
Primeira leitura: Act 6:1-7
Salmo: 33:1-2, 4-5, 18-19
Segunda leitura: 1 Pe 2:4-9
Evangelho: Jo 14:1-12
No Quinto Domingo da Páscoa, Jesus olha para além da sua própria paixão e morte, olha para a era da Igreja, para a dádiva do Espírito e prepara os discípulos para o ministério e a evangelização que irão realizar após a Sua morte. No Evangelho de S. João temos o início do que é conhecido como o discurso de despedida de Jesus. Depois de ter anunciado a Sua partida, Jesus diz aos discípulos:
«“Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar? E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também. E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho.”
Disse-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?”
Jesus respondeu-lhe: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. Se ficastes a conhecer-me, conhecereis também o meu Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo.”»
Jesus está prestes a partir. E quer dar uma palavra de encorajamento perante a sua morte iminente, dizendo: «Não se perturbe o vosso coração, porque na casa de meu Pai há muitas moradas.» Aqui, morada significa um lugar onde se fica, um lugar para permanecer. E Jesus fala da sua morte e da morada que irá preparar, onde os apóstolos permaneceriam junto a Ele. Isto poderia ser entendido como o regresso do Senhor, na segunda vinda, para levar o seu povo para morar com ele.
Um judeu daquele tempo entenderia que Jesus se estava a comparar ao noivo. No judaísmo, o noivo e a noiva não ficavam a viver juntos imediatamente, pois ficavam afastados ainda o tempo necessário ao noivo para tratar de construir uma casa. E a cerimónia do casamento propriamente dita era o cortejo em que a noiva era levada para a casa do noivo para que o casamento pudesse ser consumado. Assim, nesta passagem, Jesus está a descrever-se como o noivo, e equipara os discípulos à Igreja, a Sua noiva, e o céu, a casa do Pai, onde se reunirão mais tarde. Desta maneira, Jesus procura tranquilizar os seus discípulos: tal como o noivo, Ele regressará e levará a Igreja para Si e para o lar celestial com o Pai.
Como poderiam os apóstolos perceber o que Jesus estava a explicar? O que quereria Jesus dizer com: «virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim»? Seria no fim dos tempos? Tomé de alguma forma intuiu que não era isso que Jesus queria dizer. E pergunta: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?» Queria saber como, agora, depois de Ele partir, o podiam encontrar. Como o poderiam seguir.
E Jesus responde-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.»
Não é surpreendente que tenha sido muito difícil para os discípulos perceberem esta frase. Apesar de ser claro que Cristo é um ser humano, só muito imperfeitamente reconheciam a Sua divindade. Que Jesus seria o caminho talvez fosse perceptível, pois tinha sido esta intuição por parte dos discípulos que os tinha levado a abandonar as suas vidas, e a responder ao chamamento de Jesus seguindo-o. Mas agora Jesus diz-lhes que também é o destino. Como homem Ele diz: Eu sou o caminho; e como Deus diz: Eu sou a verdade e a vida. A verdade e a vida indicam o destino do caminho, porque de alguma forma o destino do caminho é o fim do desejo humano. Aquilo que foi inscrito no nosso coração, pela criação como filhos de Deus, leva-nos a desejar por um lado o conhecimento da verdade e por outro continuar a existir. Queremos conhecer Deus e queremos permanecer nesse Deus. Como no Salmo (86:11) «Ensina-me Senhor o teu caminho e caminharei na verdade. Dirige o meu coração para que honre o teu nome».
Jesus responde muito concretamente à pergunta de Tomé dizendo: «Ninguém vai ao Pai senão por mim». Ou seja, Jesus diz-lhe: Eu conheço o destino e por isso Eu sou o caminho. Mas também Eu próprio sou o destino: «Eu e o Pai somos Um».
Mas Filipe pergunta ainda: «Senhor mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» Ao que Jesus responde «Há tanto tempo que estou convosco. E não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes então “mostra-nos o Pai”? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim?»
Filipe é muito prático e concreto, e diz o que nós desejamos dizer: «Queremos ver, queremos conhecer, mostra-nos o Pai». Filipe pede para «ver» o Pai, para ver o seu rosto. Pedir para ver o rosto é equivalente a pedir para nos apresentar Deus. Ao pedir para ver o rosto de Deus, Filipe está a pedir para Jesus lhes mostrar o Pai. A procura de Deus faz com que a pergunta de Filipe seja a de qualquer homem, também a nossa. Assim, a resposta de Jesus não se dirige apenas a Filipe, mas também a nós; e o Senhor afirma: «Quem me vê, vê o Pai.»
Nesta expressão encerra-se a novidade do Novo Testamento, aquela novidade que apareceu na gruta de Belém: Jesus o filho Encarnado, como Nova Aliança de Deus. Como o instrumento fulcral da revelação de Deus na História da Salvação. Deus torna-se homem para nos manifestar o Seu rosto, para Se nos revelar. Para ser possível que Deus chegue ao homem, que este o conheça, Deus torna-se homem e torna-se visível em Jesus Cristo.
Podemos perceber que a boa nova resulta como resposta à procura do rosto de Deus, do desejo de conhecer a Sua face, de ver Deus como Ele é, que encontramos em todo o Antigo Testamento. Esta é a Nova Aliança, em continuidade com a história da salvação inscrita nas escrituras, e resultante do desejo gravado desde sempre no coração do homem. O tema é de tal modo recorrente no Antigo Testamento que o termo hebraico Penuel , que significa «rosto», aparece 400 vezes, das quais 100 se referem a Deus. Por 100 vezes vem explícito o desejo de ver o rosto de Deus no Antigo Testamento.
Este desejo de visualizar Deus aparece, paradoxalmente, na religião que proíbe totalmente as imagens religiosas: o judaísmo. Contrariamente, e em oposição aos povos vizinhos que adoravam ídolos representados de formas muito diversas, na religião judaica Deus não podia ser representado.
Para o israelita piedoso procurar o rosto de Deus, sabendo que ele não pode ser reduzido a uma imagem que se toma nas mãos, significa mesmo procurar o conhecimento de Deus. Podemos perceber o significado de ver o rosto em oposição a usar uma máscara. A máscara cobre a minha verdade, esconde-a. O tirar da máscara na relação humana significa tornar-me próximo do outro, entrar numa verdadeira relação de amizade. Assim, ver Deus, o seu rosto, deriva do desejo que temos de entrar em relação com Ele, pois sabemos que Deus não está fechado no seu Céu a olhar do alto a humanidade. Deus está acima de todas as coisas, mas dirige-se a nós, ouve-nos, vê-nos, fala-nos, faz uma aliança e é capaz de amar.
A história da salvação é a história de Deus com a humanidade, é a história desta relação com Deus que se revela progressivamente ao homem, que se faz conhecer a si mesmo, que nos revela o seu rosto.
O esplendor do rosto divino é a fonte da vida, é aquilo que permite ver a realidade. É a Verdade e a Vida: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor te mostre a sua face e te conceda a sua graça! O Senhor dirija o seu rosto para ti e te dê a paz!» (Nm 6: 24-26). O conhecer o rosto de Deus, o conhecer Deus, é o desejo mais profundo do homem. Só este conhecimento nos dará a verdadeira paz. Só esse é o nosso destino.
No Antigo Testamento existe uma figura à qual está ligado de modo especial o tema do «rosto de Deus»; trata-se de Moisés, Aquele que Deus escolhe para libertar o povo da escravidão do Egipto, para lhe confiar a Lei da aliança e para o guiar rumo à Terra prometida. No capítulo 33 do Livro do Êxodo afirma-se que Moisés tinha uma relação estreita e confidencial com Deus: «O Senhor falava com Moisés frente a frente, como um homem fala com o seu amigo.» Em virtude desta confidência, Moisés pede a Deus: «Mostra-me a tua glória», e a resposta de Deus é clara: «Farei passar diante de ti toda a minha bondade e proclamarei diante de ti o nome do Senhor (...) Mas tu não poderás ver a minha face, pois o homem não pode contemplar-me e continuar a viver (...) Está aqui um lugar próximo de mim (...) cobrir-te-ei com a minha mão, até que Eu tenha passado (...) Quanto à minha face, ela não pode ser vista.» Então, por um lado há o diálogo face a face como entre amigos, mas por outro há a impossibilidade de ver nesta vida o rosto de Deus, que permanece escondido; a visão é limitada.
Por isso, a boa nova trazida pela Encarnação é uma mudança completa na forma como Deus se relaciona connosco, com a sua criação. Com o nascimento de Jesus acontece algo completamente novo. A busca do rosto de Deus passa por uma transformação inimaginável, porque agora é possível ver este rosto: é o rosto de Jesus, do Filho de Deus que se faz homem. Nele encontra cumprimento o caminho de Revelação de Deus, encetado com a chamada de Abraão, Ele é a plenitude desta Revelação porque é o Filho de Deus e nele o conteúdo da Revelação e o Revelador coincidem. Jesus mostra-nos o rosto de Deus e faz-nos conhecer o nome de Deus. Tudo isto, em Jesus, tem o seu cumprimento e plenitude: Ele inaugura de um modo novo a presença de Deus na história, pois quem O vê, vê o Pai, como diz a Filipe.
A resposta de Jesus a Tomé «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» diz-nos, então, que o nosso desejo de conhecer a Deus só se realiza seguindo Cristo. Quando o verdadeiro rosto de Jesus se tornar familiar para nós na escuta da sua Palavra e na Eucaristia, saberemos que O encontrámos.
Texto baseado em Mass Readings Explained – 5th Sunday in Easter (Year A)
de Brant Pitre, e na Audiência de Bento XVI a 16 Janeiro de 2013.




