, toda a humanidade redimida

Maria foi a primeira a acreditar, a primeira a acolher Jesus e, por isso, também a primeira em quem, por antecipação, se concretiza o que Paulo afirmava na carta aos Efésios, que escutámos: já antes da criação do mundo, Deus nos amava e escolhera para, em Jesus e por sua graça, vivermos para sempre com Ele. Por esta razão, Deus a quem, como diz o anjo, «nada é impossível» preservou Nossa Senhora da marca do pecado dos primeiros pais, tal como preservou no Seu coração paterno o projeto de salvação para toda a humanidade. Imaculada desde a sua conceção, Maria é a aurora da nova humanidade que se cumpre em Jesus.

Neste sentido, afirma o Papa Bento XVI: «Maria é o espelho da Igreja: nela vemos o que a Igreja é chamada a ser: santa, pura, acolhedora da Palavra e serva do amor» (Audiência geral, 24 de março de 2010). Mas é também ícone no qual se antecipa e anuncia aquele que é o destino de todos os cristãos: a profunda união a Jesus, «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29) e nos torna co-herdeiros da sua própria vida. Por Maria, Deus reabriu de novo o «caminho da árvore da vida», cujo nome é revelado pelo anjo: Jesus, nome que significa Salvador. Ele é a salvação de Deus, porque não apenas é o «caminho» para a «vida» divina perdida nas origens, mas a própria vida de Deus, como Ele próprio afirmará «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6).

Por isso, pelo que o Senhor realizou em e por Maria, também nós juntamos a nossa voz à do salmista, para, com toda a criação, cantarmos «um cântico novo: o Senhor fez maravilhas».

Subscreva a nossa Newsletter:

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp