
Por: Padre Mário Sousa
Evangelho da Procissão: Mateus 21:1-11
Primeira Leitura: Isaías 50:4-7
Salmo: 22 (21):8-9, 17-18a, 19-20, 23-24
Segunda Leitura: Filipenses 2:6-11
Evangelho: Mateus 26:14-27:66
No início da celebração, o evangelho transportou-nos até às portas de Jerusalém, para contemplar a euforia com que o povo recebia Jesus na sua chegada à cidade santa, aclamando-o como o Messias há tantos séculos esperado, glorificando a Deus por ter, finalmente, enviado o seu Ungido. Foi um momento de festa, de alegria e de júbilo. Por isso, recordámos e recriámos esse acontecimento, em procissão festiva, com ramos nas mãos e cânticos nos lábios. Mas, paradoxalmente, chegados à Igreja, imediatamente a liturgia da Palavra nos projetou e imergiu nos acontecimentos de sexta-feira santa: os cânticos da multidão deram lugar aos seus gritos furiosos; a festa, a uma tensão mortal;
o jumento que transportava Jesus, a uma cruz que é por Ele carregada.
Por que razão antecipa a liturgia, de forma tão abrupta, o que celebraremos em sexta-feira santa? Por que não pudemos ficar saboreando os acontecimentos daquele domingo festivo e glorioso e fomos colocados diante da paixão e da cruz do Senhor?
A resposta é inequívoca: para que nunca nos aconteça o mesmo que àquela multidão em Jerusalém.
1. «Quem é Ele»?
«Quem é Ele?». É a pergunta que em Jerusalém todos fazem, perante o alvoroço que a entrada de Jesus em Jerusalém provoca. Assim escutávamos no evangelho que deu início à celebração deste dia. Trata-se de uma pergunta fundamental, que exige uma resposta.
A primeira resposta é dada pela multidão que, em festa, aclama Jesus como «o filho de David», ou seja, o messias-rei, descendente do grande David, alguém que – esperam eles – uma vez chegado à cidade santa, incitará o povo à revolta armada contra os romanos invasores, de modo a expulsá-los da Terra Santa. Querem um messias ao seu serviço, um Cristo que se molde aos seus critérios e desejos, um Jesus que corresponda aos seus projetos e desígnios. Por isso, não é de admirar que o evangelista nos diga no evangelho que «tanto as multidões que vinham à frente de Jesus, como as que o seguiam» o aclamavam. Uma afirmação estranha, porque o que caracteriza o discípulo não é ir «à frente», mas «atrás de» Jesus e, portanto, segui-lo (Mt 4,19.20; 17,24). De facto, diz o texto, que há um grupo que «segue», mas também um grupo que vai «à frente», querendo ser ele a marcar o caminho que o Senhor deve trilhar. Serão, com certeza, os mesmos que, nos dias seguintes, ao verem que não conseguem instrumentalizar Jesus, desiludem-se. De facto, em vez de incitar às armas, o Senhor pede construtores de paz; no lugar do rancor e do ódio, proclama um coração capaz de amar e de perdoar; no lugar de um reino político e militar, fala de um reino interior, que, como pequena semente, se torna presente e se desenvolve no interior de cada um. Um Messias assim não lhes interessava! Era preciso silenciá-lo. O entusiasmo dá lugar ao desencanto; a euforia, a um ódio mortal. Já assim tinha acontecido com Judas… é preciso que tal não aconteça com nenhum outro discípulo!
Por isso, para que nunca nos suceda o mesmo, para que jamais caiamos na tentação de instrumentalizar Jesus e de o querer moldar aos nossos interesses e projetos, S. Mateus apresenta-nos, na narração da Paixão, quem verdadeiramente Ele é e qual a sua revolução.
«Quem é Ele?». Ao contemplar a cruz do Senhor, somos convidados a cantar com S. Paulo, na carta que escreve aos filipenses e que escutámos na segunda leitura: «Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio». Para nos salvar no amor (cf. Rm 5,8).
A salvação que Jesus oferece não é a exterior que o povo queria, mas a interior, que liberta da escravidão mais profunda – a das trevas e do pecado – e nos transporta para o coração de Deus, mergulhando-nos no Seu amor, de que a paixão de Jesus é epifania esplendorosa. «Deus amou de tal modo o mundo que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que acredita nele não morra, mas tenha a vida eterna» dissera Jesus a Nicodemos no início da sua vida pública (Jo 3,16). Agora revela o que tal significa.
Jesus salvou-nos no amor! Um amor que se manifesta não apenas no hediondo suplício da cruz, mas na plena consciência que o Senhor tem do que lhe vai acontecer. Já Isaías o tinha predito, como escutámos na primeira leitura: Jesus é esse servo profetizado e misterioso que «apresentou as costas àqueles que lhe batiam e a face aos que lhe arrancavam a barba», aquele que não «desviou o rosto dos que o insultavam e cuspiam». É por saber que, na sua carne, se cumprirá a profecia de Isaías que, no Horto das Oliveiras, quando a hora se aproxima, a angústia lhe toma conta da alma. Também no mais íntimo do seu ser se dá esse combate, sempre tão presente em cada ser humano, entre o egoísmo e a vontade de Deus, entre o que se deseja e o que é necessário.
Jesus decide-se pela vontade de Deus, por «falar do nome de Deus, aos seus irmãos», como cantávamos com o salmista, num salmo que o próprio Jesus rezou antes de entregar o espírito. A cruz de Jesus «fala-nos» do nome de Deus, de quem Ele é e até que ponto nos amou. Jesus não fez poesia sobre o amor; mostrou-nos na sua carne massacrada e chagada até que ponto fomos amados. Este é o nosso Messias; este é o nosso Senhor!
2. «Que hei de fazer de Jesus?»
Diante do povo (e de nós), Pilatos apresenta dois tipos de messianismo: o de Barrabás – um revoltoso que faz parte do grupo armado que luta pela libertação de Israel (cf. Mc 15,7) – e o de Jesus. Na pergunta à multidão: «Qual deles quereis que vos solte?» (Mt 27,17), ecoa a verdadeira questão: «Qual deles preferis?». Em muitos manuscritos antigos deste texto, o nome completo do preso é apresentado como «Jesus Barrabás», o que torna o confronto entre estes dois ainda mais dramático e significativo. O nome «Jesus» significa «salvador», pelo que, a verdadeira questão colocada por Pilatos é: «Que salvação pretendeis? Que salvador escolheis? A pretensa salvação oferecida pelos messias deste mundo, ou a que apenas Jesus vos pode conceder?». Perante a resposta do povo, de que prefere um messianismo segundo os seus critérios e projetos, Pilatos pergunta-lhes e pergunta-nos: «E que hei de fazer de Jesus, chamado Cristo?» (Mt 22,22). Como seria sublime se cada um de nós lhe pudesse responder, com verdade e com a vida toda: «Entrega-mo a mim! Quero recebê-lo como Senhor e Salvador, unir-me a Ele na sua paixão, para com Ele poder viver a glória da ressurreição». Naquele domingo, nenhum discípulo ali estava para o dizer. Judas traiu-o; Pedro negou-o; os discípulos debandaram todos! Apenas um resto Lhe continuou fiel: «muitas mulheres, que tinham seguido Jesus desde a Galileia», mas que, mesmo assim, diz o texto, «a observar de longe» (Mt 27,55). Que neste grupo nos possamos sempre nós contar e não «de longe», mas de perto, acolhendo, como José de Arimateia, o corpo do Senhor, «envolvendo-o num lençol limpo» (27,59), lençol que é parábola e símbolo da nossa vida purificada e «limpa» pela vivência quaresmal e pelo sacramento da Penitência que, nestes dias, somos convidados a celebrar.
3. «Onde queres comer a Páscoa?»
Revisitemos, pois, o salmo que cantávamos na procissão com que demos início a esta eucaristia: «Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da glória!» (Sl 24,7). As portas que é preciso levantar são as da alma, os pórticos que urge alçar são os do coração, para que o «Rei da glória» possa verdadeiramente entrar: não o Jesus que, nos nossos projetos tão humanos, tantas vezes queremos, desfigurado pelo mundanismo e pelo egoísmo, mas o Messias de Deus, que nos traz a paz, o sentido da vida e a salvação.
Acolhamos o Senhor e, no início desta Semana Santa, façamos-lhe a mesma pergunta que os discípulos de então lhe fizeram (e que no evangelho escutámos): «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» (Mt 26,17). E, indubitavelmente, escutaremos a mesma resposta que também então eles ouviram: «É em tua casa que a quero celebrar» (Mt 26,18). Na minha casa, na tua casa!
Abramos, pois, as portas da nossa casa, as salas mais recônditas da nossa vida e da nossa maneira de ser, os recantos todos do que somos e do que desejamos, para que o Jesus, «o Rei da glória» possa entrar e esta possa ser, de verdade, a Páscoa do Senhor.




