
Por: Isabel Horta Correia
José, pai de Jesus e nosso terceiro pai
Sagrada Família de Jesus Maria e José (do Ano A)
Primeira Leitura: Ben Sirá 3:2-6,12-14
Salmo: 128:1-2, 3, 4-5
Segunda Leitura: Colossenses 3:12-17
Evangelho: Mateus 2:13-15,19-23
Hoje, na Oitava do Natal, celebramos a Sagrada Família. Esta festa ilumina a festa do Natal, em que celebramos a entrada de Deus na história dos homens. Muitas vezes ao contemplarmos o presépio centramos a nossa atenção no Menino Jesus. Mas quem o envolveu em panos? Quem o colocou na manjedoura? Jesus é um menino humano e por isso podemos afirmar que o protagonista do Natal é uma Família. Esta Família é a expressão concreta da entrada de Deus na nossa história. Deus quis revelar-Se através de uma família humana.
Para meditarmos o mistério da humanidade de Jesus e da Sagrada Família hoje a Igreja propõe-nos o relato do Evangelho de São Mateus sobre a fuga para o Egipto.
Todos conhecemos bem a história, mas vamos reler Mateus 2:13-15:
“Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo Profeta: «Do Egipto chamei o meu filho».”
E depois os versículos 19-23:
“Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno».”
Aqui temos uma história, única nos evangelhos, incluída nos relatos da infância de Jesus na perspectiva de São José. Na missão que lhe foi confiada por Deus, São José fugiu com a Sagrada família para o Egipto de forma a protegê-la de Herodes. Defendeu-a como homem, com meios humanos, mas com total confiança em Deus.
São Mateus diz-nos que o anjo do Senhor aparece a José em sonhos. Sabemos que o Senhor recorre a sonhos como meio, no Antigo Testamento, para dirigir o Seu povo. E o anjo do Senhor é a designação dada, ainda no Antigo Testamento, à intervenção do próprio Deus (Gen 22). Vemos, por exemplo, no sacrifício de Isaac o mensageiro do Senhor identificar-se com o próprio Deus, ou na revelação do Senhor a Moisés na sarça ardente, o anjo do Senhor a chamar Moisés, embora a seguir vejamos que é o próprio Deus que lhe fala (Ex 3).
Através do Seu anjo, Deus dá a São José uma missão imediata: “Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o Menino para O matar.” José é o protagonista desta passagem do Evangelho. José leva consigo o Menino e a Sua mãe e faz o que Deus lhe ordenou. Lembremos a primeira mensagem de Deus a José onde, também em sonhos, lhe anuncia que Maria concebeu por obra do Espírito Santo, e que dará à luz um filho que salvará o povo dos seus pecados. Naquele sonho, Deus pede a José que dê o nome de Jesus àquele menino. José aceitou a vocação proposta por Deus neste sonho e tornou-se desde aquele momento o guardião de Maria e Jesus.
A aceitação de José da mensagem de fuga para o Egipto é recebida como mais uma tarefa em que José deve proteger Jesus e Maria. Jesus, Maria e José são, em certo sentido, o núcleo primordial da Igreja. Jesus é Homem e Deus; Maria, a primeira discípula, é a Mãe; e José, o guardião. Esta é a Sagrada Família sobre a qual a Igreja nos propõe reflectir este Domingo.
Ora, São Mateus, neste ponto do relato evangélico, intervém e dá-nos como razão o cumprimento das Escrituras: Isto aconteceu para cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: “Do Egipto chamei o Meu filho”. Esta é uma citação de Oseias 11:1 em que o profeta se refere ao povo de Israel como filho de Deus e ao seu êxodo da terra do Egipto, na época de Moisés. Esta referência à Sagrada Família ressalva que o nascimento de Jesus não é apenas o cumprimento das profecias sobre a vinda do rei, mas também a inauguração de um novo êxodo. Neste ponto é ressalvada a expectativa de que quando Deus salvasse o Seu povo na época do Messias, seria semelhante à forma como Ele salvou o Seu povo no tempo de Moisés, no êxodo do Egipto. E tal como a família de Moisés — a sua irmã e os seus pais — salvaram o primeiro redentor, Moisés, das mãos do perverso rei Faraó, que estava a massacrar as crianças, assim também agora José e Maria — a Sagrada Família — salvarão o novo Moisés, o Menino Jesus, das mãos do perverso rei Herodes. Neste sentido, há uma espécie de recapitulação dos acontecimentos da história da salvação, desde o Antigo Testamento até ao Novo Testamento.
Assim, a fuga para o Egipto não é apenas algo vivido por José e Maria. É o cumprimento de uma profecia. É mais um sinal de que este menino, Jesus, não é um menino qualquer. Ele é o novo Moisés que vai inaugurar um novo êxodo, que libertará o Seu povo — não da escravidão do Egipto e do Faraó, mas da escravidão do pecado e da morte.
Quando Herodes morre, outro anjo aparece a José, ainda no Egipto, num sonho, e diz-lhe:
“Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram.” (Mt 2:20)
Qualquer judeu do primeiro século se ouvisse falar de um José que estava no Egipto e que tinha tido um sonho, pensaria em José, filho de Jacob a quem Deus mudou o nome para Israel. José é um dos doze filhos de Israel, e é famoso pelos seus sonhos. Em Génesis 37, temos a descrição do famoso sonho do sol, da lua e das estrelas a curvarem-se diante dele, que representam a sua mãe, o seu pai e os seus onze irmãos, vindo curvar-se diante dele como rei. José é também um famoso intérprete de sonhos. Quando o Faraó tem os sonhos sobre os bezerros cevados, os vitelos magros, o milho frutífero e o milho estéril, José é chamado a interpretar esses sonhos, e fá-lo por estar próximo de Deus. Assim sendo, neste sentido, do mesmo modo que Moisés prefigura Jesus, o novo Moisés, José prefigura S. José.
Quando José está a regressar à Judeia, regressa a Belém e ouve que Arquelau, filho de Herodes, está no poder. Assim, em vez de ir para o território de Arquelau, decide ir para norte, para a Galileia, para a cidade de Nazaré. Mais uma vez aqui José ouve a voz de Deus e segue-a fielmente: “avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia” (Mt 2:22).
Assim, além da revelação do nascimento do Menino feita a José, José tem mais três sonhos — a partida para o Egipto, o regresso do Egipto e mudança para a Galileia. José está constantemente a ser guiado directamente por Deus através do anjo que lhe fala em sonhos. José escuta a Palavra e obedece fielmente pondo em prática o que Deus lhe pede.
A leitura do Antigo Testamento desta festa é retirada do livro de Ben Sirá 3:2-6, e a Igreja escolhe um dos textos mais famosos do Antigo Testamento sobre a família, onde lemos:
“Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe.”
E depois salta para o versículo 12:
“Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados.”
Nesta leitura de Ben Sirá, encontramos o desenvolvimento dos Dez Mandamentos, nomeadamente do quarto, “Honrar pai e mãe”. Lemos que honrar os pais é um acto de justiça que expia o pecado. Na Bíblia encontramos descritas unicamente duas atitudes que podem expiar os nossos pecados: honrar os nossos pais e dar esmola aos pobres. Também o quarto mandamento é o único acompanhado de uma promessa do Senhor: “Honra o teu pai e a tua mãe para que se prolonguem os teus dias sobre a terra que o Senhor teu Deus, te dá.” (Ex 20:12) Este mandamento indica a ordem da caridade. Deus quis que depois de Si, honrássemos os nossos pais. No Catecismo da Igreja Católica lemos: “A observância do quarto mandamento comporta a respectiva recompensa. O respeito por este mandamento proporciona, com os frutos espirituais, os frutos temporais de paz e prosperidade.” (CIC2200) Assim, podemos concluir que honrar pai e mãe nos aproxima do Céu, mas já agora na nossa passagem pela terra.
O salmo responsorial de hoje (Salmo 128) foi o salmo escolhido pelo Papa Francisco para a abertura da exortação apostólica, Amoris Laetitia, e diz o seguinte:
“Feliz de ti, que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.
Tua esposa será como videira fecunda,
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.
Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém,
todos os dias da tua vida.”
Note-se que, tal como o Evangelho de Mateus, este salmo é escrito na perspectiva do pai. É como se se estivesse a dirigir aos pais em particular e a descrever a felicidade de um pai.
Aqui é destacada a visão bíblica da família em que os filhos são uma bênção do Senhor. E que o lar está enraizado no temor do Senhor, ou seja, que é através de Deus e da nossa obediência à Sua vontade que as bênçãos chegam à família.
Voltando à Sagrada Família e ao papel que Deus confiou a São José, vemos que Leão XIII, e mais tarde São João Paulo II, confiaram a Igreja à protecção de São José. São João Paulo II escreveu uma exortação apostólica sobre a pessoa e a missão de São José. O título em latim é “Redemptoris Custos”, o Guardião do Redentor. Nesta obra somos questionados sobre o papel de São José como “padroeiro da Igreja”. Assim como S. José protegeu o Menino Jesus na fuga para o Egipto, agora protege e guarda toda a Igreja.
Vemos no final de cada narrativa do Evangelho em que José é o protagonista, que José leva consigo o Menino e a Sua mãe e faz o que Deus lhe ordenou (cf. Mt 1:24; 2:14-21). Assim, destaca-se a tarefa de José como protector de Jesus e Maria. Se Jesus e Maria são os tesouros mais preciosos da nossa fé, este tesouro é salvaguardado por São José. Esta é a Sagrada Família. Mas se São José foi guardião do corpo de Cristo Encarnado, torna-se, então, igualmente, guardião da Igreja, porque esta é o corpo de Cristo.
O Filho do Altíssimo veio ao mundo numa condição de grande fragilidade: Jesus nasceu assim, humano. Ele queria ter necessidade de ser defendido, protegido, cuidado. Deus confiou em José, assim como Maria, a guarda deste Menino Deus. Desta reflexão sobre a missão de São José podemos retirar uma característica fundamental na vocação cristã: salvaguardar. O cristão, como São José, deve salvaguardar. Salvaguardar a vida, salvaguardar o desenvolvimento humano, salvaguardar a mente humana, salvaguardar o coração humano. Ser cristão não é apenas receber a fé, confessar a fé, mas salvaguardar a vida, a própria vida, a vida dos outros, a vida da Igreja.
Assim, José é um modelo para cada pai de família. Imitando São José, ou seja, ouvindo a voz de Deus, a Sua Palavra e obedecendo-Lhe, o pai humano consegue proteger e orientar as nossas famílias. A Encarnação ocorre dentro de uma família humana, mostrando que Deus escolheu o “lar” como cenário da salvação.
Mas podemos dizer que S. José é ainda mais importante. Reparemos que Deus se fez homem mas homem de verdade. Nasce frágil e indefeso, como qualquer um de nós. Aprende tudo com Maria e José. Sabemos que Deus fez-Se homem para poder chegar ao homem. Aprendeu na Sua relação amorosa com S. José como explicar-nos o que Deus é para cada um de nós. Ao aprender como é ser filho nesta terra pode comunicar-nos como é o Pai Eterno. Isto aprendeu humanamente ao colo de São José. Assim, São José torna-se não só o modelo do pai na terra mas a grelha de interpretação do que significa ter um Pai no Céu.
Fiquemos com a oração a São José, proposta por João Paulo II, citando o Papa Leão XIII, na exortação referida:
“Pai muito amado, dissipa o mal da falsidade e do pecado... assiste-nos graciosamente do Céu na nossa luta contra os poderes das trevas... e tal como outrora salvaste o Menino Jesus do perigo mortal, defende agora a Santa Igreja de Deus das ciladas dos seus inimigos e de toda a adversidade.”
Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A- The Holy Family (Sunday within the Octave of Christmas)” por Brant Pitre e na Exortação Apostólica sobre a Pessoa e a Missão de São José, Redemptoris Custos, no. 14, 31 por S. João Paulo II.




