Sal, luz e um novo Templo. V Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Por: Duarte Azevedo Mendes

V Domingo do Tempo Comum (Ano A)
Sal, luz e um novo Templo


Primeira Leitura: Isaías 58:7-10
Salmo: Sl 112 (111):4-5, 6-7, 8-9
Segunda Leitura: 1 Coríntios 2:1-5
Evangelho: Mateus 5:13-16

Neste V Domingo do Tempo Comum, a Igreja convida-nos a continuar o nosso percurso de reflexão sobre o Sermão da Montanha, em particular a secção em que o Senhor usa o sal e a luz como figuras alegóricas. Relata-nos São Mateus:

(Mt 5:13-16)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».


Sejamos sal que salga

Concentrando-nos primeiro na figura do sal, compreendamos a sua raiz veterotestamentária, isto é, a sua origem no Antigo Testamento, e o seu simbolismo.

O sal é, bem o sabemos, utilizado hoje para temperar os alimentos e essa ideia não seria estranha ao povo da Aliança (Job 6,6). No entanto, para o Antigo Israel o sal revestia-se também de uma importância ritual. Notemos, por exemplo, esta passagem de Levítico 2:13 em que o autor sagrado fixa a forma das ofertas de cereais:

Todas as tuas ofertas de cereais serão temperadas com sal; e nunca deixarás que falte o sal da aliança do teu Deus em nenhuma das tuas ofertas. Com todas as tuas ofertas apresentarás sal.

Ora, a expressão «oferta de cereais» traduz o termo hebraico minchah, que significa literalmente oferta de pão ou de grão. Esta oferta, apresentada no altar do Templo, fazia-se frequentemente na forma de pão cozido acompanhado por um cálice de vinho – numa prefiguração do Sacramento Eucarístico.

O sal era ainda utilizado noutros sacríficos no Templo (e.g Exequiel 43:24), levando muitos autores a ver esta referência como uma exortação de Jesus à nossa união ao Seu sacrífico na cruz (recordemos que a Eucaristia é, também, «o memorial sacrifical de Cristo e do Seu Corpo»).

Ser o sal da terra significa, então, ser sal da aliança, sinal vivo no mundo da presença de Cristo, numa entrega total, à semelhança da d’Ele.


Sejamos luz que ilumina

A segunda imagem usada no excerto do Evangelho desta semana é a da luz. Esta imagem aparece repetidamente nos textos dos Profetas, sendo Israel identificado como a «luz das nações», ou seja, um farol da Verdade, um sinal da Aliança entre Deus e os Homens, sobre as trevas da idolatria e da ignorância de Deus.

E como somos convidados a ser luz? Através das nossas boas obras. A primeira leitura deste Domingo é, neste sentido, muito clarificadora da afirmação de Jesus:

(Is 58:7-10)

Eis o que diz o Senhor: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá, se O invocares, dir-te-á: ‘Aqui estou’. Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia».

O profeta Isaías faz uso desta imagem da luz, dizendo muito claramente que nos tornamos luz na medida das nossas obras, listando três das obras corporais de misericórdia – dar pão a quem tem fome, de vestir ao nu e acolher quem não tem tecto.

O Salmo, no qual a Igreja nos convida a reflectir sobre a leitura que acabámos de ouvir, sublinha:

(Sl 112:4-5, 8-9)

Brilha aos homens retos, como luz nas trevas,
o homem misericordioso, compassivo e justo.
Ditoso o homem que se compadece e empresta
e dispõe das suas coisas com justiça.
[…]
O seu coração é inabalável, nada teme;
reparte com largueza pelos pobres,
a sua generosidade permanece para sempre
e pode levantar a cabeça com altivez.

Assim, é luz nas trevas quem é «misericordioso, compassivo e justo». Ser luz do mundo é, portanto, praticar a caridade.


Um novo Templo

Perpassando todo o Evangelho deste Domingo, encontramos o Templo como elemento central da relação entre Deus e os Homens.

Sendo agora clara a relação entre o sal e o Templo, através dos sacrifícios que lá tinham lugar, entre a luz e o Templo existe também uma relação clara. Baseados em profecias como a de Zacarias 14:7-8, acreditava-se que, no fim dos tempos, o Templo seria fonte contínua de luz para o povo de Israel. Aliás, como prefiguração, todos os anos, durante a Festa dos Tabernáculos, os pátios do Templo de Jerusalém eram iluminados todo o dia e toda a noite com enormes candelabros.

A referência ao Templo e à sua cidade é também clara quando Jesus diz não ser possível esconder «uma cidade situada sobre um monte». Jerusalém ficava numa das mais altas montanhas de Israel e nas Escrituras uma viagem até ao Templo é sempre identificada como uma subida.

Já a lâmpada sobre o candelabro refere-se ao famoso Menorá que ficava no Santuário no caminho para o Santo dos Santos, o local onde se encontrava a presença de Deus no Templo.

Assim, e tendo já concluído que o sal e a luz do mundo são cada um dos discípulos, alcançamos aqui um sentido último desta passagem. O Templo da Antiga Aliança é substituído por um novo Templo, já não em pedra, mas, como S. Paulo descreve na Carta aos Efésios (2:19-22), composto por cada um de nós, os seus discípulos, pedras vivas do novo Templo do Senhor.

Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 5th Sunday Ordinary time de Brant Pitre e em “5th Sunday in Ordinary Time” em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsma

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