III Domingo da Quaresma (Ano A). A samaritana no poço

Por: Mafalda Moncada Cordeiro

Primeira Leitura: Êxodo 17:3-7
Salmo: 95 (96):1-2, 6-7, 8-9
Segunda Leitura: Romanos 5:1-2, 5-8
Evangelho: João 4:5-42


Este domingo, acompanhamos Jesus numa das suas subidas à Galileia e fazemos com Ele uma paragem particularmente marcante e cheia de referências nupciais, relatada por São João. Detemo-nos numa terra que qualquer judeu comum evitaria atravessar devido à inimizade entre povos: a Samaria.

Os samaritanos eram descendentes dos assírios, um império pagão que conquistou as dez tribos do Norte de Israel em 722 a.C. (2 Reis 15-17). Os israelitas desta região cruzaram-se com os assírios e passaram a adorar os seus deuses até ao final do séc. VI a.C, quando, com o regresso dos judeus a Jerusalém, começaram lentamente a voltar a adorar o Deus de Israel. No entanto, não adoravam em Jerusalém, conforme estabelecido na aliança de Deus com David, mas num templo que construíram no monte Gerizim (João 4). Tentavam assim manter a relação com o Deus de Israel; porém, eram vistos pelos judeus como um povo impuro.


Um pedido de noivado

É nesta região que Jesus, que era judeu, escolhe descansar e senta-se na borda de um poço - o poço de Jacob - onde encontra uma mulher. Esta é a primeira referência nupcial deste episódio. No Antigo Testamento, ocorrem três encontros significativos em poços, todos ligados ao momento em que os Patriarcas conhecem as suas futuras esposas: o servo de Abraão conhece Rebeca, a futura esposa de Isaac, num poço (Gen 24); Jacob conhece Raquel, a futura noiva e mãe de Israel, num poço (Gen 29); e Moisés conhece a sua futura noiva Zípora num poço (Êxodo 2).

Jesus pede água à samaritana - o mesmo pedido que o servo de Abraão usou para determinar se Rebeca seria a noiva escolhida por Deus para Isaac (Gen 24). Pode-se ainda dizer que Jesus espera pela samaritana, tal como o servo esperou pela noiva de Isaac. Curiosamente, a única outra vez no Evangelho de São João em que Jesus pede água é na cruz. Este pedido é, portanto, a segunda referência nupcial.

No entanto, a resposta da samaritana ao pedido de Jesus não é tão rápida como a de Rebeca (Gen 24). Há algo que impede a completa adesão ao pedido de Jesus e que Ele começa a desconstruir. É aqui que Jesus fala em água viva. Mais concretamente diz: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: “Dá-Me de beber”, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva.». Esta frase alude subtilmente à canção de Salomão 4:15, onde o noivo chama à sua noiva «nascente de água viva». Esta é a terceira referência nupcial deste episódio. Para além disso, esta «água viva» poderá ser também interpretada como a água que se usava para o banho nupcial das mulheres, uma tradição judaica de preparação para o casamento. Neste ritual, a mulher devia lavar-se com esta água viva e, quando saísse do banho, estaria preparada para o casamento. Portanto, quando Jesus oferece água viva está a convidá-la a tornar-se uma noiva, mas não de um casamento comum.

A samaritana não percebe ainda o pedido de Jesus, mas Este persiste na Sua proposta. A quarta referência nupcial é quando Jesus pede à samaritana para ir chamar o seu marido e voltar. É aqui que o passado desta mulher começa a ser revelado por Jesus. Já teria tido cinco maridos e aquele que tinha não era seu marido. Uma mulher pecadora, conhecida publicamente como pecadora, que contrasta radicalmente com Rebeca, que era virgem. O passado desta mulher seria visto como escandaloso e motivo de ostracização. Alguns sugerem que é por isso que ela viria recolher água ao poço ao meio-dia, enquanto as outras mulheres normalmente o faziam de madrugada ou ao fim da tarde, em grupo, ajudando-se mutuamente.

Jesus fala do passado da samaritana e o que é que esta faz? Reconhece-O. Reconhece-O, mas não consegue ainda ultrapassar a diferença de povos que os separa, que está entre eles também e que é marcada pelo local de adoração ao Deus de Israel. Encontrou um profeta, mas há um abismo que ainda os separa aos seus olhos. É aqui que Jesus a consola e lhe dá a notícia de esperança que esta mulher tanto esperava: o Messias chegou, «Sou Eu, que estou a falar contigo».


Um noivado divino

Logo a seguir a esta revelação de grande magnitude, o diálogo é interrompido pelos discípulos, que chegam da cidade e que, perante aquele cenário num poço, com uma mulher, se perguntam o mesmo que o leitor ou ouvinte poderá estar a pensar: porque é que Jesus, que é celibatário, estaria a falar com uma mulher num poço?

A verdade é que, de certo modo, também vai haver um noivado aqui. Jesus vem, não como um noivo comum, mas como um noivo divino que veio desposar toda a humanidade através de uma nova aliança. Na tradição judaica, Israel era vista como a esposa de Deus, numa relação tão íntima, sacrificial e permanente que podia ser descrita como um casamento.

Santo Agostinho interpreta a samaritana, a mulher do poço, como uma imagem da Igreja, porque nela se encontra representada toda a humanidade: não apenas o povo de Israel, mas também os pagãos. Judeus e gentios aguardavam o Salvador que os libertasse da sua fragilidade e do peso do seu passado.

Os antepassados da samaritana, isto é, o seu povo, tinham abandonado o seu noivo, o Deus de Israel, como relata 1 Reis 12. Agora, porém, o noivo de Israel (Os 2,14–23) regressa para ir ao encontro do povo da Samaria, que adere em grande parte ao seu convite:

«Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher, que testemunhava: “Ele disse-me tudo o que eu fiz.»

De seguida, Jesus volta-se para os discípulos, que lhe oferecem alimento insistentemente. Tanto a samaritana como os discípulos têm necessidades físicas, de sede e de fome. Mas «nem só de pão vive o homem» e Jesus responde-lhes isso mesmo:

«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra. Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro. Nisto se verifica o ditado: “Um é o que semeia e outro o que ceifa”. Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho.»

Este alimento de que Jesus fala, tal como a água viva, dura eternamente. Esta é a colheita das almas. Este alimento está a reunir as almas que Deus tornou prontas para a colheita, remetendo para a Eucaristia. Enquanto os restantes judeus vêem um povo impuro, Jesus vê na Samaria um campo cheio de almas, semeadas por Moisés e prontas para a colheita. Têm as Escrituras, a esperança do Messias, mas não têm a totalidade da verdade ainda. Jesus quer-lhes dar a água viva e o alimento para a vida eterna.


O que é que a samaritana tem que ver connosco?

Ao longo de todo este percurso atravessa-se o tema da água viva de Deus. Essa água viva é-nos dada de diversas formas. Quando Jesus está na cruz e é trespassado pela lança, do seu lado jorram sangue e água: sinais de vida que brotam do seu próprio corpo. Mais tarde, no capítulo 7 do Evangelho de São João, durante a festa dos Tabernáculos Jesus refere-se ao Espírito Santo como a água viva, dom que nos é concedido após a sua morte, no dia de Pentecostes.

Recebemos essa mesma água viva no Baptismo, quando somos plenamente purificados de todos os nossos pecados pela acção do Espírito Santo e pelo poder da água que dá vida. É por esta razão que a Igreja escolhe este Evangelho: para ajudar a preparar os catecúmenos que se dispõem a receber o Baptismo na Vigília Pascal.

No Catecismo da Igreja Católica, no ponto 1617 lemos: «Toda a vida cristã tem a marca do amor esponsal entre Cristo e a Igreja. Já o Baptismo, entrada no povo de Deus, é um mistério nupcial: é, por assim dizer, o banho de núpcias que precede o banquete das bodas, a Eucaristia Quem se prepara para receber o Baptismo, está a receber o banho nupcial de água viva que o vai tornar limpo para o banquete eucarístico. Todo este mistério se inscreve na lógica de um verdadeiro casamento entre Cristo e a Igreja, no qual cada fiel se torna parte da noiva por meio da água viva do Baptismo.

Jesus promete em casamento a samaritana para a tornar limpa através da Sua água. É também por isso que Jesus a relembra dos seus pecados, porque estes, apesar de não O impedirem de a procurar, impedem-na de O amar. Ela tem de lidar primeiro com o seu pecado, reconhecê-lo, para que Jesus a possa limpar. Jesus precisa que a samaritana reconheça os seus pecados: é aí que a porta se abre. A samaritana percebe isso porque, se repararmos, no fim da conversa com Jesus, abandona o seu cântaro e vai ter com o seu povo, ou seja, já não procura a água terrena, pois encontrou a água da vida eterna no seu Messias, no seu noivo.

Esta é uma passagem de arrependimento, em que se vira as costas a uma vida de pecado e se inicia uma vida com Cristo.


Água viva em Meribá

Se olharmos para as passagens do Antigo Testamento e do Salmo de hoje, estas também se interligam com o Evangelho, descrevendo a história da água miraculosa que brota da rocha no meio do deserto. A famosa história deste milagre em Meribá surge em Êxodo 17:3-7:

«Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela sede, começou a altercar com Moisés, dizendo: “Porque nos tiraste do Egito? Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?” Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: “Que hei de fazer a este povo? Pouco falta para me apedrejarem.” O Senhor respondeu a Moisés: “Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma na mão a vara com que fustigaste o Rio e põe-te a caminho. Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber.” Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel. E chamou àquele lugar Massa e Meribá, por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: “O Senhor está ou não no meio de nós?”».

Aqui também surge o tema das necessidades físicas do ser humano. O povo judeu duvida de Deus, duvida que Deus possa ultrapassar as suas necessidades físicas. As nossas necessidades físicas não são a definição da nossa verdadeira natureza. A satisfação da sede não é a resposta última para a condição humana. A sede dos israelitas no deserto aponta-nos para a nossa sede por Deus. «Como suspira a corça pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!» (Sl 42:1-2). Mesmo sem o saberem, a verdadeira sede dos israelitas era Deus.

O salmo vem reforçar os erros que os israelitas cometeram em Meribá, incentivando-nos com palavras a fim de não seguirmos o mesmo caminho: «Se hoje ouvirdes a voz de Deus, não endureceis os vossos corações.» Se ouvirmos hoje a voz de Deus, a chamar para nos arrependermos, a única coisa que não queremos fazer é endurecer os nossos corações e duvidar que Deus tem o poder de nos limpar.

O mesmo Deus que guiou Israel através do deserto, fala connosco hoje. Queremos ser como a samaritana, que reconheceu os seus pecados e confiou no Messias, no Salvador, para a limpar. Deus tem o poder de fazer brotar da rocha que é Jesus uma nascente de água viva, capaz de nos purificar de todo o pecado. Foi precisamente isso que realizou na Sexta-feira Santa, quando o seu coração foi trespassado. Essa mesma água viva continua hoje a jorrar para nós nas águas do Baptismo, purificando-nos e tornando-nos membros da noiva de Cristo, que é a Igreja.

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year C – 27th Sunday Ordinary time” por Brant Pitre

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