
Por: Teresa Alves e Duarte Azevedo Mendes
Primeira leitura: Joel 2, 12-18
Salmo: 50 (51):3-4, 5-6a, 12-13, 14, 17
Segunda leitura: 2 Cor 5:20-6:2
Evangelho: Mt 6, 1-6.16-18
Na Quarta-Feira de Cinzas a Igreja abre o tempo santo da Quaresma. Este dia tem gestos associados que, à primeira vista, podem parecer estranhos: impõe-nos cinza sobre a cabeça, jejuamos e somos chamados a um silêncio interior e a uma penitência que o mundo moderno dificilmente compreende.
Rasgai o vosso coração
A liturgia da Palavra da Quarta-Feira de Cinzas inicia-se com um apelo grave, mas cheio de misericórdia, «Convertei-vos a Mim de todo o coração», proclamado pelo profeta Joel. Não se trata apenas de uma mudança exterior, mas de um regresso profundo ao amor que deve ser o primeiro. Relata o profeta:
Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: “Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?”». O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.
Este episódio tem como pano de fundo uma praga de gafanhotos que se abateu sobre a terra de Judá, imagem de um exército inimigo vindo do Norte, que devasta colheitas e leva à fome. O profeta Joel eleva a sua voz: é tempo de jejum, de lágrimas e de lamento; é tempo de reunir a assembleia; é tempo dos sacerdotes chorarem entre o pórtico e o altar, de toda a comunidade clamar pela misericórdia divina.
No centro desta convocação solene, ressoa uma palavra decisiva: «Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos.» Deus não procura a aparência exterior. Ele deseja um coração que se abra, que se deixe tocar, que se volte para Ele. O jejum, a penitência e a assembleia solene do povo são caminhos para essa conversão interior. São meios para reacender o amor ao Senhor.
Este apelo de Deus, através do Seu profeta, não nasce da ira, mas da Sua imensa compaixão. O próprio profeta recorda que o Senhor é «clemente e compassivo, paciente e misericordioso». A nossa conversão começa sempre aqui: não no medo, mas na confiança. Voltamo-nos para Deus, que sempre nos aguarda. A Quaresma é, portanto, um tempo de esperança. Esperança de que até o coração mais endurecido pode renascer, de que a história pessoal de cada um pode recomeçar, de que a graça é mais forte do que o pecado.
Tende compaixão, Senhor
Depois de escutarmos o apelo de Deus pela boca de um seu profeta, a Igreja propõe que respondamos ao Senhor com o Salmo penitencial mais emblemático das Escrituras: «Compadecei-vos de mim, ó Deus». Esta é uma oração antiga, de um coração ferido que se volta para Deus. A tradição reconhece nestas palavras o grito de David, arrependido depois de gravíssimas traições à Lei de Deus, ele que era o rei ungido e que tinha a responsabilidade de aplicar a justiça e a bondade de Deus no seu reino.
Neste Salmo, ergue-se um clamor humilde: não um grito do desespero, mas a súplica confiante de quem acredita que a misericórdia divina é maior do que o pecado. Nele, o ser humano reconhece a própria fragilidade, confessa a sua culpa sem disfarces e, ao mesmo tempo, proclama a fidelidade inabalável de Deus. É a oração dos que caem, mas não deixam de esperar. Por isso, pedimos não apenas perdão, mas conversão: «Criai em mim, ó Deus, um coração puro». A verdadeira misericórdia, que é a de Deus, não apaga somente a culpa, mas renova o coração e restitui a alegria da salvação. Assim, a penitência cristã não conduz à tristeza estéril, mas à alegria reconciliada.
Uma conversão interior
Por fim, a Igreja convida-nos a escutar um excerto do Sermão da Montanha.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».
Jesus revela que a verdadeira justiça e piedade não consistem em procurar a glória diante dos homens, mas em buscar a recompensa do Pai celeste, que vê e conhece o íntimo dos corações. Esta passagem chama-nos a uma conversão interior própria do tempo quaresmal: a esmola, a oração e o jejum devem nascer de um amor sincero a Deus e não do desejo de reconhecimento humano.
Jesus não apresenta estas práticas como facultativas, mas como expressão natural da vida do discípulo – «quando deres esmola», «quando rezares», «quando jejuares». Ao mesmo tempo, alerta para um perigo subtil, o de fazer o bem para ser visto, que esvazia o próprio bem. A verdadeira justiça vive-se no segredo, diante do Pai que vê o que está oculto.
O ensinamento de Jesus sobre a esmola, a oração e o jejum ganha uma luz particular quando contemplado à luz do relato do capítulo 2 do livro de Génesis. No princípio, a queda do ser humano não aconteceu apenas por um gesto exterior, mas por um movimento interior do coração. A mulher viu que o fruto era atraente de aspecto, precioso para esclarecer a inteligência e bom para comer. Nestas três atitudes revela-se a raiz profunda do pecado: o desejo de possuir e o apego aos bens materiais, o apego desordenado ao prazer e o orgulho de querer ser como Deus sem d’Ele depender.
É precisamente contra estas feridas que Jesus, na passagem que escutamos neste dia, propõe que façamos o caminho quaresmal. A esmola rompe o apego às coisas e abre o coração à partilha. A oração, humilde e escondida, cura o nosso orgulho, reconduz-nos à confiança filial no Pai. O jejum educa o desejo e liberta do domínio do prazer. Assim, aquilo que se perdeu no Jardim do Éden pode ser restaurado pela graça.
A Quaresma revela-se, portanto, como um verdadeiro caminho de reparação. Em Cristo, a desobediência é vencida pela obediência e a distância de Deus transforma-se novamente em comunhão. Cada gesto vivido no silêncio, seja a esmola discreta, a oração perseverante ou o jejum oferecido, torna-se já semente de renovação interior e anúncio da alegria pascal.
Este caminho não o percorremos sós. A Igreja inteira caminha connosco, desde o primeiro dia, quando as cinzas são colocadas sobre a fronte de cada fiel. Esse sinal austero recorda a nossa condição frágil, mas, ao mesmo tempo, proclama uma esperança maior: o pó humano, as nossas cinzas, foram marcadas pela cruz de Cristo. As cinzas falam de humildade, arrependimento e verdade, preparando silenciosamente o coração para a glória que Deus promete.
Entrar na Quaresma é, portanto, aceitar viver na luz dessa verdade. É deixar cair as máscaras, reconhecer a sede de Deus escondida no íntimo e escolher passos concretos de conversão: mais silêncio para escutar, mais tempo de oração, alguma renúncia oferecida com amor, uma partilha generosa com quem sofre. Gestos simples, quase invisíveis, mas cheios de eternidade quando habitados pela graça.
Todo este itinerário converge para a Páscoa. A penitência cristã não nasce da tristeza, mas da esperança. Jejuamos para despertar a fome de Deus; choramos para aprender a alegria verdadeira; morremos para o pecado para renascer na vida nova. A Quaresma não é a noite, mas a aurora que prepara a luz do dia pascal.
Nesta Quaresma, mantenhamos, por isso, a urgência que escutámos do Apóstolo São Paulo na segunda leitura: «reconciliai-vos com Deus. […] Este é o tempo favorável, Este é o dia da salvação.» A Quarta-Feira de Cinzas, como toda a Quaresma, não é simples recordação litúrgica, mas momento real de graça. Deus passa hoje pela nossa vida e pede resposta. Adiar a conversão é correr o risco de endurecer o coração. Por isso, a Igreja insiste: este é o tempo de voltar, de procurar o sacramento da Reconciliação, de deixar que Cristo cure as feridas escondidas. A salvação não pertence nem ao passado nem a um futuro distante: oferece-se no presente concreto da nossa existência.
Texto baseado em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays the Mass Readings for Solemnities and Feasts de John Bergsma




